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Bolsonaro, o 'Capitão Corona', aposta na negação do vírus, diz jornal FT

Segundo avalia o Financial Times, o presidente brasileiro pode sair da pandemia mais forte politicamente do que entrou - Adriano Machado/Reuters
Segundo avalia o Financial Times, o presidente brasileiro pode sair da pandemia mais forte politicamente do que entrou Imagem: Adriano Machado/Reuters

Do UOL, em São Paulo

10/07/2020 16h44Atualizada em 10/07/2020 18h16

Desde a redemocratização, nenhum presidente foi tão imprudente consigo mesmo ou com o Brasil como Jair Bolsonaro (sem partido) durante a pandemia do novo coronavírus, segundo o Financial Times.

Em artigo publicado hoje, o jornal britânico lembra que na última terça-feira (7), quando anunciou ter contraído a covid-19, Bolsonaro tirou sua máscara em frente a repórteres para mostrar que estava bem, apesar de doente.

"Ele não só não respeitou o distanciamento social [ao dar entrevista coletiva], como também usou a oportunidade para reiterar sua visão negacionista da pandemia e [visão sobre] a eficácia da hidroxicloroquina", disse o consultor de risco Mario Marconini ao FT.

O jornal também lembra que doenças frequentemente atingiram, direta ou indiretamente, os líderes brasileiros: o presidente Rodrigues Alves, por exemplo, morreu de gripe espanhola em 1919; Fernando Collor de Melo sofreu impeachment em 1992, após uma epidemia de cólera; já Dilma Rousseff, afastada em 2016, em meio a um surto de vírus zika.

Ao contrário de seus antecessores, porém, Bolsonaro pode sair da pandemia mais forte politicamente do que entrou, avalia o FT.

"Bolsonaro foi eleito em 2018, depois de sobreviver a uma facada quase fatal, por um país farto de corrupção e após quase duas décadas de governos de esquerda. Mas o 'Capitão Corona', como chamam os críticos, vem negando a seriedade da pandemia há muito tempo", pondera.

Bolsonaro e Trump

Jair Bolsonaro e Donald Trump - Tom Brenner/Reuters - Tom Brenner/Reuters
Imagem: Tom Brenner/Reuters

O texto ainda compara Bolsonaro e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Os dois participaram de inúmeras aglomerações sem usar máscara ou tomar qualquer outro tipo de preocupação, além de terem entrado em um embate com os governos locais que optaram por determinar quarentena ou lockdown (bloqueio total).

Mas a aposta do presidente brasileiro, continua o Financial Times, pode valer a pena.

"Se o 'Trump tropical', como ele também é conhecido, apresentar apenas sintomas leves, ele se tornará um exemplo de como a covid-19 é apenas uma 'gripezinha', e a culpa pelas dificuldades econômicas pode ser transferida para seus inimigos políticos", diz o artigo.

E Marconini completa:

"Se ele conseguir se curar e sair da quarentena relativamente ileso, esse episódio o tornará politicamente mais forte"

Biografia: 'Outsider'

Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters

Em uma breve biografia do presidente brasileiro, o jornal britânico lembra que Bolsonaro sempre quis ser um "outsider", não fazendo questão de pertencer a nenhum grupo específico. Ele entrou para a política no final dos anos 1980, como vereador do Rio de Janeiro, e foi deputado federal por quase 28 anos.

"Ele passou despercebido por muitos anos e ganhou proeminência graças às suas opiniões extremistas e ao ideal político que ainda persegue", crítico ao que chama de "marxismo cultural" e "ideologia de gênero", ressalta o FT.

Sua abordagem, contudo, ameaça as reformas econômicas pelas quais Bolsonaro foi eleito para aprovar. Embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenha conseguido passar algumas medidas, a agenda foi interrompida — não só devido à pandemia, mas também à "capacidade infalível do presidente de brigar com o Legislativo".

Desde o início da pandemia, lembra o artigo, o presidente brasileiro participou de manifestações — até em cima de um cavalo — que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal) e a volta da ditadura militar.

Mesmo assim, sua aprovação segue na casa dos 30% — nível que sugere, segundo o Financial Times, que Bolsonaro seria capaz de superar as tentativas de afastá-lo do cargo.

"Os processos de impeachment contra Collor e Rousseff só avançaram quando seus índices [de aprovação] caíram para cerca de 10%. A covid-19 também pode dar imunidade a Bolsonaro", conclui.

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