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Por que o Ceará é o epicentro do coronavírus no Nordeste

Construção do hospital temporário no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, com capacidade de 204 leitos - Divulgação/Prefeitura de Fortaleza
Construção do hospital temporário no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, com capacidade de 204 leitos Imagem: Divulgação/Prefeitura de Fortaleza

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

27/03/2020 04h00Atualizada em 27/03/2020 13h52

Resumo da notícia

  • Para especialistas, um casamento na Bahia e o aeroporto de Fortaleza estão por trás da explosão de casos no estado
  • Empresário cearense contraiu na festa e passou para outras pessoas que foram ao CE
  • Grande fluxo internacional de pessoas no aeroporto de Fortaleza é visto como outro fator que contribuiu para propagação do vírus
  • Ceará tem 235 infectados, número maior que a soma de registros dos outros 8 estados do Nordeste
  • Ao menos três pessoas morreram em Fortaleza

Um casamento na Bahia e o aeroporto de Fortaleza estão por trás da explosão de casos de covid-19 no Ceará, na avaliação de especialistas. Até o boletim da tarde de ontem do Ministério da Saúde, o estado havia registrado 235 casos —terceiro maior número do Brasil, mais elevado inclusive que a soma de todos os outros oito estados do Nordeste.

Para especialistas ouvidos pelo UOL, os dois fatores são responsáveis diretos pela grande quantidade de casos no estado, que soma três mortos, em Fortaleza, e se tornou epicentro do coronavírus na região. Além disso, o governo cearense atribui esse número a uma grande quantidade de testes feitos para covid-19 no período inicial da doença.

O casamento que teria impulsionado a doença ocorreu em dia 7 em Itacaré, na Bahia. Vários dos convidados eram cearenses e voltaram ao estado. Além disso, o MP (Ministério Público) da Bahia abriu inquérito para investigar a conduta do empresário Cláudio Henrique do Vale Vieira.

Após a festa, onde ele se contaminou, o empresário foi para São Paulo e fez o teste no dia 11. No dia seguinte, apesar da suspeita, voltou para a Bahia, agora para Trancoso, distrito de Porto Seguro, onde tem uma residência em um condomínio de luxo.

Lá, permaneceu sem qualquer isolamento na companhia da sua mulher e filha, além de outros familiares, amigos e nove funcionários. Cinco dessas pessoas voltaram para Fortaleza um dia após a divulgação do exame do empresário —duas delas foram infectadas, segundo reportagem do programa Fantástico.

Em nota, Vieira disse que só soube que estava com a doença após chegar a sua residência na Bahia. "Diante disso, imediatamente, o empresário iniciou isolamento em sua residência, sob supervisão médica", diz o texto.

Sobre o inquérito, ele "reitera que está à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários.

Já o hub no aeroporto é um centro de conexão para voos internacionais. Por ser a grande cidade brasileira mais perto da Europa, Fortaleza recebe muitos voos para, de lá, distribuir passageiros para outros destinos do Brasil. Isso aumenta o número de estrangeiros que passam pela cidade.

Segundo o infectologista do Hospital São José e professor da Uece (Universidade Estadual do Ceará) e da Unifor (Universidade de Fortaleza), Érico Arruda, os dois fatores são importantes para explicar o alto número de casos.

"Considero que esse grande fluxo internacional de pessoas no aeroporto de Fortaleza deva ter contribuído para nosso cenário, acrescido ao evento 'casamento na Bahia'. Havia várias pessoas do Ceará lá", afirma.

Arruda afirma que os números apresentados de casos devem estar subestimados. "Não sabemos exatamente o número de testados até aqui. Dessa forma, não é possível garantir que tenhamos uma situação a pior", diz. "É preciso intensificar a testagem. Testar todos os sintomáticos e seus contatantes diretos. Essa me parece a intervenção mais efetiva."

O grande desafio, acredita o infectologista, seria controlar o isolamento em regiões mais pobres e de grande adensamento urbano. "Restaria a questão do que fazer com a população das comunidades, quanto à proposta desse isolamento —onde?. Provavelmente não teremos uma saída técnica razoável para essa 'sinuca'", disse.

Testagem massiva

A secretária executiva de Vigilância e Regulação da Saúde do Ceará, Magda Almeida, afirma que uma das estratégias do estado foi fazer testagem massiva de pessoas com suspeita e com quem eles tiveram contato. "A gente teve teste para rastrear. Há muitos casos que apresentam atrasos, de sintomas passados, mas que agora a gente está conseguindo recuperar", afirma.

"A gente correu atrás de todos os possíveis contatantes de grupos específicos. Estamos atribuindo [esse número cima da média no Nordeste] também a uma notificação massiva", disse.

O Ceará já decretou transmissão comunitária da covid-19 e sabe que o vírus já circula. "Hoje a gente está seguindo a recomendação de só de fazer testes com os profissionais de saúde e casos mais graves", afirma.

Para ela, o grande fluxo de passagem de estrangeiros também foi importante nessa curva ascendente. "Nossos primeiros casos foram pessoas que passaram pela Europa. O fato de a gente ser um hub deve ter contribuído muito, e com certeza pode ajudar na explicação", disse.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado na reportagem, o casamento que teria impulsionado a doença ocorreu em Itacaré, e não em Trancoso. Além disso, o texto deu a entender que o empresário Cláudio Henrique do Vale Vieira teria sido o responsável pelo contágio na festa. Na verdade, ele se contaminou nela. O texto foi corrigido.

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