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Bolsonaro cabo eleitoral polariza e não domina o eleitorado, diz pesquisa

Dispondo da máquina pública, Bolsonaro poderia ter influência mais ampla, analisa coordenador da pesquisa "A Cara da Democracia - Eleições 2020" - ALAN SANTOS/DIVULGAçãO
Dispondo da máquina pública, Bolsonaro poderia ter influência mais ampla, analisa coordenador da pesquisa "A Cara da Democracia - Eleições 2020" Imagem: ALAN SANTOS/DIVULGAçãO

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

10/11/2020 04h06

Pesquisa do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Democracia e Democratização da Comunicação) aponta que 47,7% dos eleitores não votariam "de jeito nenhum" em candidatos a prefeito apoiados pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Por outro lado, 42,7% escolheriam "com certeza" ou "poderiam votar" nesses políticos, outros 7,7% afirmam que a situação não influencia no seu voto e 2,1% não sabem ou não responderam.

O estudo ganhou o nome de "A Cara da Democracia - Eleições 2020". O índice de confiança é de 95% e a margem de erro é de 2.2 pontos para os dados nacionais. Já nos resultados regionais a margem de erro varia (veja abaixo). Ao todo, foram consultadas 2 mil pessoas entre os dias 24 de outubro e 3 de novembro.

Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, a diferença pequena, praticamente um empate dentro da margem de erro entre contrários e favoráveis ao presidente, mantém a fotografia de 2018: petistas de um lado e apoiadores de Bolsonaro de outro.

Contudo, o fato de Bolsonaro não ter ampla vantagem como cabo eleitoral nestas eleições de 2020 é um sinal igualmente importante.

O coordenador da pesquisa e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Leonardo Avritzer, percebe uma situação em que Bolsonaro aparece perdendo terreno entre eleitores que o apoiavam e mantendo a rejeição alta entre mulheres e os mais pobres (veja mais abaixo).

Segundo o professor, após as eleições presidenciais, o escolhido costuma ganhar mais projeção e, consequentemente, prover mais visibilidade para aliados no pleito municipal. Entretanto, a situação acabou não ocorrendo neste ano, segundo o coordenador do estudo. "A pesquisa identificou declínio da influência do Bolsonaro", opina.

Polarização X pandemia

Já o cientista político e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Tiago Losso, considera que a pesquisa retrata a continuidade do cenário das eleições de 2018. "Eu notei distribuição muito igual (entre favoráveis e contrários) e espalhada pelo Brasil. Refletem o que foram as eleições presidenciais. Está muito dividido."

Losso observa que, em uma primeira análise, a pesquisa pode indicar uma polarização política. Entretanto, o pesquisador entende que o "estilo beligerante" de Bolsonaro acaba fazendo com que a população assuma um lado ou outro.

Já o coordenador da pesquisa discorda que o trabalho seja o "retrato da polarização" ao qual convive o país nos últimos anos. "Talvez a pandemia tenha levado para a despolarização. As pessoas querem política pública, não ideologia, querem política de saúde pública."

Rejeição alta entre jovens, mulheres e mais pobres

Segundo a pesquisa, a rejeição de candidatos apoiados pelo presidente é maior entre jovens de 16 a 24 anos. O estudo aponta que 59,6% não votariam neles, contra 32,6% que escolheriam "com certeza" ou que poderia votar.

Nas outras faixas etárias, as opiniões favoráveis e contrárias ficam praticamente empatadas, caso se considere a margem de erro.

A rejeição também é maior entre as mulheres — a maior parte (52,3%) não depositaria seu voto em um político alinhado com Bolsonaro.

Por outro lado, 38,2% se manifestaram favorável a esses candidatos e outras 6,9% disseram que o apoio do presidente não interferiria na decisão.

Já entre os homens o apoio a políticos bolsonaristas fica à frente, com 47,5%. Porém, o índice é próximo daqueles que não votariam "de jeito nenhum" nesses políticos: 42,6%.

Bolsonaro é cabo eleitoral mais efetivo no Centro-Oeste

Candidatos alinhados com o presidente ganham mais apoio no Centro-Oeste (57,9%), já no Nordeste está a maior rejeição (53,6%).

Nas outras regiões, os índices são próximos. No Norte, a diferença é de 0,6% entre um e outro, com os favoráveis à frente. Por outro lado, a variação é um pouco maior no Sul (45,6% contra e 42,3% a favor) e Sudeste (47,6% contra e 42,9% a favor), com rejeição a políticos bolsonaristas na liderança.

Além disso, os entrevistados evangélicos são os maiores apoiadores de políticos alinhados com o presidente. Ao todo, 53,2% disseram que escolheriam "com certeza" candidatos com esse perfil ou poderiam votar neles.

Vale destacar que o número de entrevistados evangélicos é menor em relação aos católicos, são 447 contra 1018, respectivamente.

Espíritas têm maior índice de rejeição às indicações do presidente

Entre os católicos a rejeição é maior, atinge 47,1%. Porém, o percentual de favoráveis não fica longe: 43,6%.

Entre os espíritas, há maior contrariedade a candidatos bolsonaristas: 62,9%. Entretanto, o número de espíritas entrevistados é menor em relação ao católicos e evangélicos: foram 89 pessoas.

Os políticos alinhados com o presidente também não tendem a se sair tão bem entre eleitores negros — 50% afirmaram que não votariam de "jeito nenhum" neles enquanto que 41% os escolheriam "com certeza" ou cogitavam essa possibilidade.

Entre os brancos, o apoio é de 45,6% contra 44,9% de rejeição.