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Política

Apoio a Bolsonaro em 2018 vira alvo em debate de pré-candidatos do PSDB

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

19/10/2021 14h33Atualizada em 19/10/2021 19h23

O primeiro debate entre pré-candidatos do PSDB à Presidência, realizado hoje, teve como tema mais frequente o apoio (ou não) dos tucanos a Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018. Entre cutucadas e acusações diretas, os tucanos competiram para mostrar quem menos se alinha ao atual presidente.

No encontro, em que era esperada tensão entre os governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP), quem criou os principais momentos de fricção — e de alívio cômico — foi o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio (AM) — em especial com o colega gaúcho.

O fantasma Bolsonaro

Em duas horas de debate, realizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico, no Rio, o principal assunto acabou sendo os antigos apoios de Doria e Leite a Bolsonaro nas eleições de 2018 e o atual alinhamento de parte do PSDB ao governo federal.

O assunto foi introduzido inicialmente por Virgílio. Em sua primeira pergunta a Leite, questionou se ele avalia que teria ganhado a eleição para o Palácio do Piratini em 2018 se não tivesse declarado voto em Bolsonaro, concluindo a pergunta com uma crítica: "Você deveria ter desprezado!"

Leite não focou sua resposta em Virgílio e aproveitou para fazer indiretas a Doria, sem citá-lo. "Apoio é pedir voto, é defender o voto em alguém, é fazer campanha junto. Eu me neguei a fazer isso, proibi que fizesse material de campanha conjuntamente. Fiz uma única declaração de voto", se defendeu.

Eu não abracei o candidato [Bolsonaro], não fui atrás dele para tirar foto, não associei minha campanha à dele"
Eduardo Leite (PSDB-RS)

Ele já havia suscitado o apoio de Doria a Bolsonaro no final de semana. Em visita a São Paulo, ele afirmou esperar que "o BolsoDoria não esteja voltando", o que causou irritação no governador paulista.

Doria esperou, mas respondeu — também indiretamente, como tem feito. Se não há como negar o antigo entusiasmo com o BolsoDoria, o governador tem lembrado que a bancada paulista do PSDB votou contra o governo federal nos projetos mais polêmicos.

"Sou contrário ao voto impresso. Aliado sem nome não é aliado, é adversário. Os oito deputados federais por São Paulo votaram contra o voto impresso", disse Doria, ao comentar reclamações de apoiadores sobre o aplicativo tucano.

Ele faz referência ao apoio dos dois deputados do PSDB à PEC do Voto Impresso, amplamente apoiada por Bolsonaro. A bancada gaúcha também é a principal voz contra o partido ir para a oposição ao governo — isso tem sido usado por Doria em entrevistas.

Em relação ao presidente Bolsonaro, eu errei, como o Eduardo [Leite] errou, como outras pessoas erraram. Aliás, 55% da população brasileira cometeu esse equívoco"
João Doria (PSDB-SP)

Apesar de o embate estar esquentando mais entre Doria e Leite, favoritos na disputa interna no PSDB, foi Virgílio quem atacou o gaúcho no debate. Incomodado por não ser considerado uma candidatura viável como as outras ("sou uma ave solitária"), justificou que debate não é para ficar chamando os outros de "excelentíssimo".

Virgílio fez diversas referências a uma suposta falta de experiência de Leite. Em indireta, criticou "essa coisa indecorosa de termos bancada bolsonarista no PSDB" e disse que o presidente do partido, Bruno Araújo, presente na plateia, oferecesse a porta da rua aos apoiadores.

"Não há hipótese de apoiar um governo Bolsonaro, uma candidatura do Bolsonaro", se defendeu o gaúcho. "A gente precisa evitar Bolsonaro tanto pelo ponto de vista democrático quanto pelo ponto de vista econômico."

Ao ser questionado por um jornalista sobre o apoio do deputado Aécio Neves (PSDB-MG), que, nos bastidores, não vê com maus olhos a desistência de uma candidatura tucana, Leite argumentou que todo apoio é válido.

"[Governei] sem nunca ter qualquer ataque de corrupção, sem dúvida de conduta, cumprindo meus mandatos na integralidade, sem trair aliados", disse Leite.

Em São Paulo, Doria é chamado de traidor pelo grupo do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que hoje trabalha por Leite, e sofre críticas por parte do eleitorado por não ter cumprido a promessa de terminar seu mandato à frente da Prefeitura de São Paulo, em 2018.

Doria mostrou-se mais ameno no debate. Ao final, tentou ressaltar a qualidade do diálogo e negou que sairia do partido se perdesse o pleito. Embora o Palácio dos Bandeirantes negue, interlocutores do tucano dizem que não sabem o que esperar do governador paulista em caso de derrota porque, até então, esta possibilidade não era debatida.

Votou em quem?

Virgílio provocou risadas na plateia ao confundir mais do esclarecer em quem votou nas eleições. Com o intuito de cobrar lealdade dos concorrentes ao PSDB por terem apoiado Bolsonaro em 2018, o ex-prefeito manauara, curiosamente, admitiu que não votou em Alckmin, candidato tucano, nem no primeiro turno em 2018.

Eu votei numa pessoa muito modesta, eu votei no Henrique Meirelles [MDB]. E, no segundo turno, eu votei no candidato do PT, prefeito de São Paulo [Fernando Haddad]"
Arthur Virgílio (PSDB-AM)

Em uma resposta seguinte, Virgílio misturou os votos e indicou ter votado em Marina Silva (Rede). "Quanto mais nós pudermos evoluir para a economia verde... E por isso eu não votei no Alckmin. Com muita clareza: votei na Marina, porque sou um ambientalista."

Ao final do debate, se emocionou e quase chegou às lágrimas, embora não tenha ficado claro o motivo.

Como serão as prévias

As prévias serão realizadas no dia 21 de novembro, com voto pelo aplicativo ou presencialmente, em Brasília, onde deverão estar os três candidatos e as principais lideranças do partido. Para este ano, o PSDB adotou pesos diferentes para os votos de acordo com o cargo ocupado, dividido em quatro grupos:

  • 25% para votos de governadores, vice-governadores, presidente e ex-presidentes do partido, deputados federais e senadores
  • 25% para prefeitos e vice-prefeitos
  • 25% para vereadores (12,5%) e deputados estaduais e distritais (12,5%)
  • 25% para filiados no geral, sem mandato

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