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Cenário aberto a um ano da eleição cria quadro difícil para Bolsonaro

Bolsonaro aprece em 2º lugar nas pesquisas; político ainda está sem partido para a disputa - GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO
Bolsonaro aprece em 2º lugar nas pesquisas; político ainda está sem partido para a disputa Imagem: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

02/10/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas, atrás de Lula
  • Presidente é o primeiro em mandato que não lidera levantamento para reeleição
  • Para analistas, crises do governo e comportamento de Bolsonaro dificultam reversão do quadro

A um ano da próxima eleição presidencial —que terá o primeiro turno em 2 de outubro de 2022—, o cenário apresenta mais incertezas do que confirmações para o pleito. O mundo político ainda calcula os efeitos da fusão entre Democratas e PSL, aguarda as prévias no PSDB, e observa o surgimento de federações partidárias para saber quem deverá entrar na disputa com Jair Bolsonaro (sem partido), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT), os únicos hoje praticamente certos na corrida.

No lado de Bolsonaro, porém, os sinais apresentados pelas pesquisas de opinião hoje são preocupantes para quem busca uma campanha pela reeleição. Ele é o primeiro presidente no cargo que não lidera as pesquisas faltando um ano da disputa, algo que não aconteceu nas tentativas —bem-sucedidas— de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1998, e dos petistas Lula, em 2006, e Dilma Rousseff, em 2014.

Segundo lugar

Nas últimas pesquisas, Bolsonaro tem aparecido na segunda colocação, atrás de Lula —que, pelos números obtidos, poderia até vencer a corrida no primeiro turno.

"Essa é uma grande novidade e mostra o descontentamento do eleitor com o que foi esse mandato", avalia o cientista político Glauco Peres, professor da USP (Universidade de São Paulo).

[O eleitorado] busca alternativas, um outro nome, porque o Bolsonaro não conseguiu ocupar um espaço que seria relativamente 'fácil' para um presidente em mandato ocupar a esta altura do campeonato"
Glauco Peres, cientista político da USP

Coordenadora da pós-graduação de ciência política da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Maria do Socorro Sousa Braga diz que as pesquisas de hoje mostram Bolsonaro com dificuldade para ultrapassar a marca de um terço do eleitorado.

"Aparentemente, ele terá dificuldades para aumentar [a base] e liderar essa corrida presidencial. E, se tiver de fato uma terceira via, a tendência é retrair", afirma ela, citando o eleitor volátil, que ainda não tem convicção sobre o voto.

Lula - Amanda Perobelli/Reuters e Marcos Corrêa/Presidência da República - Amanda Perobelli/Reuters e Marcos Corrêa/Presidência da República
Lula e Bolsonaro têm aparecido na liderança das pesquisas, mas com petista já tendo possibilidade de vencer no primeiro turno
Imagem: Amanda Perobelli/Reuters e Marcos Corrêa/Presidência da República

Governo de crises

O atual presidente tem convivido com crises em seu governo. Neste momento, há desde problemas sanitários, com a pandemia da covid-19, que já matou quase de 600 mil pessoas no Brasil, a ataques à democracia, com ameaças de Bolsonaro e seus apoiadores ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao processo eleitoral. Além disso, seu governo enfrenta crises econômica, hídrica e elétrica.

"A situação do Bolsonaro é dificílima porque é um conjunto de crises muito difíceis de lidar", diz o professor de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Cristiano Rodrigues, salientando que a pandemia, que já era complicada por si só, aumentou "em gravidade graças à atuação do governo".

Em 2005, Lula liderava a pesquisa Datafolha a um ano da eleição mesmo em meio ao mensalão. Oito anos depois, em 2013, Dilma estava em primeiro lugar em um momento que manifestações de rua contra o governo federal começavam a se tornar constantes no país. Em 1997, FHC lidava com crise econômica.

Peres pontua que "é de se imaginar que um presidente pode perder a reeleição". "Mas, a um ano da eleição, os nomes alternativos sofrem do fato de não ter o recall. O dele [Bolsonaro] é muito mais fácil. Está na mídia o tempo todo", diz. "Isso cria um cenário novo para todo o contexto político. Volta a ser uma eleição mais aberta do que se imaginava."

Cenário desorganizado

Se as pesquisas de hoje podem não refletir o futuro, elas servem como uma fotografia para orientar os partidos em suas articulações. "Ainda faltam candidaturas ali. Só tem nomes que estão sendo ventilados", diz Braga. "Este ano é o das articulações da elite política. Não é tanto o eleitorado."

Peres também pontua que, neste momento, ainda estamos em "um cenário em que o sistema partidário está completamente desorganizado". "A gente tende a ter, de novo, mais candidatos arriscando a sorte na eleição do que seria recomendável, como candidato sem chance concorrendo."

Por enquanto, ao menos 11 nomes têm se apresentado para a disputa. E o próprio Bolsonaro ainda precisa entrar em um partido para poder participar da disputa.

Para Rodrigues, porém, "politicamente, Bolsonaro não agrega". "Ele vai destruindo", afirma, lembrando que o presidente deixou o PSL, abalando o partido, além de ter perdido aliados ao longo dos últimos anos. "Bolsonaro tem dificuldades de estrutura partidária para fazer uma candidatura viável mesmo com as condições que tem [estando no cargo]."

Mais do lado de Bolsonaro

Hoje, as pesquisas mostram uma polarização mais forte entre Bolsonaro e Lula. No campo da esquerda, o petista não deve ganhar adversários que lhe tirem votos. O PSOL não deve ter candidatura pela primeira vez desde 2006, e o PCdoB caminha para seguir como aliado. Já mais ao centro e à direita, devem surgir outros nomes ao longo do próximos meses, situação que refletiria na votação do atual presidente.

"Bolsonaro, por exemplo, tinha que ocupar o espaço da direita. E a gente vai ter, na verdade, mais candidatos nesse campo", diz Peres. "É capaz de a esquerda ser mais fechada em torno do Lula do que a direita em torno dele."

Para o professor da USP, os sinais de hoje "não são de reversão" para o cenário de Bolsonaro. "Irreversível, não é", diz. "A chance de reeleição de um candidato tem muito a ver com o desempenho econômico do ano anterior à eleição."

Rodrigues complementa: "A degradação econômica está sendo muito rápida". "E é uma crise induzida, em grande parte, pela própria ineficácia do governo se o considerarmos o cenário internacional, que tem sido de retomada."

Além da questão econômica, Braga avalia que, conforme Bolsonaro for se colocando em mais situações que dividem a sociedade, diminui a capacidade do presidente em ampliar sua votação. "São elementos que contribuem para tirar voto dele", observa, salientando o peso de uma terceira via nesse cenário.

Vai ter "terceira via"?

Para o presidente do PDT, Carlos Lupi, a polarização entre Lula e Bolsonaro é artificial. "Quando você começa a ver com profundidade as pesquisas, quase metade do eleitorado não gostaria de votar nem em um nem em outro. Olha que campo fértil tem." Segundo o último Datafolha, 59% dos eleitores não votariam em Bolsonaro — 38% dizem que não escolheriam Lula.

Presidente do PV, José Luiz Penna também acredita que a terceira via pode quebrar a polarização. "Acho que precisa ter paciência. Até março, quadro vai estar declarado."

Já o secretário nacional do PSC, deputado federal Gilberto Nascimento (SP), diz que não vê "uma terceira via surgindo facilmente". "Para isso, seria necessária uma grande coalização entre grupos distintos, que já estão tentando fazer seus próprios candidatos. Será bem difícil romper a configuração que aí está."

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