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Bolsonaro contraria Ministério da Saúde e faz tour pelas ruas do DF

Bolsonaro conversa com um vendedor de churrasquinho em Taguatinga (DF) - Reprodução
Bolsonaro conversa com um vendedor de churrasquinho em Taguatinga (DF) Imagem: Reprodução

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

29/03/2020 11h29Atualizada em 29/03/2020 13h07

Em meio à pandemia do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contrariou orientações do Ministério da Saúde e saiu hoje às ruas do Distrito Federal para falar com ambulantes, ir a comércios que seguem abertos (farmácia, supermercado, posto de gasolina) e visitar o HFA (Hospital das Forças Armadas).

No Twitter, Bolsonaro publicou um vídeo no qual aparece conversando com um vendedor de churrasquinho em Taguatinga, cidade satélite do DF —a 27 km de Brasília. Depois, na volta para o Palácio da Alvorada, declarou ter ficado sensibilizado com o relato do trabalhador informal.

"O mais emocionante foi em Taguatinga. Um senhor vendendo churrasquinho de gato, assim que é conhecido, já comi muito churrasquinho de gato, falando dos problemas dele para sobreviver. A gente vê que ele vai fazer isso por muito tempo. Dificilmente ele vai mudar de profissão."

"Agora, vai condenar esse cara a ficar dentro de casa? Ele não tem poupança, não tem renda. A geladeira dele, se tiver, já acabou a comida. Tem que trabalhar, sustentar a família, cuidar dos filhos", completou.

O presidente também passou por Ceilândia (33 km de Brasília), onde conversou com trabalhadores informais e defendeu o uso de remédios feitos com cloroquina e hidroxicloroquina (substâncias que ainda estão em fase de testes contra o vírus).

Em um mercado no bairro Sudoeste, no Plano Piloto, o chefe do Executivo federal afirmou a um apoiador que está "rodando por aí para ouvir alguma coisa. Contra ou a favor, né? Sugestão aí".

O que eu tenho conversado com o povo é: eles querem trabalhar. Eu tenho falado desde o começo. Tem que tomar cuidado. Maior de 65 fica em casa.
Jair Bolsonaro, durante o tour pelas ruas do DF

Já em Sobradinho (20 km de Brasília), o presidente afirmou que "essa luta toda não é para evitar contágio, a infecção, porque ela virá". "É para diminuir a onda. Então você, por exemplo, em vez de ser infectado hoje, que seja amanhã, ou daqui a 15 dias. Esse é o trabalho". "O esforço está sendo feito, e o preço a ser pago lá na frente, na minha opinião, é enorme para o Brasil."

A atitude de Bolsonaro vai na contramão das recomendações das autoridades de saúde em todo o planeta, que defendem o isolamento social como mecanismo de combate ao alastramento do coronavírus.

A necessidade de reclusão é endossada pelo Ministério da Saúde, pasta do próprio governo, o que tem gerado atritos entre o presidente e o ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM).

Ontem (28), em entrevista para atualizar o número de mortes e casos de contaminação pelo covid-19, Mandetta fez um discurso contrariando o presidente e reforçando a importância do isolamento social. Especula-se, inclusive, que o titular da Saúde estaria sob ameaça de demissão por bater de frente com Bolsonaro.

Segundo reportagem do jornal "O Estado de S.Paulo", Mandetta advertiu o mandatário de que a pandemia não se trata de uma "gripezinha" e teria questionado se o governo está preparado para colocar caminhões do Exército transportando corpos de vítimas. O diário, citando fontes, afirmou que o ministro não irá pedir demissão em meio à crise, mas admitiu deixar o ministério ao fim da pandemia se for o caso.

Apesar da gravidade do problema e dos riscos para a população, Bolsonaro tem defendido a reabertura do comércio e retomada das atividades nos estados e municípios brasileiros. O isolamento, segundo as ideias do mandatário, deve ficar restrito aos chamados grupos de risco (idosos e pessoas com complicações preexistentes).

Na visão dele, a preocupação com os rumos da economia é tão importante quanto a saúde pública. Ele teme que haja uma onda de demissões devido à interrupção da rotina no país.

O Planalto informou apenas que Bolsonaro esteve em "agenda pessoal".

Fechamento de igrejas

O governo recorrerá da decisão da Justiça que proibiu a aberta de igrejas e templos religiosos, segundo Bolsonaro afirmou hoje durante a passagem por Ceilândia. A declaração foi dada depois do apelo de uma apoiadora, que dizia estar triste com a impossibilidade de frequentar cultos religiosos.

Na última quinta-feira (26), o presidente editou um decreto, que incluiu na lista de serviços essenciais, os templos religiosos e as casas lotéricas. Dessa forma, esses locais poderiam funcionar apesar de restrições impostas por governos estaduais e municipais para conter a proliferação do novo coronavírus no país.

No dia seguinte (27), após uma ação do MPF (Ministério Público Federal), a Justiça Federal suspendeu a validade dos decretos presidenciais.

Saída à francesa

Bolsonaro deixou o Palácio da Alvorada hoje pela manhã por um acesso alternativo, com o objetivo de driblar a imprensa de plantão na portaria da residência oficial da Presidência. Ele seguiu em comboio a um posto de gasolina, onde desceu do carro para cumprimentar apoiadores e tirar fotos com frentistas.

Em seguida, visitou uma farmácia, uma padaria e um supermercado no Sudoeste, bairro residencial situado a cerca de 10 km do Congresso Nacional. Depois disso, dirigiu-se ao Hospital das Forças Armadas.

HFA

A visita do presidente à unidade de saúde ocorre em um momento onde ele é cobrado a mostrar o resultado dos exames que fez para detectar se há contaminação pelo coronavírus.

O Planalto não esclareceu se Bolsonaro realizou algum exame ou se fez apenas uma visita social ao HFA.

O mandatário diz que está bem e não foi infectado. No entanto, mais de 20 pessoas que estiveram com ele na viagem aos Estados Unidos, no início de março, já testaram positivo. Entre os contaminados está o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, e o chefe da Secretaria Especial de Comunicação, Fábio Wajngarten.

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