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Conteúdo publicado há
1 mês

Bolsonaro ligou a contagem regressiva do golpe, diz especialista

Colaboração para o UOL, no Rio

13/09/2021 12h41Atualizada em 13/09/2021 19h00

Especialistas ouvidos pelo UOL Debate de hoje foram unânimes ao dizer que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atua na Presidência da República com intenções golpistas. De acordo com eles, as manifestações do último 7 de setembro representam um marco na tentativa do presidente de acabar com a democracia no país.

"Vamos ter a clareza de que é uma maratona, não é corrida de 100 metros rasos. O que o Bolsonaro fez no 7 de setembro foi ligar a contagem regressiva do golpe, que ele tem de dar até o final do próximo ano", afirma Marcos Nobre, filósofo e cientista social, professor da Unicamp.

Para o filósofo, Bolsonaro não vê a eleição do ano que vem como centro do seu projeto de poder porque ele não é um democrata. O professor contrapõe a estratégia do presidente com a atuação de grupos progressistas que, para ele, não estão organizados.

A gente não pode contar que alguém que não é um democrata faça raciocínios meramente eleitorais. Do outro lado, o campo democrático só faz raciocínios eleitorais e, por isso, está perdendo o jogo. O campo democrático está jogando amarelinha, enquanto Bolsonaro está construindo um octógono de MMA. Estamos jogando dois jogos diferentes
Marcos Nobre

A historiadora e antropóloga Lilia Schwartz vai além ao dizer que Bolsonaro "está dando golpe todo dia". Para ela, o desmonte de instituições brasileiras e de várias políticas públicas construídas em governos anteriores fazem parte do projeto de poder a longo prazo do presidente.

"Desde que ele entrou, ele continua fazendo palanque. Ele já está aparelhando as instituições e já trabalha com um grupo que forma as suas próprias impressões", afirma a historiadora.

Caos

A cientista política e professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Daniela Campello é enfática ao afirmar que o golpe está nas ações de Bolsonaro desde seu primeiro dia de governo.

Tem uma série de mudanças de comportamentos que estão acontecendo por causa das ameaças, veladas ou não, de Bolsonaro, que para mim já configura golpe, no sentido de que mudaram a dinâmica e a qualidade da democracia que tínhamos pré-Bolsonaro
Daniela Campello

A cientista política diz que o presidente tenta a todo o momento dar um golpe no país. Mas ela não acredita no sucesso dele.

"Não existe o dia 2 do golpe. Ele não consegue criar um governo autoritário estável, minimamente estável. Mas ele tem a capacidade de criar caos por bastante tempo, e esse é o pavor", afirma Campello.

Já o professor Marcos Nobre não vê a concretização de um golpe dado por Bolsonaro, apesar de acreditar que ele trabalhe para fazê-lo. Para ele, as Forças Armadas não apoiariam um golpe que tem a adesão de apenas 25% da população (base estimada de apoiadores de Bolsonaro, segundo pesquisas recentes).

Se 75% estiverem organizadamente rejeitando o governo, rejeitando o golpe, não tem golpe que possa ser bem-sucedido. Uma base de 25% organizada na extrema-direita dá um golpe se os outros 75% não estiverem organizados
Marcos Nobre

Eleições 2022

Sobre as eleições do ano que vem, os três especialistas têm a mesma opinião sobre a chamada terceira via. Para eles, há uma profusão de possíveis candidatos como alternativas a Bolsonaro e a Lula, mas sem uma identidade única.

"Não existe coordenação na terceira via. Existe uma série de candidatos que não se falam. Mesmo que houvesse uma intenção de eleitores do Bolsonaro de migrar para alguém que vença Lula, o fato de ter uma oferta grande de nomes dificulta a terceira via", afirma Daniela Campello.

Lilia Schwartz também vê como ponto negativo a existência de vários candidatos da terceira via, que para ela representa "muito cacique para pouco índio". Ela diz que o ex-presidente Lula fará frente ao atual presidente.

Não teremos uma frente sem Lula, assim como o PT não terá uma frente possível se não contar com a assim chamada terceira via
Lilia Schwartz

Marcos Nobre, no entanto, diz que nosso atual problema "não é só eleitoral". O filósofo afirma que as eleições de 2022 serão o oposto da de 2018.

"Em 2018 não tinha um presidente no exercício da função candidato à reeleição. Isso organiza a eleição sempre. Por isso, em 2018, era a eleição para um outsider. Agora, é ao contrário, você tem um incumbente à reeleição, esse incumbente tem uma base social muito fiel e ele organiza a eleição. Ou seja, todo mundo tem que ser contra ele", diz Marcos.

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