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Governo pagou R$ 361 mil por postagens sobre 'cuidado precoce' para a covid

Ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten fala à CPI da Covid, em maio - Agência Senado
Ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten fala à CPI da Covid, em maio Imagem: Agência Senado

Rafael Neves

Do UOL, em Brasília

06/08/2021 07h00Atualizada em 06/08/2021 11h23

No final do ano passado, o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) pagou R$ 361 mil para divulgar no Instagram o chamado "cuidado precoce" contra a covid-19. A contratação foi registrada em documentos entregues à CPI da Covid, no último dia 30, pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) do governo federal, em resposta a um pedido do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Segundo uma planilha enviada pela secretaria, o dinheiro serviu para contratar 28 publicações nas contas de quatro influenciadores. Cada um deles deveria, de acordo com o documento, fazer uma postagem fixa —que permanece no perfil do usuário— e seis stories —conteúdos que desaparecem em 24 horas. A despesa foi autorizada em 24 de dezembro de 2020.

Dos R$ 361 mil gastos na campanha, R$ 23 mil (6,37% do total) foram usados para pagar cachês aos quatro influenciadores contratados: Flávia Viana (R$ 11,5 mil), João Zoli (R$ 6.000), Jessika Taynara (R$ 3.000) e Pam Puertas (R$ 2.500). Todo o restante, conforme a planilha, foi destinado à empresa FKD Comunicação, responsável pela campanha. Até o final de julho, segundo dados da Secom, R$ 352,6 mil já haviam sido desembolsados.

A FKD foi contratada pela agência Calia, uma das três empresas que fazem a publicidade do Planalto e subcontratam terceiros, conforme a demanda. A Calia gerenciou todos os contratos da "campanha cuidado precoce", iniciada em outubro do ano passado e que custou R$ 19,34 milhões, segundo informou a Secom à CPI.

Em nota enviada ao UOL, a FKD afirmou que o valor recebido pelas publicações no Instagram "refere-se ao conjunto de ações desenvolvidas pela empresa, que incluem: pesquisa, análise, planejamento de campanha, produção e pagamento de impostos".

A Calia, por sua vez, disse à reportagem que o valor cobre uma "grande amplitude de serviços". Para esse tipo de trabalho, segundo a agência, o fornecedor (no caso a FKD) é responsável por mapear os influenciadores, checar seu alcance e sua adequação ao público-alvo, o que é feito por meio de "um grande trabalho de curadoria para a seleção dos perfis mais adequados".

A agência afirma, ainda, que a FKD é responsável por planejar e dirigir os conteúdos produzidos pelos influenciadores, além de monitorar as postagens depois da publicação.

O UOL também pediu esclarecimentos à Secom desde a última terça (3), mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem. Se for enviada, a resposta será incluída.

Cachês

Em documento enviado à CPI, a Secom afirma que houve quatro grandes campanhas de publicidade ligadas à covid. Os trabalhos foram feitos com verba do Ministério da Saúde, que delegou a execução à Secom por meio de TEDs (Termos de Execução Descentralizada).

A mais antiga, de março e abril de 2020, produziu peças publicitárias sobre modos de prevenção contra a covid, principais sintomas e medidas a serem adotadas em caso de contágio. Já a mais recente, iniciada em junho de 2021, é destinada a divulgar a vacinação contra a doença e está prevista para ser veiculada até setembro. Juntas, as quatro campanhas custaram R$ 65 milhões, segundo os dados da Secom.

Uma destas campanhas, chamada de "cuidado precoce", custou R$ 19,34 milhões. A iniciativa buscava, de acordo com a Secom, divulgar "que o atendimento precoce de pacientes com a covid-19 pode salvar vidas, fazendo chegar à população a mensagem de que, aos primeiros sintomas, deve-se procurar atendimento médico".

Não se tratava de promover remédios sem eficácia comprovada contra a doença, segundo o governo. De todos os posts de influenciadores contratados pela Secom, o único que continua no ar é o da apresentadora Flávia Viana, ex-participante do Big Brohter Brasil. Na publicação, do dia 14 de janeiro, ela aconselha que o seguidor "solicite atendimento precoce" ao sentir sintomas da doença, mas não cita qualquer medicamento.

Quando o caso veio à tona, no final de março, a influenciadora publicou um vídeo afirmando que buscou apenas alertar para os cuidados com a Covid. "Eu não acredito em tratamento precoce dessa doença tão louca que está espalhada por aí", declarou Viana na ocasião.

Em junho, o ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten, demitido três meses antes, chegou a ser intimado para explicar o uso de dinheiro público na promoção do cuidado precoce. Uma ação civil pública sobre o assunto corre na Justiça Federal de São Paulo.

Até abril, o governo havia gasto na campanha de vacinação apenas 6,2% do que havia investido na de cuidado precoce, como mostrou o UOL em junho. Essa foi a única das quatro campanhas a envolver cachês.

Além dos R$ 361 mil usados para contratar as publicações no Instagram, outros R$ 302 mil foram gastos para contratar 17 radialistas de todas as regiões do Brasil. A cada um deles, segundo a planilha enviada pela Secom à CPI, cabia produzir até nove merchandisings de rádio e dois publiposts (postagens patrocinadas nas redes sociais).

No âmbito dessa mesma campanha, o governo ainda pagou cachês em separado a seis apresentadores para fazerem "ações de merchandising" sobre cuidado precoce em seus programas de TV. Foram contratados os jornalistas Cesar Filho, da Record (R$ 93,6 mil), Sikêra Jr, da Rede TV! (R$ 24 mil), Marcelo Carvalho, da Rede TV! (R$ 10 mil), Milton Neves, da Band (R$ 7.200), Otávio Mesquita, do SBT (R$ 6.300) e Benjamin Back, do SBT (R$ 5.600).

Conteúdo apagado

Firmada no final de dezembro do ano passado, a contratação da FKD previa que os conteúdos de Instagram fossem publicados nos perfis dos influenciadores a partir de janeiro deste ano. Quase todos, porém, aparentemente foram apagados: o UOL analisou as contas dos quatro contratados e constatou que apenas uma publicação, da ex-BBB Flávia Viana, continuava no ar.

Já nos perfis de João Zoli, Jessika Taynara e Pam Puertas não foi encontrada nenhuma publicação ligada à covid. No final de março, Puertas publicou uma nota explicando por que participou da campanha, mas o conteúdo original não aparece em seu perfil. O UOL procurou os três influenciadores por email, mas nenhum deles respondeu até a publicação da reportagem.

A FKD, por sua vez, afirmou que as publicações devem ser mantidas na fanpage do influenciador durante a vigência da campanha, que no caso era de 60 dias. "A reciclagem do feed, apagando ações publicitárias antigas, é prática comum entre os influencers, inclusive, no mercado privado", completou a empresa.

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