PUBLICIDADE
Topo

Conteúdo publicado há
1 mês

Até 400 mil vítimas da covid poderiam ter sido salvas, dizem especialistas

Rayanne Albuquerque e Gabriel Toueg

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

24/06/2021 11h26Atualizada em 24/06/2021 15h02

Até 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas durante a pandemia da covid-19 no Brasil se políticas efetivas de controle baseadas em ações não farmacológicas tivessem sido empregadas no país. Essa é a conclusão apresentada por especialistas hoje durante a sessão da CPI da Covid.

De acordo com a médica Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil e integrante do Grupo Alerta, o "excesso de mortes" pela covid-19 no Brasil foi de cerca de 305 mil mil pessoas apenas ao longo de 2020. "Quantificando aquelas mortes em excesso, a gente pode afirmar que foram 305 mil mortes acima do esperado no Brasil no primeiro ano da pandemia, nas primeiras 52 semanas", disse Werneck no Senado.

Em um cálculo explicado por ela à CPI, o Brasil teria visto cerca de 120 mil mortes a menos no ano passado. "Se tivéssemos agido como era preciso, poderia, ainda no primeiro ano da pandemia entre nós ter salvado 120 mil vidas", disse ela. Os dados da Anistia Internacional não consideram o intervalo mais letal da pandemia, o que sugere que o número de mortes evitáveis pode ser ainda maior.

E não são números, são pais, são mães, são irmãos, são sobrinhos, são tios, são vizinhos, são gente que eu não conheço, mas que habita este país, como eu. A gente poderia ter salvado pessoas se uma política efetiva de controle, baseada em ações não farmacológicas, tivesse sido implementada.
Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil

O número de "mortes em excesso" leva em consideração tanto as causadas diretamente pela doença como aquelas causadas "pela presença da pandemia", como disse Werneck. De acordo com a Anistia Internacional, que assinou com outras 11 entidades comunicados alertando sobre as mortes evitáveis na pandemia, se medidas adequadas de distanciamento social tivessem sido adotadas, a redução no risco potencial de transmissão seria de até 40%.

"Com menos gente exposta, menos gente seria contaminada; com menos contaminação, haveria menos mortos", explicou ao UOL a assessoria de imprensa da entidade. "[Seriam] 40% de mortos [a menos]". O cálculo é feito a partir do risco de transmissão, que era de 3,3 no início da pandemia, ou seja, cada 100 pessoas contaminadas transmitiam o vírus a outras 330.

De acordo com a entidade, medidas melhores poderiam ter derrubado esse número a 0,8. "Se as medidas não fossem negligenciadas, teríamos garantido que as pessoas não transmitissem a doença e teríamos evitado 120 mil pessoas de morrer por covid", afirmou a assessoria.

Como a gente calculou o excesso de mortes, nós acompanhamos o excesso de mortes nas 52 semanas epidemiológicas e esses dados falam que esses números falam de pessoas que morreram durante a pandemia, morreram por covid e outras doenças naturais. Na presença da pandemia, quantas mais pessoas morreram? Seja por covid, seja pq tardaram por medo de ir ao serviço de saúde ou pq o serviço de saúde não foi capaz de cuidar. Esse é o excesso
Jurema Werneck, à CPI da Covid

Quatro em cada cinco mortes

Também em depoimento à CPI, o epidemiologista Pedro Hallal, professor da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e ex-reitor da instituição, disse que quatro em cada cinco mortes no Brasil poderiam ter sido evitadas, o que significa que 400 mil pessoas poderiam ainda estar vivas no país. Segundo Hallal, faltou comunicação unificada no país.

"É [um dado] estarrecedor, mas [que] precisa ser mostrado: o Brasil tem 2,7% da população mundial, [mas], desde o começo da pandemia, concentra praticamente 13% das mortes por covid no mundo", disse. "No dia de ontem uma de cada três pessoas que morreram por covid no mundo foi no Brasil", lembrou. "Portanto, é tranquilo afirmar que quatro de cada cinco mortes no Brasil estão em excesso, considerando o tamanho da nossa população".

Em outra análise, Hallal fez uma comparação da mortalidade acumulada proporcional à população. "No Brasil, desde o começo da pandemia, morreram 2.345 pessoas para cada milhão de habitantes; no mundo, menos do que 500", disse. "É uma análise diferente da anterior, que chega exatamente na mesma conclusão: quatro de cada cinco mortes teriam sido evitadas se estivéssemos na média mundial".

Não é se estivéssemos com um desempenho maravilhoso, como a Nova Zelândia, Coreia, Vietnã. Se nós estivéssemos na média - um aluno que tira nota média na prova -, nós teríamos poupado 400 mil vidas no Brasil.
Pedro Hallal, epidemiologista, à CPI da Covid

Vidas salvas pelas vacinas

Em documentos entregues à CPI da Covid, Pedro Hallal relatou que 95,5 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse assinado com maior antecedência os contratos de aquisição de vacinas com as farmacêuticas Pfizer e Sinovac, que produz a CoronaVac em parceria com o Instituto Butantan.

O epidemiologista também citou um outro estudo, feito por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), que estima 145 mil mortes evitáveis se o governo federal tivesse aderido a um percentual maior de vacinas no consórcio Covax Facility, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e a outras oportunidades de vacinas que o Brasil optou por não assinar.

"Quando a gente foi chamado a participar do Covax Facility, a gente recusou, a gente titubeou", disse Jurema Werneck. "E não fui eu, não foi o senhor; nós sabemos quem foi que recusou e titubeou".

"Não há justificativa para o erro"

Para a médica da Anistia Internacional, não há justificativas para que o Brasil persista no erro, com a população morrendo com o avanço das contaminações por coronavírus. Ela disse que os números apresentados pela entidade tomaram como base o ano compreendido entre março de 2020 — início da pandemia no Brasil — e março de 2021.

"O Brasil precisa corrigir a sua rota. Todo dia a gente só sobe [nos números de casos e mortes]. O nosso estudo fala de março a março, se encerra com aquelas 120 mil mortes antes dos meses mais letais", afirmou a especialista. "A gente vai de mês mais letal para mês mais letal. É gente entre nós que está morrendo. É urgente que a gente corrija a rota. Não há justificativa para persistência no erro, as evidências já são suficientes e evidenciam o que salva vidas".

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.