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Historiador diz que ministros do STM faziam piadas com vítimas de tortura

Carlos Fico, historiador da UFRJ, decidiu compartilhar material com Miriam Leitão após deboche de Eduardo Bolsonaro - Reprodução/Globonews
Carlos Fico, historiador da UFRJ, decidiu compartilhar material com Miriam Leitão após deboche de Eduardo Bolsonaro Imagem: Reprodução/Globonews

Do UOL, em São Paulo

18/04/2022 09h16

O historiador e pesquisador da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Carlos Fico, responsável por analisar os áudios de sessões do STM (Superior Tribunal Militar) de 1975 a 1985 em que ministros falam sobre tortura na ditadura militar afirmou, em entrevista ao jornal O Globo, que eles faziam "piadas" com vítimas das sevícias.

"Sobretudo em sessões secretas, esses ministros se sentiam muito confortáveis. Tem falas muito pesadas, grotescas, piadas com vítimas de tortura", contou Fico. As gravações compiladas por ele foram divulgadas pelo blog da jornalista Miriam Leitão, em O Globo, vítima de tortura durante a ditadura.

Esses ministros eram naturalmente inseridos nesse contexto autoritário, nessa ideologia extremista, segundo a qual era preciso reprimir e acabar com a subversão, com o que eles chamavam de subversivo. Em vários momentos, comentários muito inadequados eram feitos. Ouvia coisas dessa natureza, coisa como "morreu mesmo e está enterrado". Isso é uma frase que eu me lembro. Ou o ministro perguntando sobre o réu e falando de uma maneira muito depreciativa dessas pessoas e da circunstância de terem apanhado Carlos Fico, historiador da UFRJ, ao jornal O Globo

O historiador ressaltou que ainda está trabalhando na seleção dos áudios. São 10 mil horas de áudio. As gravações foram obtidas por meio de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) em 2015. A pesquisa original dele buscava entender como eram tomadas as decisões pelos militares no STM.

Segundo Fico, os áudios deixam claro que os ministros militares ficavam incomodados com relatos de tortura cometidos por oficiais das Forças Armadas, mas o mesmo não acontecia quando os casos eram praticados por policiais civis ou militares.

"Os ministros tinham consciência de que acontecia, e ficavam muito desconfortáveis quando a tortura era praticada por oficiais militares. Havia esse negacionismo. A ditadura tentou evitar a confirmação da existência de tortura o quanto pode, tanto que o maior número de proibições da censura é de casos de repressão."

O historiador explicou que decidiu compartilhar o material com Miriam Leitão após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) ter feito uma publicação em que debocha da tortura sofrida por ela. Grávida, Miriam foi colocada em uma sala com uma cobra, nas dependências do quartel do Exército em Vila Velha (ES). O filho do presidente Jair Bolsonaro (PL) escreveu em uma rede social: "Coitada da cobra". O comentário foi repudiado por autoridades, que pediram providências contra o parlamentar.

"É importante que o estado e que as autoridades se manifestem sempre em defesa dos direitos humanos, e é o que a gente não tem desde a eleição do atual presidente. É preciso sempre, permanentemente, defender os direitos humanos, coisa que o governo Bolsonaro não faz. Em todos os governos, mesmo os mais conservadores, como Collor e Sarney, mais ao centro como o FHC e à esquerda com Lula, todos defenderam os direitos humanos. Tem o ineditismo do governo Bolsonaro, que é péssimo para sociedade porque afloram esses sentimentos de negacionismo", destaca o historiador.

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