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6 meses

CPI: 'Não houve percepção de que faltaria oxigênio em Manaus', diz Mayra

Rayanne Albuquerque e Hanrrikson de Andrade*

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

25/05/2021 11h13Atualizada em 25/05/2021 12h14

A servidora do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro, a "capitã cloroquina", declarou hoje à CPI da Covid que não houve percepção por parte do governo federal de que faltaria oxigênio nos hospitais em Manaus em meio ao colapso na rede pública de saúde, no começo do ano. O cenário foi agravado pelo avanço da covid-19 no país.

Em Manaus, em uma situação extraordinária de caos, onde nós não temos noção de quantos pacientes vão chegar ao hospital, é impossível se fazer uma previsão de quando vai usar a mais. O que eles tiveram foi uma constatação, passaram de 30 mil metros cúbicos para 80 mil
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão e Trabalho em Saúde do Ministério da Saúde

As declarações ocorreram em resposta a questionamentos do relator da Comissão Parlamentar de Inquérito, Renan Calheiros (MDB-AL).

Indagada a respeito de eventual responsabilidade do Ministério da Saúde no agravamento da crise sanitária, Mayra respondeu a culpa não deve ser atribuída ao Executivo federal, e sim "ao vírus".

Nenhuma responsabilidade. A responsabilidade da doença é o vírus
Mayra Pinheiro

A secretária também culpou a gestão municipal pelo caos observado em Manaus nos primeiros meses de 2021. Durante a oitiva, ela afirmou que pacientes que eram diagnosticados com covid-19 eram misturados com os que não tinham a doença em unidades da capital amazonense.

Já em relação ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina, Mayra afirmou que o Brasil não era obrigado a seguir as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde). E, caso o tivesse feito, teria "falhado" em vários aspectos do enfrentamento à doença, de acordo com o seu entendimento.

A servidora é defensora do uso de medicamentos que não têm eficácia científica comprovada no tratamento da covid-19. Já a OMS recomendou, em julho do ano passado, a interrupção do uso da cloroquina e hidroxicloroquina no combate aos sintomas provocados a partir da contaminação.

Na perspectiva da depoente, a OMS retirou as orientações com base em estudos de "qualidade metodológica questionável". Ela alegou que as pesquisas observam os efeitos da cloroquina na fase "tardia da doença" e alega que já é sabido que "não há benefícios aos pacientes" nesta fase.

É preciso que a gente deixe, primeiramente, claro, que a OMS é um braço da ONU que trata das questões relativas à saúde. Embora o Brasil seja signatário dessa entidade, o Ministério da Saúde de todos os países são órgãos independentes e têm sua autonomia para tomada de decisões de acordo com as situações locais
Mayra Pinheiro

'Bolsonaro não deu ordem para incentivar cloroquina'

A secretária afirmou hoje não ter recebido ordens do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ou do ex-chefe, Eduardo Pazuello (ex-ministro da Saúde), para defender o uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada no tratamento do coronavírus.

Nunca recebi ordem e o uso desses medicamentos não é uma iniciativa minha pessoal
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde

O tema da cloroquina e da defesa feita pelo governo federal de remédios que não têm eficácia contra a covid é um dos principais pontos de interesse da CPI.

Logo na abertura da audiência, o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), pediu respostas sobre os motivos de o Ministério da Saúde ter retirado recentemente as recomendações da cloroquina da página oficial da pasta.

Em resposta, Mayra Pinheiro declarou que essa foi uma medida adotada pelo atual ministro, Marcelo Queiroga, com o intuito de montar um protocolo para a doença e evitar divergências sobre o tratamento.

O ministro Marcelo, em uma atitude acertada, levou para Conitec todas as construções de protocolos clínicos para a conduta da doença para eliminarmos o que existe hoje da divergência de opiniões
Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde

A "capitã cloroquina" também foi indagada a respeito da tese da imunidade de rebanho, que chegou a ser defendida por aliados do governo como um "caminho possível" para solucionar os problemas da pandemia sem que o estado brasileiro precisasse recorrer ao lockdown (interrupção total das atividades).

Na versão da depoente, não houve orientação do governo para que o ministério trabalhasse com tal estratégia. Ela também negou ser favorável à tese, mas tentou relativizar durante a resposta e foi interrompida pelo relator, que pediu "objetividade".

App 'TrateCov'

Mayra chegou a relatar ao colegiado da CPI que a criação da plataforma TrateCov do Ministério da Saúde que orientava o "tratamento precoce" e o uso de medicamentos sem eficácia comprovada foram geridos pela secretaria gerida por ela.

A servidora do Ministério da Saúde declarou que a tecnologia utilizada para propagar o uso da cloroquina tomava como base uma plataforma de São Paulo que tem informações sobre o combate à dengue.

* Colaborou Ana Carla Bermúdez

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.