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Impasse no Renda Brasil de Guedes reaproxima Onyx de Bolsonaro

Jair Bolsonaro com Onyx Lorenzoni em janeiro de 2019; ministro já vinha perdendo poderes há meses - Alan Santos/PR
Jair Bolsonaro com Onyx Lorenzoni em janeiro de 2019; ministro já vinha perdendo poderes há meses Imagem: Alan Santos/PR

Hanrrikson de Andrade e Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

06/09/2020 04h00

O impasse na formulação do programa Renda Brasil colocou dois ministros em situações opostas no governo. Enquanto Paulo Guedes (Economia) se viu esvaziado publicamente por Jair Bolsonaro (sem partido) e chegou a lidar com boatos de uma possível demissão, Onyx Lorenzoni (Cidadania) conseguiu se reaproximar do círculo de confiança do presidente quase sete meses depois de perder o comando da Casa Civil.

Ex-integrante da cúpula do Planalto, Onyx sofreu um revés no começo do ano e acabou realocado na Cidadania. Uma das razões para o declínio do auxiliar direto do presidente foi a viagem à Índia de seu então secretário-executivo, Vicente Santini, que utilizou indevidamente um avião da FAB (Força Aérea Brasileira). À época, o ministro só não foi demitido por conta dos laços de lealdade a Bolsonaro construídos desde a campanha eleitoral de 2018.

Agora, Onyx ressurge com a expectativa de exercer um papel de destaque na formulação do Renda Brasil, o programa que a ser criado para substituir o Bolsa Família e criar uma marca da gestão Bolsonaro na área social.

Segundo assessores do governo, a irritação de Bolsonaro com a proposta inicial de Guedes, rechaçada publicamente na semana passada, é um dos fatores pelos quais Onyx voltou a ganhar moral com o presidente.

Onyx funcionaria, na avaliação de auxiliares ouvidos pela reportagem, como um contrapeso Guedes, que defende a junção de vários benefícios sociais em um único mecanismo de transferência de renda.

Esse modelo de enxugamento daria fim, por exemplo, ao abono salarial —pago a quem recebe até dois salários mínimos— e o seguro-defeso (destinado a pescadores).

Guedes argumenta, por outro lado, que o desenho é fundamental para apontar a origem dos recursos e, dessa forma, manter o compromisso com a responsabilidade fiscal. O presidente, no entanto, considera que isso seria "tirar de pobres para dar a paupérrimos".

Insatisfeito com o que considera insistência da equipe econômica na sugestão de cortar benefícios sociais, Bolsonaro orientou a Onyx a atuar lado a lado com a equipe de Guedes no intuito de construir um texto mais "equilibrado", que enfrente "menos resistência no Congresso" e não resulte em desgaste com a população.

O Renda Brasil é defendido por interlocutores do presidente como principal programa para reeleição de Bolsonaro em 2022. Há ainda o temor de que no ano que vem a população que recebe a ajuda financeira fique desassistida sem o programa e se volte contra o governo.

Bolsonaro tem obtido melhora em seus índices de popularidade a partir da criação do auxílio emergencial, ajuda financeira instituída para recompor a renda de brasileiros afetados pela pandemia do novo coronavírus.

Nesta semana, Bolsonaro renovou o auxílio até dezembro. Mas será pago metade do valor inicial, serão quatro parcelas de R$ 300 cada uma. Segundo a Caixa Econômica Federal, ao menos 65 milhões de pessoas já receberam pelo menos uma parcela do benefício.

A melhora na imagem do presidente tem sido observada principalmente no Nordeste, reduto eleitoral do PT.

Destaque de Onyx é "meritório", diz líder do governo

O líder do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), elogiou o trabalho feito por Onyx à frente da Cidadania e afirmou que não existe briga entre ele e Guedes.

"Não tem briga política com Guedes, mas ele [Onyx] entende a dimensão do ministério dele."

O parlamentar disse ainda considerar que o destaque obtido por Onyx é "meritório" e que, à frente das conversas sobre o Renda Brasil", o projeto vai "decolar".

"Meritório o destaque do Onyx. Ele está fazendo estudo profundo e vai decolar. Mais do que a parte mecânica, ele tem sensibilidade, experiência parlamentar. Ele sabe a dimensão do ministério dele e vai conseguir destaque interessante sobre esse projeto fundamental para o país."

Reuniões

Na última segunda-feira (31 de agosto), Bolsonaro reuniu Guedes e Onyx para um alinhamento de expectativas sobre o auxílio emergencial e o Renda Brasil.

Desde que fritou publicamente o chefe da Economia e anunciou a suspensão das discussões sobre o Renda Brasil, em 26 de agosto, Bolsonaro já esteve três vezes com Onyx para tratar do Renda Brasil e também da prorrogação do auxílio emergencial.

Segundo relato dentro dentro da Casa Civil, o ex-comandante da pasta voltou a bater ponto no Planalto praticamente com a mesma frequência em relação aos ministros palacianos.

Na quarta-feira (2), em entrevista à rádio Jovem Pan, Onyx voltou a dar ênfase na argumentação de que o Bolsa Família estaria defasado. Segundo disse, o Renda Brasil vai "trazer o mérito e a promoção das pessoas" em vez de torná-las "dependentes" do assistencialismo social.

"Quando trabalhamos para mudar o Bolsa (Família) é porque o Bolsa foi constituído e ao longo do tempo perdeu a focalização porque virou um instrumento político eleitoral", disse

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