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Lula ataca Globo, Moro e Bolsonaro em discurso no ABC: "Eu estou de volta"

Ana Carla Bermúdez, Bernardo Barbosa, Luís Adorno e Marcos Sergio Silva

Do UOL, em São Paulo e em São Bernardo

09/11/2019 15h22Atualizada em 09/11/2019 19h27

Resumo da notícia

  • Um dia após ser solto, Lula participou de ato no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
  • Em discurso a militantes, disse: "Eu estou de volta"
  • Ele disparou críticas à Rede Globo, ao presidente Jair Bolsonaro e a Sergio Moro
  • E também ao projeto econômico do atual governo

Em discurso um dia após ser solto da sede da Polícia Federal, em Curitiba (PR), onde cumpria pena, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou críticas à Rede Globo, ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ao procurador Deltan Dallagnol, ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) e ao ministro da Economia, Paulo Guedes, em frente à sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP).

Embora tenha dito que saiu sem ódio dos quase 20 meses de prisão, Lula subiu o tom e partiu para o confronto político.

Eu duvido que o Moro durma com a consciência tranquila que eu estou. Eu duvido que o Deltan durma com a consciência tranquila. Eu duvido que o Bolsonaro durma com a consciência tranquila que durmo. Eu duvido que o destruidor de empregos Guedes durma com a consciência tranquila que durmo. E digo: eu estou de volta
Luiz Inácio Lula da Silva

Pelo Twitter, Moro disse que não responde a "criminosos presos ou soltos" e afirmou que "algumas pessoas só merecem ser ignoradas".

Lula foi solto ontem em Curitiba, um dia depois de o STF (Supremo Tribunal Federal) decidir que um réu só pode cumprir pena depois de esgotar seus recursos na Justiça — e quase 600 dias depois de ser preso pela condenação em segunda instância no caso do tríplex, da Operação Lava Jato. Ele continua inelegível pela Lei da Ficha Limpa e responde a outros processos criminais.

Hoje, precedido por uma saraivada de rojões, Lula discursou em cima de um trio elétrico em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, seu berço político e o último lugar por onde passou antes de ser preso.

Sem palavrão, contra Bolsonaro

Enquanto militantes xingavam Bolsonaro, Lula reprimiu o grito e disse duvidar se as pessoas fossem criadas pela mãe dele diriam palavrões como disseram contra Dilma na abertura da Copa do Mundo de 2014.

Fui criado para não dizer palavrão. Não vou dizer palavrão a Bolsonaro, ele é o próprio palavrão
Lula

Em seu discurso, Lula fez uma série de críticas ao presidente Jair Bolsonaro, chamando o seu governo de um governo de "milicianos". "Esse país não merece o governo que tem. Esse país não merece um governo que manda seus filhos contarem mentira todos os dias através de fake news", declarou.

"Não adianta ficar com medo, não adianta ficar preocupado com as ameaças que eles fazem na televisão. Que vai ter miliciano, que vai ter AI-5 outra vez", disse, em referência a uma fala do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.

Lula participa de ato em São Bernardo do Campo (SP) após deixar a prisão  - Luís Adorno/UOL
Lula participa de ato em São Bernardo do Campo (SP) após deixar a prisão
Imagem: Luís Adorno/UOL

O petista também fez duras críticas ao projeto econômico do atual governo que, segundo ele, está "empobrecendo" ainda mais a sociedade brasileira.

"Quando eu fui preso, achei que minha prisão ia permitir recuperar o Brasil", disse. "Mas o povo tem menos carro, menos emprego. Quero saber se o juro do cheque especial caiu. Se o juro da Casas Bahia caiu. Porque é esse juro que toca diretamente no bolso do trabalhador, que mexe no salário do nosso povo. A Selic caiu, mas o spread bancário não caiu", declarou.

Lula defendeu, ainda, a distribuição de livros "contra a distribuição de armas do Bolsonaro". "Se as pessoas tiverem onde trabalhar, tiverem salário, onde estudar, se tiverem acesso a cultura, a violência vai cair". Procurado pelo UOL, o Planalto informou que não irá comentar as declarações do ex-presidente.

Marielle e Queiroz

Ao lado de lideranças do PSOL, como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, Lula lembrou o assassinato da vereadora Marielle Franco. "Quem matou Marielle?", perguntou. "Não é a gravação do filho dele que vale [sobre o depoimento do porteiro, que disse que um dos suspeitos de morte da vereadora pediu o número da casa de Jair Bolsonaro]. É preciso que haja uma perícia séria para que a gente saiba quem matou Marielle."

Antes, ele disse reconhecer a eleição de Bolsonaro, mas afirmou que o presidente "foi eleito para governar para o povo brasileiro, e não para os milicianos do Rio [de Janeiro]". "Ele [Bolsonaro] tem que explicar onde é que está o Queiroz. Como ele construiu um patrimônio de 17 casas. Eu quero saber como esses caras juntam dinheiro."

Lula é carregado por militantes após discurso em São Bernardo

UOL Notícias

Críticas à mídia

O ex-presidente criticou a mídia televisiva, sobretudo o que chamou de falta de cobertura dos vazamentos das conversas da Lava Jato. Logo ao subir no palanque, mirou um helicóptero da Rede Globo: "Lá em cima tá o helicóptero da Rede Globo para falar merda de novo sobre Lula e sobre nós."

"Na cadeia, fui obrigado a ver TV aberta. O SBT foi uma vergonha, a Record está uma vergonha e a Globo continua uma vergonha. Eles não deram uma matéria sobre o Intercept, só uma para defender o Faustão", disse.

Em nota, a Globo repudiou os ataques de Lula e disse que faz jornalismo sério e continuará a fazer. "A prova de isenção da emissora é a transmissão do discurso que o ex-presidente fez ontem e hoje. Também é prova de sua isenção ser alvo de ataques dos extremos do espectro político hoje, tão radicalizado", diz o texto.

Nova caravana

Ao terminar o discurso, o ex-presidente sinalizou que deve entrar em uma nova caravana nos próximos dias, citando como aliados a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, candidato derrotado à Presidência em 2018.

"A partir da semana que vem eu vou estar cuidando da minha vida. Eu não sei qual confusão vão criar para mim, mas eles não sabem o tesão que estou." O petista prometeu, ainda, fazer um novo pronunciamento ao povo brasileiro dentro de 20 dias.

Lula deixou claro que ainda quer conseguir, na Justiça, a anulação dos processos contra ele. Está pendente no STF o julgamento de um processo sobre a suspeição de Moro no caso do triplex, o que pode anular a ação. "Nós ainda não ganhamos nada", afirmou.

No topo do trio, enquanto políticos como Eduardo Suplicy e Alexandre Padilha dançavam e cantavam, os advogados de Lula, Cristiano Zanin e Valeska Martins, esboçavam tímidos sorrisos — mas ambos foram bastante aplaudidos quando citados por Lula.

Calor e cerveja

Lula chegou por volta das 13h30 na sede dos Sindicato dos Metalúrgicos, em São Paulo. Foi recebido por um tapete vermelho. Subiu ao palanque e começou o discurso pouco antes das 15h.

Sob forte calor, muitas pessoas passaram mal. Militantes chamavam a atenção do palco para que paramédicos sejam chamados. Sem entender direito uma dessas sinalizações, Lula disse: "Deem água, abanem, espaço. Se eu for aí ajudar, vai ter mais confusão".

O caminhão em que Lula discursou estava cercado de militantes por todos os lados. Na lateral oposta à de Lula, mesmo sem vê-lo, seus apoiadores ouviam seu discurso atentamente, muitos de cerveja em punho.

Ainda no início do discurso, o microfone de Lula falou diversas vezes. Com humor, o ex-presidente reagiu: "Eu fiquei 580 dias sem ter com quem falar. Agora, quero falar".

O discurso de 45 minutos terminou com uma queima de fogos e ao som de "Vermelhou". O clima era de uma festa por um título de futebol, com a torcida saudando o capitão do time.

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente que Fernando Haddad foi derrotado na eleição para a Presidência em 2019. Na verdade, ele foi derrotado em 2018. A informação foi corrigida.

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