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Deputados do PSL usam embate ideológico em escolas como agenda política

Igor Mello

Do UOL, no Rio

12/10/2019 04h00

Pivôs de um tumulto no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, ocorrido ontem, os deputados do PSL Rodrigo Amorim e Daniel Silveira acumulam uma série de embates com unidades de ensino, professores e estudantes.

Silveira, que é deputado federal, e Amorim, estadual, chegaram de surpresa ao campus principal do Pedro II, em São Cristóvão, na zona norte carioca. Com o argumento de que fariam uma vistoria na unidade, os dois tentaram entrar sem autorização prévia na escola. Eles chegaram a ser barrados pelo reitor do colégio federal, Oscar Halac, mas foram autorizados a entrar.

Os parlamentares fizeram fotos na escola, entre elas, a de um mural com cartazes sobre mortes de jovens negros em comunidades do Rio. A visita gerou protestos de alunos, que se aglomeraram na frente da unidade, no Campo de São Cristóvão (vídeo acima).

Daniel Silveira (PSL) e Rodrigo Amorim (PSL) quebram placa em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL) - Reprodução/Rede Social - Reprodução/Rede Social
Daniel Silveira (PSL) e Rodrigo Amorim (PSL) quebraram placa em homenagem a Marielle
Imagem: Reprodução/Rede Social

O Pedro II foi fundado em 1837 e é uma das mais antigas e renomadas instituições de ensino do país —acumulando resultados expressivos em índices de avaliação de qualidade de ensino, como o Ideb, e em aprovação de alunos para universidades.

Os dois parlamentares fazem agendas conjuntas desde a campanha de 2018. Juntos, foram até a Cinelândia (centro do Rio) durante a campanha eleitoral do ano passado e quebraram uma homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018. Posteriormente, exibiram a placa quebrada em um comício em Petrópolis, na região serrana, ao lado do então candidato a governador Wilson Witzel (PSC).

Agenda de costumes na educação

Apontado como pré-candidato à prefeitura do Rio, Amorim tem dedicado parte de seu mandato na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) a uma agenda conservadora de costumes voltada à educação.

Entre as iniciativas patrocinadas por ele, estão projetos de lei para obrigar alunos de universidades públicas a fazerem exames toxicológicos e a proibição de que dirigentes de escolas e universidades públicas tenham filiação partidária.

Na quinta-feira (10), um dia antes da visita ao Pedro II, ele protocolou na Alerj um projeto proibindo que alunos de escolas públicas usem "saias, vestidos e quaisquer indumentárias notadamente femininas". Em 2016, após um protesto de estudantes, o colégio liberou que meninos usassem saias em suas dependências. A medida visou evitar "sofrimento desnecessário" para alunos transexuais.

Amorim também tenta acabar com a política de cotas raciais nas universidades estaduais do Rio —prorrogada pela Alerj em 2018 por mais dez anos. Apesar disso, ele propôs um projeto para pôr fim à reserva de vagas. A Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) foi a primeira instituição de ensino superior do país a implantar ações afirmativas.

Em junho, parlamentares do PSL foram à Uerj para uma audiência pública sobre as cotas. Após baterem boca com os estudantes, eles deixaram o local. O deputado estadual Alexandre Knoploch (PSL) agrediu um estudante com um soco e um homem que compunha a comitiva do PSL ameaçou sacar uma arma contra os universitários.

Em um desses projetos, Amorim acabou derrotado. Ele tentou articular uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre as universidades públicas do Rio, protocolada por Knoploch. Segundo parlamentares de oposição, a investigação tinha como objetivo promover perseguição ideológica nas instituições de ensino. O requerimento foi derrotado por 31 votos contrários contra 16 a favor, provocando revolta nos parlamentares do PSL.

Já Daniel Silveira não tem o hábito de legislar sobre educação. Segundo o sistema de proposições da Câmara dos Deputados, ele é autor ou coautor de três propostas legislativas sobre educação, cultura e esportes. Uma delas é uma indicação legislativa sugerindo ao Ministério da Educação a transformação do Pedro II em uma unidade de colégio militar.

O que dizem os deputados

O UOL perguntou à assessoria de Rodrigo Amorim a respeito de seus projetos na área de educação, mas ainda não obteve resposta.

O parlamentar enviou à imprensa uma nota sobre a visita ao Pedro II. No texto, afirma que foi ao local "com o objetivo de verificar de que forma a segurança no entorno do colégio pode ser melhorada, a fim de preservar o corpo discente do assédio de traficantes de drogas".

Ele afirma que a vistoria faz parte de uma iniciativa chamada de Cruzada pela Educação, realizada em conjunto com o mandato de Daniel Silveira. "A Cruzada pela Educação não tem escopo ideológico, por mais que se tenha verificado nos locais visitados até agora uma forte doutrinação. As vistorias vão continuar, sempre com o foco na Segurança dos alunos e nas estruturas necessárias para o bom desempenho escolar", escreveu.

A reportagem procurou o gabinete de Daniel Silveira por telefone e e-mail na tarde de ontem, mas não obteve resposta.

Em seu perfil no Instagram, o parlamentar confirmou que a visita tinha caráter político. "Neste dia um professor(a) de português passava em aula, um vídeo do Jean Wyllys em assuntos nada relativos à matéria. A doutrinação existe e vamos combater. Tomaremos todas as medidas cabíveis nas escolas que tomarem tais 'protocolos'", escreveu.

O Colégio Pedro II decidiu não se manifestar sobre a visita dos parlamentares, mas disse estar contemplado em nota pública do Conif (Conselho Nacional de Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica). A entidade manifestou "total apoio ao Colégio Pedro II (CPII) e integral repúdio a quaisquer iniciativas que visem desestabilizar o funcionamento de instituições de ensino, incentivar a desconstrução dos valores éticos institucionais e/ou que expressem perseguição aos dirigentes públicos".

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