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Ministra "bombeira", Flávia Arruda tenta consertar Orçamento e visa eleição

A ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, vive os primeiros dias de trabalho no Planalto - Reprodução/Facebook
A ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, vive os primeiros dias de trabalho no Planalto Imagem: Reprodução/Facebook

Luciana Amaral e Carla Araújo

Do UOL, em Brasília

17/04/2021 04h00

Nas primeiras semanas como ministra da Secretaria de Governo, responsável pela articulação política entre Planalto e Congresso, Flávia Arruda (PL-DF) tem se focado em consertar o Orçamento de 2021 que ela mesmo ajudou a construir enquanto presidente da CMO (Comissão Mista de Orçamento), no Parlamento.

Em detrimento das despesas obrigatórias, o Orçamento deste ano conta com mais recursos a emendas parlamentares do que a equipe econômica diz considerar possível. Agora, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta negociar com os parlamentares uma redivisão do dinheiro. No entanto, ainda não há consenso.

Flávia Arruda assumiu a Secretaria de Governo em 6 de abril com a benção do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de seu antecessor na pasta, general Luiz Eduardo Ramos, e do cacique do PL, Valdemar Costa Neto, condenado no processo do Mensalão.

A intenção de Bolsonaro ao escolher Flávia como ministra foi tentar amarrar tanto Lira quanto Valdemar a si. O primeiro devido aos pedidos de impeachment que pipocam na Câmara. O segundo por causa das eleições de 2022 - Bolsonaro não quer correr o risco de que Valdemar, e, consequentemente, um dos partidos mais importantes do centrão, acabe debandando para as asas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ambos estavam na posse de Flávia no Planalto, que tentou disfarçar a presença de Valdemar ao tirar do ar uma foto divulgada que o mostrava no evento.

Além disso, Flávia Arruda pode passar uma imagem melhor ao governo Bolsonaro por ser mulher, jovem - 41 anos -, ter mais trânsito na esquerda do que outras opções ventiladas, ser reconhecida como esforçada e estar em seu primeiro mandato como deputada federal.

Mesmo alguns dias antes da posse oficial, inclusive no final de semana, Flávia já se dedicava a tentar consertar o orçamento em conversas com Guedes, parlamentares, técnicos do governo e ministros do TCU (Tribunal de Contas da União).

Segundo um auxiliar, Flávia tem atuado como "bombeira" para apaziguar os ânimos, ainda que esteja com os ouvidos tendendo mais aos congressistas. No quarto andar do Planalto, onde fica seu gabinete, a sala de espera tem ficado lotada para reuniões.

O objetivo é não deixar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) exposto, com o risco de dar motivo para a abertura de um processo de impeachment, nem desagradar o centrão, que se tornou a massa da base aliada do governo no Congresso.

Bolsonaro sabe que o Orçamento, que viabiliza a entrega de obras, por exemplo, ajudará os políticos a se elegerem em 2022, ele incluso. E a perspectiva eleitoral de Bolsonaro não está tão confortável quanto em 2018, pois agora há, em princípio, Lula em jogo.

Nos últimos dias, ela se encontrou com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para tratar da pandemia e atuou na busca de minimizar os danos ao governo com a iminência da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado. Porém, esses assuntos ainda não têm sido o foco dela nesse início como ministra. A prioridade é resolver o enrosco do Orçamento.

'Peixe fora d`água' e dificuldade para montar equipe

No Planalto, há quem enxergue Flávia como um peixe fora d`água. Sua chegada ao Palácio do Planalto mudou a configuração de auxiliares diretos do presidente, que antes eram majoritariamente compostos por homens.

A ministra tem distribuído simpatia e elegância pelos corredores palacianos e, segundo auxiliares, não se intimida em suas reuniões com o presidente Jair Bolsonaro. "Quando a mulher fala, a gente escuta", tem dito o presidente, afirmam.

Mesmo assim, ela tem tido dificuldades para estabelecer uma equipe nova com experiência de Planalto e somente com pessoas de sua confiança. Grande parte ainda é formada por militares da época do Ramos na pasta, e alguns funcionários têm sofrido pressões da patrulha de integrantes do grupo ideológico.

Flávia não é ligada aos olavistas e, nos bastidores, discorda com a postura do governo em diversas situações, como perante a própria pandemia.

A resistência de Bolsonaro com a imprensa também é rechaçada pela ministra, que diz ver a mídia como peça fundamental da democracia. Apesar disso, a nova titular da articulação está reticente em conceder entrevistas nesses primeiros dias no cargo.

Atenção ao DF visando eleições de 2022

A ministra, que tem sua carreira política ligada ao Distrito Federal, até por ser casada com o ex-governador José Roberto Arruda, cassado por infidelidade partidária e condenado por supostos esquemas de corrupção, também tem usado o gabinete palaciano para receber políticos e pessoas ligadas aos interesses da capital federal, e os seus.

Por exemplo, ouviu do secretário de saúde local um pedido de ajuda para sensibilizar o governo e o ministro da Saúde para se acelerar o ritmo de vacinação contra a covid-19 no Distrito Federal.

Segundo auxiliares da ministra, um bom trabalho de articulação neste ano a cacifará para voos mais altos do que a Câmara dos Deputados na eleição do ano que vem. Atualmente, ela considera disputar uma vaga ao Senado ou ao governo do Distrito Federal.

Uma definição vai depender da visibilidade como ministra e de entendimentos políticos com o atual governador, Ibaneis Rocha (MDB). Um trunfo é que, ajudada pelo marido, Flávia conta com um eleitorado expressivo na população do Distrito Federal.

Por outro lado, a reportagem apurou que ela já está temerosa de colar sua imagem no Bolsonaro e ter plena consciência de que os palanques locais começam a pesar na política nacional.

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