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Isolada desde o começo, Argentina controla coronavírus para ganhar tempo

Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas de Buenos Aires, quase sem ninguém - Marcelo Endelli - 27.mar.2020/Getty Images
Avenida Corrientes, uma das mais movimentadas de Buenos Aires, quase sem ninguém Imagem: Marcelo Endelli - 27.mar.2020/Getty Images

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

31/03/2020 04h00Atualizada em 31/03/2020 08h19

Resumo da notícia

  • Período de isolamento na Argentina terminaria hoje, mas presidente decidiu ampliá-lo ao menos até a Páscoa
  • Fernández diz que objetivo, com a quarentena, é se preparar para "quando chegar o pior momento"

Aulas suspensas, fronteiras fechadas, voos cancelados, saída de casa proibida, monitoramento de drones em praias. Essas foram medidas de distanciamento social tomadas pela Argentina dias após a OMS (Organização Mundial da Saúde) ter declarado que o novo coronavírus era uma pandemia.

Quando, em 15 de março, os argentinos decidiram começar a se fechar para evitar a proliferação da covid-19, o país tinha 45 pacientes contaminados e duas mortes. Duas semanas depois, a Argentina registra 24 mortes e 966 casos.

No mesmo período, o Brasil —que observa o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) questionar medidas isolamento apesar das recomendações médicas e o exemplo de outros países— viu o número de casos crescer quase 38 vezes e as mortes já passam de 150. A Argentina possui 44,5 milhões de habitantes e o Brasil, pouco mais de 209 milhões.

Mas, para a Argentina, ainda é necessário manter as pessoas mais tempo dentro de casa. Nesta terça (31), se encerraria o período de quarentena no país. O presidente Alberto Fernández, porém, decidiu ampliá-lo até a Páscoa (12 de abril). "O que vamos conseguir com isso? Continuar controlando a transmissão do vírus", disse no domingo (29). "A realidade é que os resultados iniciais são interessantes, são bons. Nos incentivam a seguir nesse caminho."

A intenção é que, "prolongando a quarentena, o ciclo de desenvolvimento do vírus no corpo humano se cumpra até duas vezes, dois ciclos", segundo Fernández. Especialistas dizem que o período de incubação da covid-19 varia de 10 a 14 dias. A quarentena na Argentina começou oficialmente em 20 de março.

Sem saída para ruas

Somente atividades essenciais são permitidas no país. A circulação em veículos só é permitida se houve permissão especial. Os cidadãos podem ir apenas a locais próximos de suas residências para comprar alimentos ou remédios, caso contrário, correm risco de ser alvo de denúncias de vizinhos.

Policiais também atuam no controle das ruas, mas há relatos de violência em algumas abordagens. Houve o caso de uma pessoa atingida por tiros com bala de borracha da polícia porque saiu de casa para comprar pão. Jovens também foram alvo de abuso por parte de policiais após terem saído de casa.

Em pronunciamento à imprensa, o Fernández justifica a decisão sobre ampliar a quarentena dizendo que ela se adianta ao problema. "Impusemos a quarentena para ter um crescimento mais lento, para que nos dê tempo para nos preparar quando chegar o pior momento", diz. De acordo com ele, 90% dos argentinos cumpriram as medidas de isolamento.

Para o presidente, está é uma "guerra contra um exército invisível que nos ataca em lugares onde, às vezes, não esperamos". Mas ele acredita que as medidas tomadas "têm muito sentido". "Compara com os países que demoraram para implementar a quarentena, vão se dar conta do tanto que temos ganhado."

Segundo o ministro da Saúde da Argentina, Ginés González García, o isolamento permite ganhar tempo. "Porque todo dia estamos melhor: em recursos, em preparação." Hoje, a Argentina, segundo o governo, possui 8.500 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas tem conseguido mais respiradores nos últimos dias para ampliar o número.

Ele já prevê distribuir cerca de 35 mil testes do novo coronavírus pelo país. "Provável que nos próximos dias tenhamos mais casos porque melhoramos a capacidade de detecção." O ministério vê esse ponto como positivo porque poderá detectar os infectados no começo, isolá-los e diminuir a possibilidade de contágio na comunidade.

Apesar de ter determinado o isolamento da Argentina em meados de março, Fernández chegou a defender que os jogos de futebol continuassem a ser disputados no país com portões fechados como forma de dar "algum entretenimento" à população. Houve protesto por parte dos jogadores e as partidas foram suspensas.

"Momento de exceção"

Fernández diz que a população precisa entender que "estamos vivendo um momento de exceção" e que não se deve cair "no falso dilema de 'é a saúde ou a economia'".

Uma economia que cai sempre se levanta. Mas uma vida que termina não a levantamos mais
Alberto Fernández, presidente da Argentina

O governo diz que não há prazo para o fim da quarentena, mas tem uma certeza: ela não vai acabar de uma vez, mas por etapas. "Não posso dar nenhuma previsão de quando nem de como. Claro que estamos pensando que não venha tudo junto", disse o ministro da Saúde. E já há o aviso de que os "espetáculos públicos", que possuem plateias, como shows e jogos de futebol, "estão na última fila", de acordo com a força-tarefa do ministério.

Não haver uma "data final" para a quarentena é algo visto como natural pela médica Valeria Fink, coordenadora da unidade de investigação clínica da ONG Fundación Huésped. "As coisas vão mudando de forma progressiva, de acordo com os distintos grupos de risco." Para ela, esse é um "problema" que vem do aprendizado diário com a pandemia.

"A normalidade vai se recuperando de uma forma progressiva", observa, pontuando que não há como prever como ela será e de que maneira se dará a conexão com a volta do cotidiano em relação a outros países. Fink é defensora do isolamento. "Se as pessoas não circulam, de alguma maneira se freia a circulação do vírus."

"Não há alternativa"

O casal argentino Roberto Puentes e Marta Domina, ambos de 72 anos de idade e moradores da Grande Buenos Aires, aprovam as medidas tomadas pelo governo.

"O isolamento para mim, que sou inquieta, é terrível, mas não tenho outra alterativa que não seja acatá-lo", afirma Marta, que não votou em Fernández na eleição presidencial no ano passado. "Concordo com as medidas. O presidente está interessado na saúde dos argentinos. Mais valem pessoas vivas do que uma economia florescente e todos mortos."

Para Roberto, o isolamento é um pouco "entediante". "Mas você tem que buscar meios de contornar isso". E o casal, que agora está em uma cidade a 400 quilômetros da capital, sente falta da família, netos e amigos". "Mas é por um bem maior", diz Marta.

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