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CPI: Pai de vítima da covid critica deboches e diz que dor não é 'mimimi'

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

18/10/2021 14h41Atualizada em 18/10/2021 17h08

Em depoimento hoje na CPI da Covid, Márcio Antônio do Nascimento Silva, pai de Hugo do Nascimento Silva, que morreu aos 25 anos, em decorrência da covid-19, criticou deboches de políticos e outras pessoas diante da doença e afirmou que a dor diante da morte do filho não é um "mimimi".

Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou ser preciso "enfrentar os nossos problemas" ao criticar medidas de restrição social e disse: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"

A declaração de Bolsonaro aconteceu em meio à vacinação da população a passos lentos e a um dos piores períodos da crise sanitária vivida pelo país.

O taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva recoloca cruzes na areia de Copacabana depois que um homem as retirou - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
O taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva recoloca cruzes na areia de Copacabana depois que um homem as retirou
Imagem: Reprodução/Twitter

A Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado ouve hoje histórias de vítimas e familiares de vítimas da covid-19.

Márcio é taxista no Rio de Janeiro e ficou conhecido na cidade depois de protagonizar um gesto contra o desrespeito de pessoas que debochavam de um ato em memória de vítimas da covid, na praia de Copacabana, em junho do ano passado.

Na ocasião, a ONG Rio de Paz havia fincado na areia cem cruzes em homenagem aos que morreram em virtude da doença. Algumas pessoas começaram a invadir o espaço delimitado pela homenagem para derrubar as cruzes. Silva passava pelo local naquele momento, pouco depois de perder o filho. O carioca foi então à areia e recolocou os objetos no lugar, mesmo sendo hostilizado pelos presentes.

"O sentimento que eu fico não é só pela dor da morte. É por tudo o que veio depois. Cada deboche, cada sorriso, cada ironia, sabe? No meu coração foi muito difícil não conseguir entender isso. Por isso, a CPI foi tão importante para mim", declarou hoje.

Acho que nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade ao país, porque não é questão política, se de partido ou de outro. Estamos falando de vidas"
Márcio Antônio do Nascimento Silva, que perdeu o filho para a covid-19

Para ele, a CPI foi fundamental para que eventuais omissões e erros fossem apurados e vidas fossem salvas. Ele acrescentou que quem fala que a CPI é um circo "não se importa com as pessoas que morreram".

O pai de Hugo questionou o motivo pelo qual tantas pessoas se opõem às máscaras e às vacinas, e disse que "daria tudo" para que seu filho tivesse tido a chance de ser vacinado. Quando ele se infectou e morreu, ainda não havia vacina disponível, informou.

Não dá pra ver um ministro da Saúde dando risinho de deboche"
Márcio Antônio do Nascimento Silva, que perdeu o filho para a covid-19

O taxista ainda disse que, no momento em que foi reconhecer o filho, ele estava dentro de um saco. O procedimento tem sido usual no caso de vítimas contra a covid-19 por receio de contaminação de outras pessoas e de ambientes com o coronavírus. Velórios costumam ser mais restritos em termos de convidados e cerimônias.

"Não pude dar um abraço no meu filho, não pude dar um último beijo. Cheguei a levar uma roupa para vesti-lo. Não consegui fazer nenhum dos atos simbólicos. Tive que ficar parado 3 ou 4 horas na porta do cemitério olhando um carro sabendo que meu filho estava ali dentro para ser enterrado. Então, minha dor não é mimimi. Não é. Dói pra caramba mesmo. Dói, entendeu? Não aceito que ninguém aceite isso como normal. Não é normal. Não é mimimi. Não é minha [dor] só não. São de todas [as pessoas] que perderam [alguém]."

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.