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Pivô do mensalão, Bob Jefferson fritou o aliado PT e virou pilar da direita

O presidente do PTB, Roberto Jefferson, foi preso após determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes - Arte UOL/Foto Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo
O presidente do PTB, Roberto Jefferson, foi preso após determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes Imagem: Arte UOL/Foto Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

14/08/2021 04h00Atualizada em 16/08/2021 13h32

O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) se tornou mais conhecido ao denunciar o esquema do chamado Mensalão do PT, em junho de 2005, e agora domina o noticiário nacional devido à sua prisão determinada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, por suspeita de envolvimento com uma milícia digital contra a democracia.

Presidente nacional do PTB, Jefferson, 68, tem demonstrado um posicionamento político mais radical de direita nos últimos anos, especialmente ao longo do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Nas redes sociais, se notabilizou por postar vídeos segurando armas, criticando o Supremo e atacando adversários políticos, inclusive usando um tom machista.

Roberto Jefferson ao lado do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos - Reprodução - Reprodução
Roberto Jefferson ao lado do atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos
Imagem: Reprodução

A pauta do governo Bolsonaro agora é a dele também. Bob Jeff, como é conhecido em Brasília, virou ferrenho defensor do voto impresso, da facilitação ao acesso às armas e da chamada "família cristã", por exemplo. Um dos principais objetivos do ex-deputado federal é atrair Bolsonaro para a sigla, até o momento, sem sucesso.

No entanto, nem sempre essas foram suas principais preocupações. Pelo contrário. Como integrante do centrão, Jefferson é conhecido por se aliar a quem está no poder, sem se importar tanto com o espectro político do mandatário no Palácio do Planalto.

Início com programa sensacionalista

Formado em direito pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, Jefferson conseguiu certa notoriedade ao ser um dos integrantes do programa sensacionalista "O Povo na TV", do atual SBT, no início da década de 1980.

Roberto Jefferson no programa "O Povo na TV", no início da década de 1980 - Reprodução - Reprodução
Roberto Jefferson (segundo a partir da direita) no programa "O Povo na TV", no início da década de 1980
Imagem: Reprodução

Também faziam parte do elenco nomes como Christina Rocha e Sérgio Mallandro. Segundo descrição do SBT, "a atração exibia entrevistas com temas polêmicos e em alta", além de "fofocas do meio artístico, quadros de defesa do consumidor e crimes". Um bebê de nove meses com tumor nos olhos chegou a morrer nos estúdios do programa, em 1982.

Com a fama alcançada por meio do "O Povo na TV", Jefferson estreou como deputado federal em 1983. Acabou ficando por mais de duas décadas na Câmara dos Deputados, de onde só sairia cassado pelos colegas.

Os nervos à flor da pele, quando lhe convém, já se sobressaltavam desde aquela época. Em novembro de 1985, o então deputado federal derrubou a machadadas um painel na Cinelândia, no centro do Rio, após não gostar de ver seu nome em lista de parlamentares ausentes em votação de projeto que concedia anistia a civis e militares cassados pelo regime militar. O registro consta no verbete sobre Jefferson no "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro", da Fundação Getúlio Vargas.

Roberto Castro/Estadão Conteúdo - Roberto Castro/Estadão Conteúdo - Roberto Castro/Estadão Conteúdo
30.jan.1997 - O então deputado Roberto Jefferson durante entrevista
Imagem: Roberto Castro/Estadão Conteúdo

Defensor de Collor, nome em CPIs e mensalão

Na Câmara dos Deputados, Roberto Jefferson fez parte da tropa de choque que lutava contra o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello —hoje senador de Alagoas pelo Pros— em dezembro de 1992.

Jefferson dizia que Collor, primeiro presidente eleito por eleições diretas após a ditadura, era perseguido pelos derrotados. Em discurso em setembro de 1992, reclamou que os deputados defensores do presidente estavam sendo chamados de "esquadrão da morte collorido".

1º.fev.2007 - Fernando Collor e Roberto Jefferson se cumprimentam em sessão do Senado  - Lula Marques/Folhapress - Lula Marques/Folhapress
1º.fev.2007 - Fernando Collor e Roberto Jefferson se cumprimentam em sessão do Senado
Imagem: Lula Marques/Folhapress

O petebista foi um dos 38 deputados a votar contra a abertura do processo de impeachment de Collor. No final do ano, Collor renunciou horas antes de ser cassado oficialmente.

No ano seguinte, o nome de Jefferson foi citado na CPI do Orçamento por possível envolvimento em corrupção em verbas orçamentárias. No final das contas, o ex-deputado ficou livre de punição.

O PTB chegou a compor a base de apoio a Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando este era presidente. Mas, na corrida presidencial de 2002, Roberto Jefferson apoiou Ciro Gomes (então no PPS) no 1º turno para, no 2º turno, apoiar Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Lula derrotou o tucano José Serra (PSDB) e sagrou-se vencedor.

Três anos depois, Jefferson se viu em meio ao chamado "escândalo dos Correios". A série de suspeitas de irregularidades surgiu a partir da revelação de um vídeo mostrando um funcionário negociando propina com uma pessoa que se passava por interessada em uma licitação e mencionando o então deputado federal Roberto Jefferson.

A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) dos Correios foi criada no primeiro semestre de 2005 para apurar as denúncias. Numa das sessões, o petebista apareceu com um hematoma roxo ao redor do olho esquerdo, também inchado. Ele atribuiu a situação a um acidente doméstico.

Acusado de estar envolvido em corrupção na estatal e se vendo abandonado pelo governo, Jefferson denunciou o esquema do Mensalão do PT, em reportagem publicada em 6 de junho daquele ano no jornal Folha de S.Paulo.

Segundo Jefferson, o PT teria repassado dinheiro de forma ilegal a políticos e partidos como cooptação para que votassem de acordo com a vontade do governo no Congresso Nacional. Os repasses do mensalão teriam sido realizados em 2003 e 2004 pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Na entrevista à Folha, Jefferson disse que avisou ministros do governo Lula sobre o "toma lá, dá cá", mas disse acreditar que a prática só teria parado após conversar com o então presidente da República. Ainda que tenha buscado inocentar Lula, a ação significou o fim da aliança com o PT.

14.out.2004 - Roberto Jefferson com o então presidente Lula e ministro José Dirceu, à época, em jantar oferecido pelo petebista em Brasília - Alan Marques/Folhapress - Alan Marques/Folhapress
14.out.2004 - Roberto Jefferson com o então presidente Lula e seu ministro José Dirceu em jantar oferecido pelo petebista em Brasília
Imagem: Alan Marques/Folhapress

Figuras importantes do PT, como José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil, e José Genoino, então presidente do partido, foram condenadas. Jefferson negou que a cúpula do PTB recebesse mesadas do mensalão. Mesmo assim, confessou ter recebido R$ 4 milhões do PT para que o PTB pagasse gastos de campanha.

Ele próprio não foi poupado pela Justiça e também foi condenado e preso.

A pena foi de sete anos e 14 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Começou a cumprir a pena em fevereiro de 2014, inicialmente em regime semiaberto.

Em 2016, o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso —a quem hoje ataca— perdoou a pena de Jefferson junto a outros cinco condenados no mensalão. A ação teve como base um decreto de indulto natalino assinado pela então presidente Dilma Rousseff (PT).

Jefferson considera Lula e Dilma seus inimigos políticos. Ao contrário de 2002, o PTB apoiou Serra contra Dilma nas eleições de 2010. A petista saiu vencedora.

A cassação

Jefferson foi cassado pelos colegas quando estava no sexto mandato consecutivo na Câmara, em meio ao mensalão, em setembro de 2005. Foram 313 votos a favor da perda do mandato e 156 contra. Oficialmente, a justificativa foi ele ter cometido quebra de decoro parlamentar ao acusar colegas de estarem envolvidos no mensalão, supostamente sem provas.

Sem direitos políticos por oito anos, Jefferson não teve mais cargos com mandatos em Brasília, mas isso não o impediu de se aproximar de Bolsonaro e de apoiar a filha Cristhiane Brasil (PTB-RJ). Ela foi deputada federal entre 2015 e 2019 e chegou a assumir a presidência do PTB no lugar do pai quando ele foi preso.

Roberto Jefferson emocionado ao lado da filha Cristhiane Brasil ao voltar à Câmara 11 anos após ter o mandato cassado por sua participação no escândalo do Mensalão - André Dusek/Estadão Conteúdo - André Dusek/Estadão Conteúdo
Roberto Jefferson emocionado ao lado da filha Cristhiane Brasil ao voltar à Câmara 11 anos após ter o mandato cassado por sua participação no escândalo do mensalão
Imagem: André Dusek/Estadão Conteúdo

Na campanha de 2018, o PTB apoiou o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno e só aderiu a Jair Bolsonaro depois, quando a disputa havia ficado apenas contra Fernando Haddad (PT).

Com a vitória de Bolsonaro, Jefferson passou a se alinhar ao presidente de forma mais radical, de olho em retornar ao poder e na tentativa de garantir a sobrevivência do PTB, hoje com dez deputados federais e nenhum senador.

Filha quase ministra após episódio da lancha

A trajetória de Cristhiane foi marcada por um episódio em que se defendeu de ações trabalhistas a bordo de uma lancha ao lado de quatro homens com trajes de praia, em janeiro de 2018. Uma música eletrônica pode ser ouvida ao fundo no vídeo da cena.

Na época deputada, a filha de Jefferson tinha sido indicada pelo então presidente Michel Temer (MDB) para comandar o Ministério do Trabalho, tradicionalmente entregue ao comando do PTB.

Cristhiane chegou a ter a nomeação publicada no Diário Oficial da União, mas a posse como ministra foi barrada pela Justiça. Ela acabou nunca assumindo a pasta de verdade.

A então deputada federal Cristiane Brasil ao se defender de ações trabalhistas em lancha acompanhada de amigos - Reprodução - Reprodução
A então deputada federal Cristiane Brasil ao se defender de ações trabalhistas em lancha com amigos
Imagem: Reprodução

Nesta sexta (13), Cristhiane pressionou o presidente Jair Bolsonaro após a prisão do pai. Na visão dela, com o avanço das detenções da ala conservadora da política, o próximo poderá ser o líder da República.

Além da prisão preventiva de Roberto Jefferson na cidade de Comendador Levy Gasparian (RJ), o ministro Alexandre de Moraes determinou a busca e apreensão de armas e munições de propriedade do ex-deputado federal, "bem como de computadores, 'tablets', celulares e outros dispositivos eletrônicos".

Neste ano, Jefferson foi condenado pelo a indenizar Moraes e a mulher, a advogada Viviane de Moraes, em R$ 50 mil e R$ 10 mil, respectivamente, por chamar o magistrado de "Xandão do PCC", em referência à facção criminosa e sugerir que praticavam advocacia administrativa e corrupção.

Hobbies e câncer

Nas horas vagas, Jefferson gosta de cantar —tendo soltado a voz com a música "Nervos de Aço" no extinto "Programa do ", da TV Globo— e de andar de motocicleta.

Roberto Jefferson ao chegar para reunião do PTB em que foi oficializado seu retorno à presidência do partido, em abril de 2016 - Ricardo Marchesan/UOL - Ricardo Marchesan/UOL
Roberto Jefferson ao chegar para reunião do PTB em que foi oficializado seu retorno à presidência do partido, em abril de 2016
Imagem: Ricardo Marchesan/UOL

Ele lançou um livro, em 2017, chamado "Nervos de Aço: Um Retrato da Política e dos Políticos no Brasil", sobre o mensalão, entre outros assuntos.

Jefferson foi vítima de um câncer de pâncreas em 2012, um dos fatores que o afastaram da vida pública por um tempo, e se recuperou. Com histórico de obesidade, também já passou por cirurgia bariátrica.

Atualmente, Jefferson ganha, ao menos, R$ 46 mil por mês com uma espécie de salário do PTB e a aposentadoria da Câmara dos Deputados.

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