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Envolvidos na tragédia de Santa Maria (RS) podem ter transtorno similar ao de sobreviventes de guerra

Luis Gonçalves/AgenciaPreview
É comum nos primeiros dias após o trauma, pessoas terem pesadelos, ansiedade, insônia e outros sintomas Imagem: Luis Gonçalves/AgenciaPreview

Cármen Guaresemin

Do UOL, em São Paulo

2013-01-30T13:45:00

30/01/2013 13h45

Autoridades que vêm cuidando de sobreviventes, familiares das vítimas e profissionais envolvidos no resgate do incêndio de Santa Maria (RS) estão preocupadas com a possibilidade de que essas pessoas venham a desenvolver transtornos psicológicos similares aos que são vivenciados por sobreviventes de guerras.

A CULPA DOS QUE FICARAM

"Não deveria ter deixado meu filho sair". "Eu deveria ter morrido com eles ou no lugar deles". Essas frases podem estar passando pela cabeça de muitos sobreviventes ou familiares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS). O fenômeno conhecido como 'culpa do sobrevivente' é comum, segundo especialistas, mas merece cuidado, já que pode até levar ao suicídio.

O ministro da Saúde Alexandra Padilha declarou nesta terça-feira (29) que, entre os profissionais destacados para dar suporte aos envolvidos na tragédia, há um equipe da PUC do Rio Grande do Sul que atuou no suporte psiquiátrico de familiares das vítimas do ataque de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos.

O distúrbio que mais preocupa é o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Pessoas que sobrevivem a desastres ou sequestros, perdem um ente querido de forma abrupta e violenta, voltam de um campo de batalha ou trabalham salvando vidas são as mais propensas a sofrer deste mal. Antes chamado de neurose traumática de guerra, o transtorno foi renomeado nos anos 1980 por psiquiatras norte-americanos.

“Apesar do incêndio ter sido um evento com começo e fim rápidos, ao contrário de uma guerra, que pode durar anos, foi algo que fugiu totalmente à rotina. Além disso, a reação fisiológica do corpo ao acontecimento é a mesma", compara a psicóloga Ana Carolina Furquim, da Clínica Medicina do Comportamento, em São Paulo. Sobreviventes do incêndio viram amigos e parentes morrerem, assim como soldados que perdem colegas no campo de batalha.

O psiquiatra Luiz Carlos Coronel, diretor-secretário da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), concorda: “A guerra é muito parecida", diz. Segundo ele, estudos mostram que, especialmente em populações muito vulneráveis, é comum surgirem problemas mentais após um acontecimento dessa proporção. O psiquiatra frisa que, agora, é importante também cuidar dos outros: “O grande trabalho é prevenir estes transtornos no que chamamos de segunda onda, ou seja, os familiares e profissionais envolvidos, para que eles não adoeçam”.
 

SINTOMAS COMUNS DO TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Angústia
Ansiedade
Embotamento emocional
Esquivação
Evitar pessoas e lugares
Excitabilidade
Falta de apetite
Falta de concentração
Hipervigilância
Insônia
Lembranças involuntárias
Medo de sair à rua
Medo fóbico
Pesadelos
Resposta de sobressalto
Revivência
Sonhos de repetição

Pesadelos e insônia

O psicólogo e professor da PUC-RS Christian Haag Kristensen, que coordena a força-tarefa em Santa Maria, afirma que é comum nos primeiros dias que se seguem ao trauma as pessoas terem pesadelos, ansiedade, insônia e outros sintomas. “As pessoas precisam entender que isso vai passar, que é comum", afirma.

O psicólogo explica que a intervenção é baseada em etapas. "Neste primeiro momento estamos auxiliando e amparando emocionalmente as famílias e os sobreviventes”, conta.

Para Kristensen, a maioria dos envolvidos irá se recuperar ao longo dos meses. “Algumas pessoas podem ter transtorno estresse agudo, porém, se após o primeiro mês os sintomas continuarem, daí, sim, pode-se diagnosticar o TEPT”.

Ele afirma que algumas pessoas seriam mais suscetíveis ao transtorno, como aquelas que usam e abusam de substâncias, que já tinham uma experiência traumática prévia ou algum problema mental.

A psicóloga Ana Carolina Furquim conta que, nos Estados Unidos, estudos mostram que de 10% a 50% podem desenvolver o transtorno do estresse pós-traumático após um evento dessa magnitude. Mulheres seriam mais vulneráveis. “Minha hipótese é que isso aconteça porque a mulher é criada desde menina para cuidar, ficar atenta ao que acontece ao ambiente”.

Ela lembra, ainda, que conta também a sensibilidade da pessoa e sua atividade profissional. Bombeiros e policiais, que estão constantemente expostos a essas tragédias, têm mais disposição ao transtorno. Taxistas e coveiros de Santa Maria também começaram a buscar ajuda psicológica.

Não só os envolvidos

“Não só pessoas diretamente envolvidas podem ter TEPT. As que estiveram naquele local ou que viram as imagens pela televisão também podem, pois o cérebro mistura real e virtual. São pessoas com pré-disposição. Isso aconteceu muito nos Estados Unidos após os atentados do 11 de setembro”, lembra ela.

Furquim, que atende pacientes com o transtorno vítimas da violência em São Paulo, lembra do caso de uma paciente que soube de uma mulher muito próxima que havia sido estuprada. “Ela não presenciou aquilo, mas ouviu como aconteceu e começou a ter medo de sair de casa. Estava no meio de uma aula na faculdade e começou a imaginar toda uma cena onde ela era a pessoa violentada."

A psicóloga acredita que muita gente vá evitar, por um tempo, ir a boates ou clubes. E quem for, vai prestar mais atenção em detalhes que antes passavam despercebidos, como saída de emergência e presença de extintores.

Tratamento

O tratamento, segundo o diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria, está dividido em três partes: medicamento, psicoterapia cognitivo-comportamental centrada no trauma e apoio psicossocial da família e de amigos. Além disso, ele lembra uma regra importante: “Todo traumatizado, aquele com sequelas, tem necessidade de falar sobre o assunto. Fica repetindo sua história. Quem ouve não pode reclamar. Isso é bem-vindo, pois aquela pessoa está transbordando, tudo foi um ‘tsunami’ para ela”.

A psicóloga ensina que quanto mais cedo se procurar ajuda, melhor. Porém, pode acontecer de uma pessoa apresentar os sintomas do TEPT mesmo seis meses depois do trauma. “Ela fica anestesiada por um tempo e, depois, vem o famoso ‘cair a ficha’”, descreve.

 

Há pessoas que veem semelhanças entre o TEPT e a síndrome do pânico, mas ela explica que a diferença é que o transtorno do estresse pós-traumático surge em decorrência de um evento externo. Já o pânico pode surgir sem que exista uma causa conhecida.

Furquim cita a frase da médica Ana Beatriz Barbosa Silva, que dirige a clínica onde ela atua e é autora de vários livros sobre transtornos psiquiátricos, como "Mentes Inquietas" (Ed. Objetiva/Fontanar): "O TEPT é como um calo. É um calo que não sai da memória, algo impossível de se esquecer. Um pensamento que parece roubar sua memória”.

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