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Globo critica Crivella após novo veto em evento: "Atitude antidemocrática"

27.set.2018 - O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella - Carl de Souza/AFP
27.set.2018 - O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella Imagem: Carl de Souza/AFP

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

13/12/2019 13h04

Resumo da notícia

  • Crivella vetou a presença de repórteres do Grupo Globo em evento no Palácio da Cidade
  • O Grupo Globo definiu a atitude do prefeito como "autoritária e antidemocrática"
  • A proibição acontece em meio a denúncias sobre crise na saúde pública do Rio
  • Em vídeo ontem, Crivella negou a existência de crise; ele não se manifestou sobre veto

O Grupo Globo definiu como uma "atitude autoritária e antidemocrática" o fato de o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), ter impedido a entrada de jornalistas do G1, TV Globo e Globonews em evento que anunciou hoje socorro de R$ 152 milhões à saúde do município.

Os repórteres e cinegrafistas foram impedidos pela Guarda Municipal de entrar no Palácio da Cidade, uma das sedes do governo. O veto de Crivella veio depois de veículos do Grupo Globo terem noticiado falta de vagas em hospitais públicos e atrasos salariais dos profissionais de saúde. Crivella defendeu ontem, em vídeo publicado em rede social, que a crise "não existe".

"Dado o óbvio impacto na vida dos cariocas, o tema tem merecido ampla cobertura jornalística. Apesar da atitude autoritária e antidemocrática do prefeito, tudo o que de mais relevante tiver sido ali anunciado será noticiado. O que importa para a TV Globo e para os demais veículos do Grupo Globo é manter o público bem informado. Manteremos esse compromisso", diz o comunicado.

Procurada pelo UOL para explicar o porquê do veto, a prefeitura afirmou que "o grupo Globo não exerce jornalismo sério, mas, sim, age como panfleto político, interessado em atacar governos que não lhes dão dinheiro para publicidade e, assim, ganhar espaço para notícias boas".

Crivella também barrou jornal na semana passada

Na semana passada, a equipe de Crivella já havia impedido que a reportagem do jornal O Globo participasse da entrevista coletiva sobre o Réveillon na cidade. Entidades de defesa da liberdade de expressão e de especialistas ouvidos pelo UOL criticaram Crivella. Na avaliação deles, o prefeito violou a Constituição e agiu com autoritarismo ao proibir a entrada da reportagem do jornal.

Para o advogado Marcus Vinícius Cordeiro, diretor de comunicação da seccional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Rio, a atitude de Crivella fere os direitos de imprensa.

"Essa determinação representa, no plano da ação do agente público, uma arbitrariedade que se choca com a Constituição. A Constituição prevê a liberdade de expressão e informação, o que pressupõe que os órgãos de imprensa tenham ampla liberdade de trabalhar", afirmou.

Cordeiro observou que esse tipo de atitude tem se tornado cada vez mais frequente na relação de autoridades com a imprensa. Ele cita como exemplo as retaliações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra a Folha de S.Paulo —que chegou a ser excluída de uma licitação federal (o edital foi revogado) e alvo de constantes ataques por parte de Bolsonaro e seus auxiliares.

"Quando o agente público impede um veículo de participar de uma cobertura ele escolhe a quem falar. É uma forma de criar uma imprensa chapa branca. Vemos isso com gravidade. Isso está perpassando os poderes constituídos. Desde o presidente proibir que a Folha participe de licitações, até essas ações da prefeito contra O Globo", completou.

Diretora executiva da ONG Artigo 19, especializada em direitos humanos e acesso à informação, Denise Dora ressaltou que, ao atacar O Globo, Crivella acaba acertando a população, que tem o direito de receber informações por fontes diversas.

"Autoridades governamentais brasileiras têm anunciado o corte de assinaturas de jornais em repartições públicas, exclusão de licitações, boicote a anunciantes e deliberada recusa em fornecer entrevistas ou informações. Estes atos e declarações contra jornais, como O Globo e Folha de S.Paulo, que têm uma longa história na cena nacional, representam um ataque à liberdade de imprensa e à liberdade das pessoas de receber informações por fontes diversas. Parte do pressuposto que uma opinião —a sua— é suficiente para informar uma nação. Trata-se de autoritarismo expresso que não combina com os deveres de governantes eleitos em regras democráticas de diversidade de opiniões e escolhas", afirma.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) também repudiou o ato de prefeito. Em comunicado, o órgão disse que a decisão de Crivella "representa uma afronta ao princípio da publicidade da administração pública, à liberdade de expressão e ao direito dos cariocas em terem acesso às informações sobre a gestão municipal".

"Mais uma vez o prefeito Marcelo Crivella mostra não ter a dimensão de seu cargo. A ABI repudia a discriminação praticada por ele e, novamente, reafirma seu compromisso com a liberdade de imprensa e a democracia", diz a nota assinada pelo vice-presidente da ABI, Cid Benjamin.

Questionada pelo UOL quanto ao porquê de vetar a presença da reportagem de O Globo em entrevista coletiva, na ocasião, a prefeitura afirmou, por meio de nota, que "a coletiva era para imprensa. O Globo não é um jornal, mas sim um panfleto político, sempre interessado em trocar notícia por verba de publicidade".

Antes de barrar o jornal na coletiva, Crivella anunciou, no dia anterior, que a sua equipe de comunicação não responderia mais a demandas de O Globo. De acordo com ele, o veículo seria tendencioso ao publicar notícias negativas sobre a sua administração.

O fato ocorreu após o jornal publicar reportagem sobre investigação do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) a respeito da existência de um suposto balcão de negócios na prefeitura para a liberação de verbas a empresas mediante pagamento de propina.

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