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Longe das urnas, João Santana diz: Brasil é atrasado, tem voto clientelista

O marqueteiro João Santana no programa Roda Viva, no mês passado, e em 2016 - Reproduções
O marqueteiro João Santana no programa Roda Viva, no mês passado, e em 2016 Imagem: Reproduções

Aurélio Nunes

Colaboração para o UOL, em Salvador

28/11/2020 04h00

Responsável por oito vitórias em eleições presidenciais no Brasil e no exterior, João Santana, 67, está longe das campanhas políticas, por decisão judicial. Não votou no primeiro turno, há duas semanas, mas tem opinião —critica quem diz que o resultado "mostrou que o Brasil rejeita a polarização".

Ex-marqueteiro do PT, Santana afirma que falta autocrítica ao partido, e que ele já se libertou "de todo o peso das coisas que aconteceram".

Foi preso e solto em 2016 pela Operação Lava Jato, com a mulher e sócia, Mônica Moura. No ano seguinte, foi condenado a mais de oito anos de prisão por lavagem de dinheiro e fechou acordo de delação premiada. Cumpriu três anos de prisão domiciliar em um condomínio de alto padrão na Região Metropolitana de Salvador. Desde setembro, passou a cumprir a pena em regime aberto.

Agora ele faz publicidade para divulgar o recém-lançado álbum "Suave Distopia", em que assina as 12 canções. A música não é exatamente uma novidade na sua vida. Em entrevista exclusiva ao UOL, ele fala sobre sua trajetória, sobre eleições e política. Leia os principais trechos:

UOL - O senhor disse que não compunha há 40 anos. Por que retomar agora uma carreira abandonada há tanto tempo?
João Santana - A música estava submersa, eu descobri que não estava de fato esquecida. A comunicação política me abriu uma brecha para continuar fazendo música, produzindo jingles, mesmo quando vivia fora do país. Mas foi só depois dessa interrupção traumática da Lava Jato que pude me entregar a ela de novo. E vem sendo extremamente enriquecedor e produtivo.

UOL - Esse resgate às origens musicais não seria uma forma de expurgar a imagem de alguém que passou da fama para a infâmia, como o senhor próprio definiu?
João Santana - Essa é uma pergunta movediça e que eu me fazia há três anos: se a música é de fato uma paixão verdadeira ou se era apenas um artifício para a reconstrução da minha imagem. Usar o termo tábua de salvação é dramático, é errado, mas uma das coisas mais importantes em que eu me segurei, do ponto de vista da criatividade espiritual, de forma terapêutica. De alguma maneira eu não posso negar que também queria mostrar para as pessoas que, para além do marqueteiro, tem uma pessoa que faz outras coisas -- e que, aliás, era isso que eu fazia primeiro.

UOL - A que se deve essa transformação visual em relação ao João Santana que conhecíamos das campanhas eleitorais?
João Santana - Esse João Santana é o João Santana mais roots, o mais verdadeiro. Eu fui talvez, senão o primeiro, um dos primeiros black powers da Bahia, um dos primeiros a sair na rua desse jeito. O que existiu foi um movimento dessa pessoa voltando a ser ela mesma, foi dentro desse mergulho que essa cara se reencontrou. E eu não quero perdê-lo mais. Jamais.

UOL - "Sossegue, isso nunca vai acontecer aqui". "Cuidado, aconteceu com ela o que não ia acontecer aqui". Estes trechos da faixa-título do álbum Suave Distopia remetem às eleições de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro (sem partido) no Brasil?
João Santana - Outro dia me perguntaram se eu compus essa música para a [ex-presidente] Dilma [Rousseff, PT]. Eu nunca tinha pensado nisso. Respondi que não, mas depois me perguntei: será que não mesmo? Mas, para mim, o mais importante é chamar a atenção para este oxímoro, esse jogo de palavras antagônicas do título. O senso comum não admite uma distopia que seja suave, porque uma distopia é uma antiutopia. Mas a prática brasileira subverte os termos, porque no Brasil se mata por amor, se invade terras indígenas para civilizar, se destrói templos de candomblé pela fé cristã.

UOL - O senhor não se sente responsável, pelo menos em parte, por esse momento distópico que denuncia? O senhor não acha que a agressividade da campanha de 2014 acirrou o processo de polarização política?
João Santana - Sim e não. A polarização já estava estabelecida havia muito tempo. Ali eram dois projetos que estavam em jogo, mas a agressividade não foi tão grande, aquilo não foi a semente do ódio, jamais. Ajudou a acirrar os ânimos? Pode ser. Mas o que aconteceu depois foi muito mais sério, o pós-campanha foi muito mais agressivo. Quem inventou esse trailer vagabundo de fraude eleitoral de que depois Trump e a direita se apropriam e que o seu [Jair] Bolsonaro está repetindo agora? Foi Aécio [Neves, candidato derrotado do PSDB]! De minha parte, eu realmente acreditava que a situação brasileira não era tão ruim.

UOL - No dia 15, o senhor saiu de casa para votar?
João Santana - Não. Ainda estou com meus direitos políticos cassados. Como cidadão, eu não posso eleger nem ser eleito; como marqueteiro, eu perdi três eleições. Só posso votar a partir de outubro [de 2021], quando termina o regime aberto. Eu só me libertei foi espiritualmente, de todo o peso das coisas que aconteceram comigo, e foi quando eu retirei a capa do vitimismo.

UOL - O senhor acredita que o PT também deveria fazer a sua autocrítica?
João Santana - Deveria, mas quase já perdeu o tempo de fazer isso. A autocrítica agora é ainda mais difícil do que antes, ela só aconteceria se no mesmo discurso de autocrítica viesse embutida uma nova proposta, mas o PT está com a mesma proposta de sempre, de distribuição de renda pelo consumo.

UOL - No 1º turno deste ano, o PT elegeu prefeitos em 178 municípios, 78 a menos que em 2016. E joga todas as fichas no segundo turno -- está na disputa em 15 municípios. Como o senhor analisa o encolhimento do partido?
João Santana - O encolhimento de fato é terrível, trágico e vem acontecendo gradativamente. Mas o PT já chegou ao fundo do poço, o PT não vai cair mais do que isso. Veja o exemplo do DEM, que falaram que ia acabar e agora está ressurgindo.

UOL - Como avalia o resultado das eleições municipais, até agora?
João Santana - A eleição municipal é um diálogo amplo e profundo consigo mesmo, não se presta para mais nada além de si própria, embora tenha sido usada para uma série de interpretações as mais díspares possíveis. A maior imbecilidade que eu ouvi foi que o resultado mostrou que o Brasil rejeita a polarização. Babaquice, mentira, burrice! E não me venham com a falácia de que o Brasil é um país conservador, o Brasil é um país atrasado, o Brasil tem um voto clientelista, não existe a escolha de um modelo político. Só entende a alma brasileira quem reconhece a nossa ambiguidade: nós somos ao mesmo tempo violentos e pacíficos, puritanos e libertinos, ateus e religiosos. É aí que reside a nossa força criativa, mas é aí que mora o nosso perigo também: na mesma medida em que a gente está com Dilma e Lula, nós podemos ir para Bolsonaro.

UOL - Qual será o papel que o senhor acredita que a história vai lhe reservar no futuro?
João Santana - É muito difícil prever. Ninguém está livre do grande tribunal da história, um tribunal permanente, que não vai parar de ser reavaliado. Isso não me preocupa, porque, quando isso ocorrer, estarei naquele sono eterno. Mas juro que, enquanto estiver na vigília, eu tentarei sempre me reinventar. É isso o que eu estou tentando fazer agora, com a música, escrevendo livros técnicos. Eu estou sempre me inventando, sou um eterno iniciante.

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