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SP: Moradores de rua com suspeita de covid-19 têm transporte sem proteção

Alex Silva/Estadão Conteúdo
Imagem: Alex Silva/Estadão Conteúdo

Henrique Santiago

Colaboração parao UOL

31/03/2020 17h48Atualizada em 01/04/2020 15h50

Funcionários do Serviço Especializado de Abordagem Especial (SEAS) foram orientados pela prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMADS), a fazer o transporte de pessoas em situação de rua com suspeita do novo coronavírus (covid-19). A recomendação é que as equipes de orientadores sociais, que abordam pessoas na rua, conduzam os usuários em Kombis até o abrigo emergencial inaugurado semana passada na Vila Mariana, zona sul da capital.

No entanto, os trabalhadores afirmam que essas pessoas devem ser transportadas por ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), da Secretaria da Saúde, por oferecerem estrutura e equipe necessários. Eles reclamam que a gestão Bruno Covas (PSDB) apenas transferiu a responsabilidade sem fornecer equipamentos de proteção individual (EPI) - máscaras, luvas, álcool em gel etc. - e informações adicionais sobre a ação - aos cerca de 600 funcionários.

A reportagem conversou com orientadores sociais, que preferiram não revelar suas identidades por temerem represálias. De acordo com Antônio, que trabalha na região central de São Paulo, o risco de contaminação e transmissão é alto tanto para os profissionais de assistência social quanto para a população em situação de rua. "Como é que vou colocar pessoas com suspeita de coronavírus dentro de uma perua sendo que eu não sou do serviço de saúde e nem tenho treinamento e equipe para isso?", questiona.

Felipe, que também atua no centro de São Paulo, diz que os veículos não são equipados de maneira adequada para realizar o serviço, além da falta de EPI e estrutura interna da Kombi.

A higienização do automóvel deveria ser feita ao fim de cada viagem ao abrigo emergencial, se seguido o proposto pela prefeitura para a limpeza das linhas de ônibus municipais. O tempo destinado para a limpeza causa um problema de logística, pois as bases do SEAS contam com um a três veículos para transportar os usuários. Esses veículos já são utilizados no dia a dia para levá-los aos centros de acolhida.

As recomendações não seguem a proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de pelo menos um metro de distância. "Nós colocamos em risco as pessoas que atendemos, os orientadores e o condutor. No mínimo são três pessoas que vão encontrar mais usuários, o restante da equipe e depois vão para casa. E aí se forma uma bola de neve muito grande de possibilidade de transmissão [do covid-19]", protesta ele, que também cobra o fornecimento de avental e óculos para trabalhar com segurança nas ruas.

Ambiente insalubre

A reportagem apurou que equipes do SEAS espalhadas pela cidade têm se negado a fazer o transporte de carro até o abrigo emergencial para casos suspeitos de covid-19. Os funcionários respondem de duas formas: entram em contato com a Secretaria de Saúde para que o Samu efetue o serviço ou transportam a pessoa em situação de rua até um centro de acolhida e a isolam em uma sala. Há relatos, porém, de profissionais que aceitam fazer o traslado até o espaço na Vila Mariana.

A preocupação com a saúde aumenta porque existem profissionais que têm trabalhado diariamente mesmo com quadro de gripe. É o caso da equipe de Francisco, que pede que a região onde trabalha não seja revelada por receio de ser identificado. "Aqui no meu território não vai acontecer [o transporte]. Não vou colocar nenhum trabalhador em mais uma situação de risco para fazer esse transporte", lamenta.

Pacote de luvas com data de validade expirada - Reprodução - Reprodução
Pacote de luvas com data de validade expirada
Imagem: Reprodução

A expansão do novo coronavírus em São Paulo deixou o ambiente de trabalho "mais tenso", dizem os entrevistados. O ambiente insalubre tem feito com que orientadores do SEAS peçam afastamento temporário por acumularem problemas psicológicos. Na rua, Felipe teve de negar um pernoite para um casal, pois não havia vagas suficientes para dormirem juntos, e chegou a ser agredido fisicamente.

"O cara está vendo todo mundo nas ruas andando com máscara e álcool gel e ele não vai ter um lugar para dormir com a esposa dele? A pessoa [em situação de rua] está com medo. O medo gera revolta, desespero e angústia. É duro você falar 'não' para uma pessoa nessa situação. Eu não culpo quem quer nos agredir, culpo quem cria esse caos na cidade", diz o orientador social.

Em busca de uma resposta

O Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (SINDSEP) tem feito a articulação com a SMADS na tentativa de reverter esse quadro. O vice-presidente da entidade, João Gabriel, participou de duas reuniões com representantes da pasta nos últimos 15 dias.

Ele endossa a fala dos orientadores sociais de que há desinformação sobre o transporte da população de rua com suspeita de covid-19. "Nós vamos continuar a interlocução nos próximos dias. Nada foi resolvido. Tem avançado muito pouco, é muito difícil. Vemos com muita preocupação o que poderá acontecer", resume.

O dirigente aponta que também há problemas no entendimento de como funciona o abrigo emergencial. Segundo ele, a única informação passada foi o endereço do local e desconhece se as medidas de saúde para a população de rua atendem as normas de isolamento social. A prefeitura prevê a abertura de mais quatro espaços, ainda que não tenha apresentado mais detalhes.

Na quarta-feira (25), representantes de organizações enviaram um ofício à SMADS para solicitar que a equipe de saúde realize o transporte de pessoas em situação de rua com suspeita de covid-19. Questionada, a SMADS enviou, por meio de sua assessoria de imprensa, uma nota detalhando a orientação.

"A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Assistência e Desenvolvimento Social, informa que, em função da epidemia de covid-19, foram reforçadas as ações para higienização dos veículos do SEAS (Serviço Especializado de Abordagem Social). Também foram reforçados os cuidados no atendimento e na interação com as pessoas em situação de rua, além do uso de insumos de prevenção (luvas, máscaras, álcool em gel). A secretaria informa também que os veículos do SEAS atendem usualmente pessoas em diversas condições de saúde. Em casos críticos, os profissionais são orientados a pedir apoio das equipes de saúde (consultório na rua, Samu)", diz a nota.

"O SEAS (Serviço Especializado de Abordagem Social) atende pessoas em situação de rua, com o objetivo de oferecer acesso a serviços públicos e proteção social. Essa atividade envolve o transporte de pessoas que queiram acessar os serviços de acolhimento que, por sua vez, oferecem local para dormir, alimentação, higiene pessoal e desenvolvem atividades com os conviventes. Atualmente, há cerca de 600 orientadores sociais nas equipes de abordagem, que atuam todos os dias para identificar e atender pessoas ou famílias em situação de rua", complementa.

Para o segundo secretário do Conselho Municipal de Assistência Social (Comas), David Oscar, a atual gestão tem deixado a desejar combate ao coronavírus. A nova recomendação do transporte da população de pelo SEAS, na visão dele, é um "genocídio planejado".

"O que tentamos fazer é avisar antes que algo pior aconteça. Nós queremos apenas realizar o nosso trabalho. Parece que estamos pedindo muito. Não queremos aumento de salário ou de funcionários. Queremos equipamento básico e a tipificação correta dos serviços", conclui.

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