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Eduardo Bolsonaro e Wajngarten articularam rádio para "guerra política"

13.fev.2021 - Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante a visita de Jair Bolsonaro (sem partido) ao litoral de Santa Catarina - 13.fev.2021 - Dieter Gross/Estadão Conteúdo
13.fev.2021 - Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante a visita de Jair Bolsonaro (sem partido) ao litoral de Santa Catarina Imagem: 13.fev.2021 - Dieter Gross/Estadão Conteúdo

Lucas Valença e Rafael Neves

Do UOL, em Brasília

13/06/2021 04h00Atualizada em 13/06/2021 09h42

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência da República, participaram de uma articulação com empresários que buscava criar uma rádio FM, de viés conservador, destinada a ser uma "arma para a guerra política". A definição foi dada pelo empresário Otávio Fakhoury, um dos alvos da Operação Lume, da PF (Polícia Federal), que investigava atos antidemocráticos. Em mensagem de WhatsApp enviada a Wajngarten em maio do ano passado, Fakhoury disse ter receio de que "o governo enfraquece demais" sem iniciativas como aquela.

O ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo caso no STF (Supremo Tribunal Federal), retirou o sigilo do inquérito na última semana, após a PGR (Procuradoria-geral da República) pedir o arquivamento das investigações. Em junho de 2020, Fakhoury foi alvo de buscas e teve seus celulares e computadores apreendidos. O conteúdo dos aparelhos, que agora veio à tona, aponta que ele se aconselhou com Wajngarten e com Eduardo Bolsonaro sobre como viabilizar e financiar esta rádio.

Os documentos mostram que as investigações da PF não avançaram além do que foi apurado até o dia 9 de julho de 2020, data em que as conversas foram resumidas em um relatório parcial assinado por quatro agentes. Até aquele momento, os diálogos apontavam que Eduardo Bolsonaro havia oferecido ajuda a Fakhoury e consultado o pastor RR Soares, fundador da IIGD (Igreja Internacional da Graça de Deus), com quem obteve uma estimativa de preços para tirar a ideia do papel.

Já Wajngarten foi procurado por Fakhoury e ofereceu marcar uma reunião com o empresário para ajudar a viabilizar o projeto. Na troca de mensagens entre os dois, o empresário pede indicação de uma emissora de rádio para "compra imediata" e diz que irá ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para levantar recursos,

Em seguida, o empresário afirmou já ter "um grupo que vai financiar" a criação da rádio. Fakhoury não citou nenhum patrocinador específico, mas enviou ao então chefe da Secom um link para uma reportagem citando o Instituto Brasil 200, que reúne empresários alinhados às pautas econômicas do governo. Essas tratativas, porém, também não avançaram, segundo o material coletado pela PF.

Segundo o relatório, as investigações apuravam a possível violação de três artigos da Lei de Segurança Nacional e eventual associação criminosa, mas o documento não chega a nenhuma conclusão. Na última quarta, Fakhoury pediu ao STF que o sigilo sobre os documentos, afastado por Alexandre de Moraes, fosse restabelecido. Moraes, no entanto, negou a petição.

"Nossa arma para a guerra política"

Segundo a PF, a ideia de criar esta rádio foi exposta pela primeira vez em novembro de 2019, quando Fakhoury deu uma entrevista ao canal de YouTube "Vista Pátria", da jornalista Camila Abdo. Na conversa, ele afirma que comunicadores de direita vinham sofrendo censura em plataformas digitais e, para evitar esse risco, os grupos conservadores deveriam fundar redes de mídia aberta, como rádio e televisão.

Meses depois, no dia 2 de março, Fakhoury apresentou a iniciativa a Eduardo Bolsonaro. Em mensagens de WhatsApp, o empresário diz ao filho do presidente Jair Bolsonaro que a ideia era fazer com que a Shock Wave Radio, uma rádio online de conteúdo conservador, migrasse para FM. O plano inicial, segundo indicam as mensagens, seria comprar uma rádio ou alugar horários em uma emissora já existente.

O relatório da PF revela que Eduardo Bolsonaro ofereceu ajuda a Fakhoury e pediu atualizações sobre o projeto. Em duas conversas com o empresário e reproduzidas no inquérito, uma em 10 de março e outra em 20 de abril de 2020, o deputado afirmou ter se encontrado com RR Soares e abordado o assunto. A segunda conversa ocorreu devido a um apelo de Fakhoury, feito três dias antes. "Precisamos da FM nossa arma para a guerra política", pediu o empresário. "Não esqueça please", completou.

Em resposta a esse pedido, o filho do presidente Jair Bolsonaro informou que se reuniria com RR Soares no dia seguinte. Após esse encontro com o líder evangélico, já no dia 22, Eduardo informou a Fakhoury que três rádios já estariam dispostas a fechar negócio e já tinham ofertado preços para serem alugadas ou compradas. "Tendo o dinheiro é só tratar com eles", escreveu o parlamentar. A partir daquela data, no entanto, a PF não identificou mais nenhuma participação dele nas tratativas.

EduardoBolsonaroPF - Reprodução/PF - Reprodução/PF
Troca de mensagens entre Eduardo Bolsonaro e empresário Otávio Fakhoury, em 22 de abril de 2020
Imagem: Reprodução/PF

Procurado para comentar o assunto, Fakhoury afirmou ao UOL que a ideia não se concretizou, mas que não tinha nada de ilegítimo. Segundo ele, a expressão "guerra política" foi uma referência a um embate de ideias, e não a qualquer ataque às instituições ou à democracia. "A gente está apenas defendendo uma linha de pensamento para contrapor outra linha", afirmou. Fakhoury negou, também, que a rádio fosse um projeto de apoio ao governo.

O UOL buscou esclarecimentos de Eduardo Bolsonaro, mas não obteve contato até a conclusão desta reportagem. A reportagem também não conseguiu localizar Soares. O espaço está aberto para manifestação.

"O governo enfraquece demais"

No dia 22 de maio do ano passado, um mês depois da última conversa com Eduardo Bolsonaro registrada no inquérito, Fakhoury procurou Fábio Wajngarten, à época chefe da comunicação do governo. Em mensagens, ele contou a Wajngarten que procurava uma rádio FM "para compra imediata" e que pretendia tomar um empréstimo no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Fakhoury pediu ao então secretário "uma indicação certeira de alguém" disposto a vender uma rádio, "sem salgar acima do que vale".

A conversa ocorreu numa sexta-feira. Em resposta ao pedido, Wajngarten se compromete a fazer uma reunião na segunda-feira seguinte, em São Paulo. "Sentamos 2f e resolvemos isso", escreveu. Em seguida, Fakhoury explicou o motivo da urgência: "realmente estou assustado achando que se morrer a midia alternativa e nao tivermos mais voz, o governo enfraquece demais".

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Troca de mensagens entre empresário Otávio Fahkoury e Fábio Wajngarten, ex-chefe de comunicação do governo, em 22 de maio de 2020
Imagem: Reprodução/PF

O empresário informou, na sequência, já contar com "um grupo que vai financiar" a empreitada. Em seguida, enviou o link de uma reportagem do site Congresso em Foco, que fala sobre um boicote articulado nas redes contra dezenas empresas alinhadas ao bolsonarismo. Fakhoury não especificou, todavia, quais delas seriam parceiras do projeto.

Questionado pelo UOL sobre o episódio, o ex-secretário afirmou que a reunião presencial não aconteceu e que ele, de toda forma, reuniu-se com "inúmeros" donos de veículos de comunicação enquanto esteve na função. Fakhoury, por sua vez, diz que consultou Wajngarten na condição de amigo e especialista em comunicação. "Eu só perguntei se ele tinha indicação de uma rádio que estivesse à venda. Nós já tínhamos um histórico na área de comunicação", afirmou.

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