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'É como se tivesse sido morto outra vez', diz irmão de citado por Bolsonaro

Marcelo Santa Cruz - Fabiana Maranhão / Colaboração para o UOL
Marcelo Santa Cruz Imagem: Fabiana Maranhão / Colaboração para o UOL

Fabiana Maranhão

Colaboração para o UOL, no Recife

30/07/2019 17h33Atualizada em 30/07/2019 18h50

O advogado e ex-vereador Marcelo Santa Cruz comentou hoje as declarações de Jair Bolsonaro (PSL) sobre seu irmão, Fernando Santa Cruz, desaparecido desde a ditadura militar: "É como se Fernando tivesse sido morto outra vez", comparou.

Ontem, o presidente da República disse que "se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade".

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil é Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, desaparecido desde a ditadura militar, e sobrinho de Marcelo - que conversou com jornalistas na tarde de hoje na sede de uma ONG que ele fundou no Recife.

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Marcelo afirmou hoje que a família quer que o desaparecimento do irmão seja reaberto pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, ligada à OEA (Organização dos Estados Americanos).

"O governo brasileiro prestou várias informações à Corte negando a prisão e o sequestro de Fernando. [...] A Corte deu o caso por encerrado. Agora, com a declaração do presidente Jair Bolsonaro, é o caso de reabrir o caso porque ele deu uma nova informação", afirmou.

Fernando estava na casa de Marcelo no Rio de Janeiro quando saiu para encontrar um amigo e não voltou mais em 1974.

"Ele [Bolsonaro] tem informações que a família não teve, nem a Comissão da Verdade, que são informações dos porões da ditadura", acrescentou.

Bolsonaro se queixava de investigação da facada

Ontem, Bolsonaro se referiu ao desaparecimento de Fernando Santa Cruz quando comentava a atuação da OAB na investigação do caso de Adélio Bispo dos Santos, que o atacou com uma faca durante a campanha eleitoral no ano passado.

"Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados [de Adélio]? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?", questionou, antes de citar o desaparecimento.

"Não é a minha versão, é a que? a minha vivência me fez chegar a essas conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco, tá ok? E veio a desaparecer no Rio de Janeiro", completou Bolsonaro.

Mais tarde, o presidente voltou a comentar o assunto. Enquanto cortava o cabelo, ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro afirmou que Fernando Santa Cruz não foi morto por militares, mas por integrantes do grupo no qual militava.

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"De onde eu obtive essas informações? Com quem eu conversei na época, oras bolas. Não foram os militares que mataram ele, não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo o que acontece", afirmou.

Quem foi Fernando Santa Cruz

Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira consta da lista de 434 nomes de mortos e desaparecidos políticos disponível no Relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao governo federal.

Fernando nasceu no Recife em 1948, era estudante universitário, funcionário público e integrante do grupo de esquerda Ação Popular Marxista-Leninista, de resistência à ditadura militar.

Era casado e tinha um filho de dois anos, o atual presidente da OAB, quando desapareceu em fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro.

"Eduardo e Fernando foram presos nessa data de 23 de fevereiro de 1974, possivelmente por agentes do DOI-CODI do I Exército [órgão de repressão do governo brasileiro durante a ditadura militar], Rio de Janeiro, e nunca mais foram vistos", diz o relatório.

O documento aponta duas hipóteses para o desparecimento de Fernando e Eduardo. Eles podem ter sido levados ao DOI-CODI do II Exército, em São Paulo.

"Essa indicação do DOI-CODI/SP como possível órgão responsável pelo desaparecimento de Fernando e Eduardo aponta para a possibilidade de os corpos dos dois militantes terem sido encaminhados para sepultamento como indigentes no Cemitério Dom Bosco, em Perus".

A segunda hipótese é a de que eles foram encaminhados a um lugar que ficou conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), "e seus corpos levados posteriormente para incineração em uma usina de açúcar".

No fim de junho, a mãe de Fernando e avó de Filipe, Elzita Santa Cruz, morreu aos 105 anos. Ela dedicou mais de quatro décadas à procura do filho desaparecido.

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