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Governo marca 500 dias com foco econômico, tom militar e saúde em 2º plano

Ministro da Economia, Paulo Guedes - Adriano Machado
Ministro da Economia, Paulo Guedes Imagem: Adriano Machado

Allan Simon

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/05/2020 19h22

O governo Bolsonaro completou hoje 500 dias e organizou uma entrevista coletiva no Palácio do Planalto para marcar a data, mas sem a participação do presidente da República. O evento foi marcado por discursos em defesa da atuação federal durante a pandemia do novo coronavírus, apelo econômico com declarações voltadas à mídia e ao Congresso, e o lançamento de um vídeo que trouxe novo slogan no momento de crise, o "Ninguém fica para trás".

Participaram os ministros Paulo Guedes (Economia), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Walter Souza Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo). Mas, no mesmo dia em que Nelson Teich pediu exoneração do cargo de ministro da Saúde, a área foi resumida a opiniões de titulares de outras pastas sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19.

"Eu estou meio perdido no tiroteio da saúde, não é a minha especialidade. Mas eu acho importante a ideia de respeitar a opinião do outro. Então, por exemplo, se você não quer esse remédio, você diz que não quer. Da mesma forma, se você é um cidadão saudável, informado e quer sair de casa, é um direito seu sair de casa. Você não pode ser preso, derrubado e algemado porque você quer sair da rua. você sabe do risco que tá correndo", disse Paulo Guedes.

Damares deu sua opinião sobre o medicamento defendido por Bolsonaro no tratamento da doença. "Ninguém é obrigado a tomar cloroquina, então aqueles que não acreditam o remédio façam agora uma declaração falando eu não quero tomar, e meu filho está proibido de tomar. Faça só isso, ninguém é obrigado a tomar cloroquina. Mas antes de fazer a declaração procure as outras correntes da ciência que estão defendendo que o remédio adicionado ao coagulante está dando certo. Vamos entender que a ciência tem correntes", afirmou.

Braga Netto defendeu a atuação do governo e citou que o Brasil tem número de óbitos por habitante menor que países como Bélgica, Reino Unido, Itália, Espanha, França, Estados Unidos e Alemanha.

Durante o evento, o governo manteve o discurso de que o impacto econômico pode causar mais mortes que a pandemia, inclusive com apelo à questão das crianças em um cenário de fome causada pelos efeitos da crise. E com críticas à forma como o isolamento social tem sido feito no país.

"Isso é um governo que se preocupa com criança, falando de forma lúdica com todas as crianças do Brasil", disse Damares, que citou o fornecimento de cestas básicas como exemplo de medida federal de direitos humanos durante a pandemia. A ministra ainda disse que o país será uma nação de "famílias fortes" após a crise do coronavírus.

Guedes também aposta em um fortalecimento, mas na área econômica. "Nós temos que entender que são dois organismos vivos lutando. De um lado nós biologicamente vivos lutando contra o vírus, que tem principio meio e fim, ele vai embora um dia, nós vamos criar a nossa imunidade coletiva em algum momento. E de outro lado tem um organismo vivo, pulsando que é a economia brasileira. E nessa nós temos que ficar de mãos dadas, é o contrário da outra onde temos que ficar distanciados", disse.

Economia como protagonista

O foco econômico esteve até no fato de que Paulo Guedes foi o ministro que fez o discurso mais longo na coletiva, com quase 45 minutos. O ministro fez uma longa explanação, citando desde o que ele considera como erros de governos anteriores até a defesa de Bolsonaro como presidente.

Falando especificamente sobre sua área, Guedes comparou o número de desempregados no Brasil e nos Estados Unidos como consequência da crise da covid-19, ressaltando as medidas implantadas pelo governo federal para manter empregos, como a MP 936.

"Os americanos nas últimas cinco semanas demitiram 26 milhões de pessoas, e o Brasil perdeu menos de 1 milhão de empregos, preservou registrados 7,5 milhões de empregos". O ministro voltou a cobrar do funcionalismo público um "sacrifício" para ajudar o país e criticou a possibilidade de dar aumentos de salários a categorias que têm atuado na linha de frente ao combate ao coronavírus, como médicos e policiais militares.

"Nós queremos saber o que podemos fazer de sacrifício pelo Brasil nessa hora, e não o que o Brasil pode fazer por nós. E as medalhas são dadas após a guerra, não antes da guerra. Nossos heróis não são mercenários. Que historia é essa de pedir aumento de salário porque um policial vai a rua exercer sua função ou porque um médico vai a rua exercer sua função? Se ele trabalhar mais por causa do coronavírus, ótimo, ele recebe hora extra, mas dar medalha antes da batalha? As medalhas vem depois da guerra, depois da luta, o Brasil forte, erguido", defendeu Guedes, que também fez críticas à mídia.

"(Foram) 40 milhões de brasileiros digitalizados em duas ou três semanas, o dinheiro chegando, enquanto isso no EUA o cheque não chegou ainda pra maior parte da população, no país mais avançado e mais rico do mundo. E nós aqui sendo apedrejados enquanto lutamos em defesa do país", citando o auxílio emergencial de R$ 600 operado pela Caixa nas últimas semanas.

Guedes prometeu que o país vai disparar uma "onda de investimentos" nos próximos meses e que prevê crescimento econômico para o país, que "estava decolando antes da pandemia". " O marco do saneamento está no Congresso há um ano, está no Senado. Pronto, nossa equipe trabalhou nisso há um ano, o senador Tasso Jereissati, um belo trabalho ele fez, nós ajudamos, pronto pra votar. Se votarmos hoje, quando a economia começar a reativar, já voltam os investimentos. São dezenas de bilhões de reais podendo ser centenas de bilhões. E os brasileiros vão poder lavar as mãos, porque se essa doença ficar mais tempo conosco é bom que alguns brasileiros possam pelo menos lavar as mãos, é uma covardia ficar sem água enquanto a doença se propaga", afirmou.

Tom militar

O slogan "Ninguém fica para trás" foi citado por Paulo Guedes como uma "frase muito dita pelos militares". Bastante citada no vídeo exibido durante a coletiva e produzido pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), a nova máxima do governo reflete o tom militar adotado pelos membros do governo na data que marcou 500 dias da administração.

Houve ainda citações críticas de Paulo Guedes aos "últimos 30 anos de alianças de centro-esquerda", com prejuízos às áreas da educação e da saúde. O período é justamente aquele marcado pela redemocratização do Brasil, que ocorreu em 1985 após 21 anos de ditadura militar, mas só teve a posse de um presidente eleito pelo povo em março de 1990, com Fernando Collor de Mello.

O ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, que é general, minimizou a covid-19 e comparou o número de mortes causadas pelo coronavírus a outras fatalidades no país. "Todo mundo aqui deve andar de carro ou de ônibus, pratica esporte. A média de mortes por ano de queda, afogamento, acidente automobilístico, lesões provocadas de toda ordem, 164 mil mortes. Os números são impactantes, mas nem por isso é instaurado um clima de terror", disse.

Os ministros militares também fizeram críticas à atuação da mídia na cobertura da pandemia e pediram para que a imprensa dê ênfase ao chamado "Placar da Vida", com o número de curados do coronavírus, e não às mortes. Houve citações elogiosas a veículos como Record, RedeTV!, CNN Brasil e ao Jornal da 10, da GloboNews por divulgar esses dados.

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