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Governo acumula "caneladas" na CPI da Covid; veja os pontos fracos

Governo enfrentou problemas na CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
Governo enfrentou problemas na CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Lucas Valença

Colaboração para o UOL, em Brasília

08/05/2021 04h00Atualizada em 08/05/2021 09h16

As primeiras duas semanas da CPI da Covid foram entendidas no colegiado como prejudicais ao governo federal. Em minoria, senadores governistas não conseguiram impedir que os depoimentos de membros e ex-integrantes do Executivo atingissem diretamente o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Tentativas de mudar a relatoria da comissão parlamentar de inquérito, suposta interferência do Palácio do Planalto e até mensagem para destinatário errado estão entre os tropeços cometidos pelos governistas.

Confira, abaixo, lista das principais "caneladas" da CPI:

Relator mantido

A CPI começou em meio ao tumulto criado pelo governo contra o acordo feito entre a oposição e os considerados independentes. As duas alas concordaram em conceder a relatoria do colegiado ao senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Contra a posse do alagoano, a deputada federal bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) procurou intervir no Senado e acionou a Justiça Federal de Brasília. Apesar de não ter competência para julgar a causa, o juiz Charles Renaud, da 2ª Vara Cível, decidiu impedir a posse do emedebista.

A decisão liminar não durou muito e foi derrubada no dia da escolha de Renan, que foi empossado normalmente pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Em seguida, os parlamentares governistas se reuniram no Palácio do Planalto e decidiram recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal), O processo foi remetido ao ministro Ricardo Lewandowski, que decidiu manter Renan na função.

Interferência do Planalto

Quando os primeiros requerimentos de informações dos senadores foram apreciados pelo relator para serem votados em bloco, o jornal "O Globo" publicou reportagem informando que alguns dos pedidos feitos por governistas tinham sido produzidos dentro do Palácio do Planalto.

À época, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), declarou que não aceitará esse tipo de ação. "Algo que não permitiremos é que essa CPI sofra interferência externa", enfatizou.

Mensagem errada

Na terça-feira (4), porém, no depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a interferência do governo foi novamente questionada pelos opositores.

Após o senador Ciro Nogueira (PP-PI) questionar o médico, Mandetta foi direto: "Eu recebi essa pergunta, exatamente nessa íntegra, do ministro [das Comunicações] Fábio Faria. Acho que ele inadvertidamente mandou para mim a pergunta". Segundo ele, Faria apagou a mensagem logo depois.

A afirmação fez com que o ministro das Comunicações gravasse um vídeo para rebater a acusação de interferência. "Já tinha falado disso em várias entrevistas e nunca tinha ouvido palavra do senhor. Então, quem sabe agora, na CPI, seja o momento em que o senhor possa esclarecer isso para os brasileiros", disse Fábio Faria.

Cloroquina dividida

Na CPI, o Executivo também tem tentado manter o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro com relação aos medicamentos sem comprovação científica.

Os governistas no colegiado tentam levantar a tese de que a "ciência está dividida" com relação ao uso de algumas drogas contra o coronavírus, em especial da hidroxicloroquina e da ivermectina.

A oposição, contudo, aproveitou o depoimento do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para criticar o chamado "kit Covid", defendido pelo Planalto.

Sem respostas

O assunto cloroquina, aliás, foi o que mais incomodou Marcelo Queiroga. Questionado 11 vezes seguidas por Renan sobre o medicamento, o ministro desviou todas as vezes.

Outros senadores também chegaram a perguntar sobre o tema, e, segundo eles, receberam respostas inconclusivas.

Insatisfeito com a pressão sobre Queiroga, Bolsonaro atacou o senador dizendo que houve desvio de recursos no governo de Alagoas, Estado comandado pelo filho do senador, Renan Filho (MDB).

Os constantes ataques contra o relator fizeram com que o senador petista Paulo Rocha (PA) ironizasse a atuação do Executivo. "É surpreendente. Governo começa a CPI confrontando com quem vai investigá-lo", resumiu.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.