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1 mês

Parlamentar, Agnaldo Timóteo teve carreira política do malufismo ao lulismo

Agnaldo Timóteo canta "Parabéns a Você" para o então presidente Lula durante a campanha de reeleição em 2006 - João Wainer/Folhapress
Agnaldo Timóteo canta "Parabéns a Você" para o então presidente Lula durante a campanha de reeleição em 2006 Imagem: João Wainer/Folhapress

Lucas Borges Teixeira e Natália Lázaro

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

03/04/2021 18h00Atualizada em 03/04/2021 18h18

Vítima da Covid-19 aos 84 anos, o cantor Agnaldo Timóteo teve uma carreira diversa na política. Foi deputado federal em dois mandatos, vereador pelo Rio de Janeiro por quatro anos e em São Paulo por mais oito — marcadamente em partidos diferentes.

Grande admirador do ex-governador Paulo Maluf (PP) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Timóteo criou vínculos políticos à esquerda e à direita. Cresceu na Câmara dos Deputados nos anos 1980 com discurso trabalhista, mas também fazia acenos conservadores, com ponderações sobre o período da ditadura militar (1964-1985).

Nos últimos anos, Timóteo considerava integrar o PT. Em sua carreira, ele foi filiado ao PDT, PP (e suas diversas derivações), PR e MDB. A última vez que tentou vez na política foi em 2016, quando concorreu a Câmara Municipal de São Paulo, mas não se elegeu pela segunda vez.

Do brizolismo ao malufismo ao lulismo

Timóteo entrou para a política em 1982, eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro com mais de 500.000 votos. Sua estreia no parlamento ficou conhecida ao levar um telefone sem fio para o púlpito e fingir ligar para a sua mãe.

Nos anos 1980, fim da ditadura militar, Timóteo se dizia defensor do trabalhador e da democracia. Em 1984, votou pela da emenda Dante de Oliveira, que retomaria eleições diretas para presidente da República.

Apesar disso, nas eleições indiretas de janeiro de 1985, votou em Paulo Maluf (então PDS), candidato do regime militar. O trânsito entre o progressismo e o conservadorismo, estampado na passagem em diferentes partidos, viraria uma de suas marcas políticas.

Depois disso, Timóteo rompeu com Leonel Brizola, líder do PDT, e ingressou no PDS de Maluf. Pelo PDS, foi candidato ao governo do Rio em 1990, com acusações de ter recebido dinheiro do jogo do bicho, mas perdeu para o antigo padrinho. Em 1994, foi eleito suplente à Câmara Federal já pelo PPR (resultado da fusão do PDS com PDC) - cargo que acabou assumindo em outubro de 1995.

Timóteo passou os anos 1990 na mão do malufismo. Seguiu no PPR quando virou PPB, por onde foi eleito, em 1997, à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Em um movimento atípico, largou Brasília em meio de mandado e voltou à capital fluminense.

Ao perder a reeleição em 2000, mudou-se para São Paulo e foi eleito à Câmara Municipal pelo PP em 2004. Na CMSP, foi reeleito em 2008 pelo PL e ficou até 2012, quando perdeu, já pelo PR. Tentou mais uma vez em 2016, já pelo MDB, mas não teve sucesso.

Timóteo (então PP) na primeira campanha à Câmara de São Paulo, em 2004, apoiando Paulo Maluf (PP), candidato à Prefeitura - BETO BARATA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE - BETO BARATA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE
Paulo Maluf (PP) e Agnaldo Timóteo fazem campanha para as eleições municipais de 2004 em São Paulo
Imagem: BETO BARATA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

"Eu morro pelo Lula"

Os anos 2000 fizeram com que ele tivesse uma mudança de postura em relação a Lula, que tanto criticou no Congresso Nacional, em especial em sua segunda passagem. Com o petista presidente, Timóteo passou a se autointitular "autêntico socialista" e a defende-lo continuadamente.

Seus discursos na Câmara de São Paulo, onde passou oito anos, eram marcados por esse dualismo: elogiava Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff, então no cargo, mas não deixava de fazer referências ao período de ditadura militar, aclamando a educação básica da época, e a Paulo Maluf.

Em 2011, foi contra a criação da Comissão da Verdade, projeto nacional instituído por Dilma para investigar as violações da ditadura militar, em São Paulo. Crítico, participou dela por seis meses em 2012.

No fim da vida, aproximou-se, por fim, do petismo. Em programa televisivo em 2019, ele disse Lula deixou espaço aberto na sigla para sua filiação e opinou que se o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fosse metade do que o petista foi, ele ficaria "feliz".

"Eu morro pelo Lula. Bolsonaro foi meu colega deputado, sempre nos respeitamos. A gente torce para que ele supere as dificuldades que têm surgido e seja um presidente? a metade do que foi Lula, já fico feliz", comentou, na época. "O Lula disse: 'se um dia você quiser ir para o PT, eu assino a ficha'. Eu já assinei, estou indo", completou.

Em 2018, enquanto o ex-presidente e colega tentava brechas na justiça para concorrer às eleições presidenciais, Timóteo disse que estava disposto a se candidatar novamente para "brigar pelo Lula". No mesmo ano, ele disse ao Jornal O Globo que estava disposto a filiação imediata.

O artista foi vítima de um AVC, o que pode ter agravado o quadro de infeção pelo novo coronavírus. Como prova da amizade, em 2019, Lula escreveu uma carta do presídio de Curitiba desejando melhoras ao parceiro. "Tenha fé e acredite", escreveu.

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