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Acusado de espionagem, articulador de Witzel abre crise com a Alerj

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), no CEO Conference Brasil 2020 no Grand Hyatt, em São Paulo - RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), no CEO Conference Brasil 2020 no Grand Hyatt, em São Paulo Imagem: RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

20/02/2020 04h00

Aliado de primeira hora do governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão, se tornou o pivô da crise que já culminou em um pedido de impeachment do chefe do Executivo protocolado na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), na última terça-feira (18).

Escolhido por Witzel para fazer a interlocução entre o governo e o plenário fluminense durante o seu mandato, Tristão é apontado por deputados como autor de intimidações e o principal responsável por produzir supostos dossiês contra 70 parlamentares com base em escutas telefônicas ilegais.

Nos bastidores da Casa Legislativa, comenta-se que a solicitação de explicações ao governador, protocolada no Diário Oficial do Estado pelo presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), quanto à suposta espionagem, assim como o pedido de impeachment, tenham como principal objetivo gerar desgaste na relação de Witzel com Tristão —e demonstrar insatisfação com o tratamento dispensado pelo governo à Alerj.

"Ele se porta como o vice-governador que não é", pontua o deputado Luiz Paulo (PSDB), um dos políticos que fala abertamente sobre o caso e aponta tentativas de interferência de Tristão na Alerj.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), posa ao lado do secretário de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão - Reprodução/Facebook
O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), posa ao lado do secretário de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão
Imagem: Reprodução/Facebook

O desgaste teria começado logo nos primeiros dias do governo Witzel. Na ocasião, o secretário tentava emplacar no Legislativo fluminense o primeiro projeto do Executivo enviado ao plenário: o congelamento do piso salarial do estado por dois anos. A resistência de parte dos deputados à medida fez com que Tristão adotasse uma postura considerada "intimidatória".

"Ele foi de uma postura arrogante. Batia nas costas dos deputados e perguntava se votariam com o governo ou não. Isso não se faz", relata o deputado Max Lemos (MDB). Com o apoio do então presidente do diretório fluminense do PSL, o senador Flávio Bolsonaro (atualmente sem partido), Tristão contava com os 12 parlamentares recém-eleitos pelo partido, além da base governista —o que fazia dele ainda mais poderoso nos bastidores. Apesar disso, a medida não foi aprovada na Alerj.

De acordo com deputados ouvidos pela reportagem, além de problemas diretos com parlamentares na defesa das pautas do governo, Tristão faltou a encontros agendados em redutos eleitorais considerados estratégicos e chegou a fazer ameaças sobre cortar as indicações de cargos de quem votasse contra os seus interesses.

Um dos casos mais emblemáticos desta relação aconteceu no ano passado, em reação a um projeto de lei apresentado pelo deputado Luiz Paulo que previa que apenas a Secretaria Estadual de Fazenda ficaria responsável pela concessão dos benefícios fiscais do estado.

"A redação do projeto de lei com as emendas já havia sido alinhada com o governo, inclusive com o aval do líder na Assembleia [o deputado Márcio Pacheco (PSC)]. Tristão se sentiu rejeitado com esse projeto, que tirava dele parte da competência sobre os benefícios fiscais. Em cima da hora, por ação dele, o governador vetou o projeto. Tivemos uma reunião do colégio de lideres, na qual resolvemos derrubar o veto no plenário. No dia da votação, ele e outros secretários articularam com os deputados da base e pediram a manutenção dos vetos", relata.

A saída do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) do PSL e a briga dele com Witzel, no entanto, enfraqueceram a relação de Tristão com a Alerj, fazendo com que antigos aliados mudassem de lado e passassem a pressionar o governo por uma resposta. "Por mim, esse sujeito é investigado, sim. As práticas dele são inaceitáveis num parlamento, a coisa chegou ao limite", diz o deputado Filippe Poubel (PSL).

No momento, o líder do governo na Alerj, Márcio Pacheco, além dos deputados Gil Viana, Rodrigo Amorim, Alexandre Knoploch, Gustavo Schmidt e Marcelo do Seu Dino (todos do PSL, que não se mostram inclinados a seguir a família Bolsonaro no seu novo partido), são apontados como os únicos deputados que seguem apoiando Tristão.

Até mesmo o presidente da Alerj, tido como aliado de Witzel, muda de tom ao falar de Tristão. "Essa questão é problema do governador. Não foi ele quem nomeou? Ele que resolva", resumiu ao ser questionado sobre a relação entre deputados e o secretário.

"O todo poderoso"

No último mês, no auge da crise da água envolvendo a Cedae (Companhia de Águas e Esgotos), uma indicação de Tristão para assumir o cargo de conselheiro da Agenersa (Agência Reguladora de Energia e Saneamento) jogou ainda mais lenha na crise entre deputados e o secretário.

Em sabatina, o indicado para o cargo, Bernardo Sarreta, assumiu não saber qual seria o papel de uma agência reguladora, reconheceu não ter realizado leituras técnicas sobre o tema e jamais ter pisado da Estação de Tratamento do Guandu.

Depois da negativa da comissão, caberia ao plenário da Alerj votar pela aprovação, ou não, do nome de Sarreta. Antes que a votação fosse iniciada, Witzel retirou a indicação que havia sido feita pelo secretário.

"Foi um desastre o que aconteceu na Agenersa. Todos sabiam na Alerj que esse nome não passaria na sabatina, que ele não tinha condições. Mas, o Tristão se acha o todo poderoso, é uma unanimidade", afirma Max Lemos.

Procurado pela reportagem através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Tristão ainda não se manifestou sobre as críticas dos deputados.

Amizade antiga com Witzel

Ex-aluno de Witzel e advogado especializado no setor empresarial, Tristão chegou a defender o governador em processos judiciais e foi seu coordenador de campanha.

O advogado capixaba também representou a empresa Atrio Rio, ligada ao empresário Mário Peixoto —um dos principais fornecedores do estado, com mais de R$ 450 milhões negociados em contratos com o governo do estado desde 2007 e citado em delação premiada do ex-presidente do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Jonas Lopes.

Em seu site de campanha, Witzel chegou a emitir um comunicado na época dizendo: "Tristão é meu advogado e não tenho qualquer controle sobre os outros clientes dele".

Tristão prestará esclarecimentos na Alerj

Tristão terá que prestar esclarecimentos na Alerj em relação à suspeita de espionagem contra os 70 deputados da Casa Legislativa.

Em sessão extraordinária realizada na segunda-feira (18), a Comissão de Segurança Pública da Casa definiu que ele será convocado para uma sabatina quanto à suposta confecção ilegal de dossiês, que teriam sido feitos com base em grampos telefônicos clandestinos dos parlamentares. Ainda não há data marcada para o interrogatório.

Os supostos grampos também motivaram sete deputados bolsonaristas do PSL na Alerj a protocolarem um pedido de impeachment contra Witzel.

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