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1 mês

CPI da Covid: 7 vezes em que o presidente da Anvisa divergiu de Bolsonaro

8.dez.2020 - O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Anvisa, Barra Torres  - Pedro Ladeira/Folhapress
8.dez.2020 - O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Anvisa, Barra Torres Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Do UOL, em Brasília e São Paulo*

11/05/2021 22h16Atualizada em 11/05/2021 23h02

Em depoimento na CPI da Covid, p diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, mostrou discordar do presidente Jair Bolsonaro em medidas de combate ao coronavírus como uso de máscara, distanciamento social e imunização.

Barra Torres disse ser amigo de Bolsonaro, mas afirmou se opor ao presidente quanto a defesa da cloroquina contra a doença, o que já foi descartado pela ciência. O médico ressaltou ter sido contra uma sugestão apresentada em reunião no Planalto de alterar na bula do medicamento para incluir a recomendação de tratamento da covid-19.

O UOL listou sete pontos em que Barra Torres divergiu de Bolsonaro.

Tratamento precoce com "kit covid"

Barra Torres disse que não há comprovação científica sobre a eficácia do tratamento precoce contra a covid-19 —que inclui o uso de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina. Assim, indo na contramão de Bolsonaro, que é defensor medicação para evitar a doença, com o governo federal tendo pago a influenciadores para defender a medida.

"Não, não existe comprovação, e para evitar [a doença] não usei absolutamente nada disso, não tem comprovação de uso profilático de nada disso"

Cloroquina

O diretor-presidente da Anvisa confirmou que houve uma reunião no Palácio do Planalto foi discutido um possível decreto presidencial para mudar a bula da cloroquina. No encontro, além de Barra Torres, estavam presentes o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ministro Braga Netto e a médica imunologista Nise Yamaguchi, defensora do medicamento.

"Até o presente momento, no mundo todo, os estudos apontam a não eficácia comprovada [da cloroquina] em estudos ortodoxamente regulados, ou seja, placebos controlados, duplo-cego e randomizados. Então, até o momento, as informações vão contra a possibilidade do uso na covid-19."

"Quando houve uma proposta de uma pessoa física fazer isso, isso me causou uma reação um pouco mais brusca. Eu disse: 'Olha, isso não tem cabimento, isso não pode'."

Aglomerações na pandemia

Após ser questionado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre ser a favor ou contra o passeio de moto do Bolsonaro que gerou aglomeração em Brasilia no domingo (9), ele considerou inadequado a postura do presidente. Também negou estar presente no encontro.

"Destarte a amizade que tenho com o presidente, a conduta do presidente difere da minha neste sentido. As manifestações que eu faço têm sido todas com base no que diz a ciência."

"Não estive presente nesse evento. Sou contra qualquer tipo de aglomeração nesse sentido."

"Aliás, encontrava-me também me preparando - além de ser sanitariamente inadequado, claro, não é o preconizado -, me preparava para estar aqui hoje com as senhoras e os senhores."

Uso de máscara

Ao ser questionado obre a participação em manifestações em favor do presidente, que ocorreram em Brasília, no início da pandemia, em que ambos apareceram sem máscara diante de uma aglomeração, Barra Torres explicou que não teria feito isso se pensasse melhor. Ainda disse que sua conduta perante a pandemia difere de Bolsonaro.

"É óbvio que, em termos da imagem que isso passa, eu hoje tenho plena ciência de que, se pensasse por mais cinco minutos, eu não teria feito, até porque esse assunto nem era um assunto que necessitasse de urgência para ser tratado. De minha parte, digo que foi um momento em que não refleti sobre a questão da imagem negativa que isso passaria. E, certamente, depois disso, nunca mais houve esse tipo de comportamento meu, por exemplo."

Dúvidas sobre a CoronaVac

Ao responder ao senador Humberto Costa (PTPE) sobre a opinião negativa do presidente sobre a CoronaVac, Barra Torres afirmou que as declarações contra a vacina são parte de uma "verdadeira guerra política" que se instaurou no Brasil e não "ajudam" no enfrentamento da pandemia.

"Eu entendo que não ajuda, senador, e coloca esse tipo de declaração na conta de uma verdadeira guerra política que se instaurou num tema que deveria ficar eminentemente na área da ciência."

Imunidade de rebanho

Ao ser questionado pelo vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), sobre a imunidade de rebanho disse não concordar com a estratégia defendida por Bolsonaro. Também chamada de imunidade de grupo e imunidade coletiva, a imunidade de rebanho consiste em atingir um ponto em que há uma quantidade suficiente de pessoas imunes ao vírus, interrompendo a transmissão comunitária.

"Um manda e o outro obedece"

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) vice-presidente da CPI, questionou se Barra Torres concordava com a situação de "um mandar e o outro obedecer", em referência à declaração do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, em outubro do ano passado, após ser desautorizado em relação à compra da CoronaVac.

O chefe Anvisa disse que não compartilha da opinião. "De maneira nenhuma. Qualquer ação de saúde é pautada por ciência. A questão hierárquica é uma outra questão", conclui.

*Com informações de Douglas Porto, Rafael Bragança, Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.