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Quem é o homem que teve o nome usado para atacar políticos em todo o Brasil

O analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa, que teve o nome usado em ataques contra políticos - Arquivo Pessoal
O analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa, que teve o nome usado em ataques contra políticos Imagem: Arquivo Pessoal

Igor Mello

Do UOL, no Rio

15/12/2020 04h00

A onda de ataques e ameaças contra políticos desencadeada após o resultado da eleição de 2020 fez o analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa reviver o pesadelo com que precisa lidar desde 2017, quando a maior quadrilha de crimes de ódio da internet brasileira passou a tê-lo como alvo.

É o nome dele que assina os e-mails enviados aos alvos —nos quais proliferam também insultos racistas e LGBTfóbicos.

Desde então, o carioca de 31 anos vê seu nome ser utilizado para a prática de atos criminosos, como ameaças de ataques terroristas e assassinatos, além de ofensas racistas, misóginas, LGBTfóbicas, misóginas e antissemitas.

O nome de Arouxa foi usado para enviar e-mails com ameaças de morte contra pelo menos sete políticos nas últimas semanas. Em comum, todos têm o fato de pertencerem a minorias e terem tido destaque na imprensa no período.

Alvos

  • Seis dos sete alvos são mulheres
  • Cinco das mulheres são negras
  • Cinco das sete vítimas são de partidos de esquerda

A preocupação de Arouxa com o uso de seu nome para a prática de crimes é tamanha que ele mantém há anos um alerta do Google para notícias com seu nome. Foi assim que descobriu os primeiros dessa leva de ataques.

Arouxa se tornou alvo preferencial da quadrilha depois de brigar em uma comunidade da extinta rede social Orkut com um de seus integrantes, um hacker nunca identificado pelas autoridades.

A onda de ataques usa um texto enviado por e-mail com pequenas variações. Nele, os criminosos se passam por Arouxa. Dizem ter comprado uma arma em uma comunidade do Rio de Janeiro, prometem assassinar os alvos e depois cometer suicídio. "Depois de meter uma bala na sua cara e matar qualquer um que estiver junto com você, vou meter uma bala na minha cabeça", diz a mensagem.

Quadrilha é investigada desde 2012

Os autores dos ataques se articulam em um chan —uma espécie de fórum anônimo criado para discussões na internet. O grupo já foi alvo de duas operações da Polícia Federal na última década.

Em 2012, Marcelo Valle Silveira Mello --o primeiro condenado por racismo na internet no Brasil-- e Emerson Eduardo Rodrigues, criadores do fórum, foram presos na Operação Intolerância. Ambos permaneceram presos por pouco mais de um ano, devido à falta de legislação sobre crimes na internet naquele momento.

Taliria - Getty Images - Getty Images
Talíria Petrone (PSOL-RJ) também foi alvo do grupo
Imagem: Getty Images

Em 2018, a quadrilha foi alvo da Operação Bravata. Silveira Mello foi novamente preso, dessa vez com base na Lei Antiterrorismo. Em dezembro de 2019, foi condenado a mais de 41 anos de prisão por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação ao cometimento de crimes e terrorismo na internet.

Até a Operação Bravata, o grupo se organizava em um chan que podia ser facilmente acessado. Depois da ação, os criminosos migraram para um espaço na internet só acessível com o uso do navegador Tór —popularmente conhecido como deep web.

A divulgação do discurso de ódio contra mulheres, negros, LGBTIs, judeus e outras minorias ocorria também através de sites criados pela quadrilha. O mais famoso deles pregava o assassinato de negros, mulheres e judeus, ataques a bomba contra universidades públicas e o "estupro corretivo" de lésbicas.

A quadrilha capturava os computadores dos leitores para minerar criptomoedas, gerando lucro para seus donos.

Um desses sites, o Rio de Nojeira, foi registrado no nome de Ricardo Wagner Arouxa, utilizando seus dados pessoais. O blog se tornou conhecido após um ataque racista contra alunos da universidade Unicarioca, na região central do Rio, onde Arouxa estudava à época.

O blog fez com que Arouxa fosse alvo de uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro em 27 de dezembro de 2017. Policiais estiveram em sua casa e apreenderam computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos.

A partir daí, o analista de sistemas passou a colaborar com as investigações no Rio, conduzidas pela DRCI (Delegacia de Repressão a Crimes de Informática).

Carol Dartora - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Carol Dartora (PT), primeira mulher negra eleita para a Câmara em Curitiba
Imagem: Reprodução/Instagram

De acordo com a Polícia Civil, o inquérito seguia em curso até este ano, mas o MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) decidiu remetê-lo à Polícia Federal. O UOL perguntou à Superintendência da PF no Rio —destino original dos autos— para qual unidade a investigação foi enviada, mas não obteve resposta até o momento.

O analista de sistemas diz não estar apreensivo com a possibilidade de se ver novamente envolto em inquéritos policiais —investigações sobre a onda de ataques foram abertas em pelo menos cinco estados, segundo o jornal "O Estado de S. Paulo". Mas afirma ter pedido orientação aos policiais da DRCI. "Eles me falaram para aguardar e não fazer nada nesse momento."

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