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Política

Bolsonarismo é mais sofisticado na maldade, diz Sheherazade

Gabriel Toueg

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/06/2021 14h38

A jornalista paraibana Rachel Sheherazade, que trabalhou durante nove anos na bancada do SBT —empresa que está processando por "assédio e censura"— disse, ao comparar ataques recebidos tanto da esquerda como da direita, que o bolsonarismo "é mais sofisticado na maldade".

Segundo a colunista da IstoÉ e apresentadora do Metrópoles, convidada do programa Jornalistas e Etc. de hoje, o bolsonarismo "se profissionalizou ainda mais". "Acho que a direita, essa direita bolsonarista, é mais sofisticada na maldade [dos ataques]".

Para ela, a extrema direita "pegou um modus operandi que era da esquerda, sofisticou e passou a usar com essa ferramenta dos bots [robôs] ". O programa é apresentado pela colunista do UOL Thaís Oyama. Você pode assistir a todos os programas do UOL no Canal UOL.

"Fui muito atacada pela esquerda, muito atacada pela direita. Acho que os ataques são os mesmos, igualmente covardes. No meu caso, os ataques à esquerda também diziam respeito à minha família, tive de blindar carro, foram convocadas passeatas contra mim na porta do meu trabalho, passei uma semana sob escolta policial, meus filhos foram expostos em redes sociais, fui alvo de ações judiciais por causa do meu trabalho", relatou a jornalista.

"[Ataques de esquerda e de direita são ambos] criminosos, cruéis, dispensáveis para uma democracia, bárbaros".
Rachel Sheherazade, jornalista

Polarização no jornalismo

Questionada por Oyama, Sheherazade disse que a polarização na política tem sido levada também para a imprensa. "Vejo muita polarização na nossa área", disse. "É um reducionismo, uma cegueira, uma miopia social, política".

Para ela, é compreensível que esse binarismo ocorra nas redes sociais, porque "estamos lidando com pessoas do povo, que não conhecem bem a política, não conhecem a informação a fundo, são levados por um sentimento apaixonado".

Jornalismo não é isso [polarização]. Jornalismo é análise, é informação, é conhecimento, tem de trazer à tona a verdade dos fatos. A polarização no jornalismo é mais burra do que a que acontece nas redes sociais.
Rachel Sheherazade, jornalista

"Vejo muito isso na TV, em rádio, mostram só um lado", disse. "É muito indigno para a nossa profissão tomar lados, se deixar seduzir por ideologias ou pelo poder econômico, pela proximidade com o poder político. Acho lamentável", afirmou.

Jornalista na política

Sheherazade, que foi vítima de fake news que diziam que ela poderia compor chapa com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para 2018, falou sobre convites recebidos para atuar na política, mas disse que "não tem a ver com o que eu sou, com o que busco na minha vida".

"Gosto de analisar a política, de acompanhar a política, não de fazer parte da política, a não ser como ser político, como uma cidadã que quer influenciar na direção que estão dando para o nosso país", declarou.

A mim cabe [...] ser uma intérprete para a sociedade das coisas que acontecem na política. Essa é a minha paixão
Rachel Sheherazade, jornalista

'Adote um bandido'

Na conversa com Oyama, Sheherazade falou sobre o polêmico episódio de 2014 em que, ao comentar o linchamento de um adolescente de 15 anos suspeito de ter cometido um crime no Rio de Janeiro, chamou o rapaz de "marginalzinho" e sugeriu àqueles que o defendiam que "adotassem um bandido".

O garoto foi amarrado nu a um poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta e agredido por um grupo que se intitulava "os justiceiros".

"Não me arrependo do comentário que fiz, não tiraria uma palavra", disse Sheherazade a Thaís. "[Mas] pensaria duas vezes [para fazer o comentário hoje] porque a capacidade de entendimento de muitas pessoas é muito limitada, e superestimei a capacidade de entendimento dos meus colegas jornalistas e das pessoas que estavam me escutando", argumentou.

O caso gerou muita repercussão à época. O Ministério Público Federal chegou a processar o SBT pelos comentários da âncora, pedindo retratação e pagamento de multa de R$ 500 mil. "Felizmente a Justiça deu o parecer final, bateu o martelo e disse que não houve crime", celebrou.

"Houve muita pressão política desses grupos [de esquerda], houve muita pressão da imprensa, eu acho que a imprensa comprou essa briga em favor dos grupos de esquerda para me atacar", disse.

A jornalista disse que apenas a Folha de S.Paulo deu a ela espaço para se explicar, à época. Em um artigo publicado no jornal, ela sustentava que "criminalidade e pobreza não andam necessariamente de mãos dadas".

Sheherazade justificou o comentário sobre o adolescente feito à frente do SBT Brasil dizendo, no artigo, que "embora não respalde a violência, a legislação brasileira autoriza qualquer cidadão a prender outro em flagrante delito". Ela ainda chamava o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) de "Estatuto da Impunidade", argumentando que o regramento "está sempre a serviço do menor infrator".

No texto, a jornalista ainda criticava "os direitos humanos e suas legiões de ONGs piedosas", dizendo que, no país, "o bandido é sempre vítima da sociedade e nós não passamos de cruéis algozes desses infelizes".

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