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Renan devolve derrota ao governo e ressurge fortalecido na CPI da Covid

Senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid - Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo/Arte UOL
Senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid Imagem: Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo/Arte UOL

Lucas Valença

Colaboração para o UOL, em Brasília

01/05/2021 04h00Atualizada em 01/05/2021 22h05

A CPI da Covid devolveu ao senador Renan Calheiros (MDB-AL) um protagonismo na política nacional que ele havia perdido. Como relator da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, Renan tem chances de vingar a derrota que lhe foi imposta em fevereiro de 2019 pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Naquele mês, o emedebista tentou sua quinta eleição para presidente do Senado, mas o Planalto deu a vitória a Davi Alcolumbre (DEM-AP). A cobrança da fatura, porém, enfrenta um obstáculo: o temperamento às vezes explosivo do parlamentar.

Com um vasto conhecimento do regimento interno do Senado e uma desenvoltura política singular, o senador carrega a experiência de ter presidido a Casa quatro vezes, além de ter sido ministro da Justiça, na gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Senador desde 1995, o emedebista mostrou a força do nome quando ajudou a eleger e a reeleger o filho, Renan Filho (MDB), ao governo de Alagoas.

Renan Calheiros assumiu como relator da CPI contra a vontade do governo e compôs uma maioria de 8 a 3 entre os integrantes da comissão, incluindo o presidente, Omar Aziz (PSD-AM).

Nos próximos dias, porém, a chamada "tropa de choque" do governo na CPI pretende colocar em xeque toda essa experiência apelando para os nervos do cacique emedebista. Durante os depoimentos do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e dos ex-representantes da pasta na comissão, o Palácio do Planalto tentará manter o embate da última sessão, quando o alagoano quase perdeu a compostura com os governistas mais radicais.

Para tirar o alagoano "do sério", o governo também estuda colocar à frente da articulação política o secretário-geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, responsável pelo enfraquecimento do emedebista dois anos atrás e pelo embate que o jogou para os bastidores.

Renan Calheiros, contudo, pode ganhar mais poder ainda nesta semana, quando os nomes de um delegado da PF (Polícia Federal) e de um técnico do TCU (Tribunal de Contas da União) serão escolhidos por ele para ajudar nas investigações que terão seis linhas de ação contra o Executivo.

A estratégia? Expor a fragilidade da gestão Bolsonaro no enfrentamento às crises sanitária e econômica que atingem o país, mas sem cair nas provocações palacianas. Assim, o parlamentar com perfil de Centrão precisará conter os ânimos para não transformar a CPI em um ringue contra o governo.

Saída e retorno aos holofotes

Depois de perder a presidência do Senado para Davi Alcolumbre, ainda em fevereiro de 2019, quando o governo federal mantinha sua maior popularidade, Renan se recolheu aos bastidores. No período, o político se dedicou a se defender dos nove processos judiciais que responde no STF (Supremo Tribunal Federal).

O alagoano, porém, procurou se manter forte no MDB, enquanto alguns membros mais jovens no partido buscavam a "modernização" da legenda. O resultado foi a candidatura à presidência da Casa, neste ano, da senadora Simone Tebet (MS), que, ao longo do processo, foi rifada pelo próprio partido, que negociou a vice-presidência do Senado.

Depois disso, Renan retomou as rédeas do partido na Casa, tornando-se líder da maioria, função que serviu para proferir as primeiras críticas à gestão de Jair Bolsonaro.

Língua afiada

A volta do alagoano também traz as sempre bem pensadas frases de efeito. Nesta quinta-feira (29), acendeu um sinal de alerta no palácio quando o alagoano afirmou à imprensa que "aliados do vírus" deverão se preocupar com o avanço da CPI.

Em seguida, questionado se teve a contribuição de governistas na elaboração do Plano de Trabalho da CPI, foi irônico. "Contribuição teve, eles divulgaram as 23 medidas. Eu disse à minha equipe: não esqueçam das 23 medidas", disse, referindo-se à tabela distribuída pela Casa Civil da Presidência, obtida em primeira mão pelo colunista do UOL Rubens Valente, que enumera 23 acusações frequentes sobre o desempenho do governo Bolsonaro no enfrentamento ao vírus.

Alianças

A história do senador, porém, mostra ser pouco provável uma aliança com a atual gestão à frente do governo federal. Aliado dos governos do PSDB e, em seguida, do PT por décadas, o parlamentar mantém uma divisão clara em Alagoas, seu estado natal, o que se reflete nacionalmente.

Ele optou por distanciar-se de Bolsonaro, enquanto os principais adversários do político, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), e o senador Fernando Collor (Pros), seguem próximos à atual gestão federal. Os dois já mudaram de lado por algumas vezes, quando optaram por seguir as ondas vencedoras da gestão do PT, até o impeachment de Dilma Rousseff, enquanto Renan seguiu fiel aos aliados mais antigos.

Desta vez, porém, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também retorna ao cenário político, o que, com a aprovação do petista no Nordeste, fortalece o alagoano. O emedebista deverá apoiar o ex-presidente (e receber o apoio dele) na próxima eleição, já que os dois seguiram juntos por muitos anos.

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