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Coronavírus chega ao interior e pequenas cidades viram foco de transmissão

Coronavírus - iStock
Coronavírus
Imagem: iStock

Judite Cypreste e Vinicius Konchinski

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para UOL, em Curitiba

02/04/2020 04h04

Resumo da notícia

  • Número de cidades com casos de coronavírus saltou de 2 para 409 em março
  • Cidades menores importaram casos, mas hoje são foco de transmissão regional
  • Há casos de municípios com proporção maior de casos do que capitais de estados
  • Falta de atendimento especializado preocupa administrações locais, que pedem verba

O mês de março marcou a disseminação do coronavírus em território nacional. No primeiro dia do mês, uma única cidade do país —São Paulo— tinha dois casos confirmados da doença. Na terça-feira (31), já eram 409, segundo dados da plataforma colaborativa Brasil.IO.

Hoje, o novo coronavírus já está nos 26 estados do país e no Distrito Federal, e ainda em cidades de pequeno e médio porte do interior. Algumas dessas cidades, aliás, já registram transmissão comunitária e viraram um centro de disseminação regional do vírus.

Esse é o caso de Bagé (RS). A cidade localizada no extremo sul do país, na fronteira com o Uruguai, tem 121 mil habitantes e já identificou 15 contaminados pelo coronavírus.

O prefeito da cidade, Dilvaldo Lara, contou que o município registrou seu primeiro caso de coronavírus no dia 19. Um médico que tinha viajado ao Rio de Janeiro para um curso voltou infectado e contaminou colegas de trabalho.

Os casos vêm crescendo dia a dia, o que fez Lara passar a se preocupar com outras cidades do Rio de Grande do Sul. "Hoje, a cidade de Bagé é mais contaminante do que contaminada", afirmou ele, ao UOL. "Um médico de Pelotas se contaminou em Bagé."

Transmissão comunitária no interior de Goiás

Caso parecido aconteceu na cidade de Rio Verde (GO), que tem 235 mil habitantes e sete casos confirmados de coronavírus. O primeiro deles é o de uma médica que havia viajado para a Espanha. Outras duas pessoas que tiveram contato com ela foram infectadas

Desde o dia 16 de março, o prefeito Paulo do Vale decretou situação de emergência na cidade e medidas restritivas de circulação de pessoas. Segundo o prefeito, manter as pessoas em casa foi o único "remédio" para enfrentar a situação da pandemia. A cidade já diagnosticou a primeira transmissão comunitária, isto é, quando a pessoa infectada não esteve em outras regiões com presença do vírus.

A taxa de contaminação do coronavírus em Rio Verde é de 2,9 casos para cada 100 mil habitantes. Em Goiânia, capital do estado, a taxa era de 2,5 na terça-feira.

Sem UTI nem centro cirúrgico

Em Acrelândia (AC), o secretário municipal de Saúde, Sebastião Rita de Carvalho, disse ao UOL que também já existe transmissão comunitária do coronavírus.

A cidade fica na fronteira com a Bolívia. Tem 15 mil habitantes e oito casos de coronavírus confirmados.

O vírus chegou à cidade depois que um representante de uma cooperativa rural voltou de uma viagem ao exterior. Três pessoas que tiveram contato com ele foram contaminadas. Em 15 dias, outros quatro foram infectados.

Para o secretário, a situação na cidade é crítica, principalmente porque em Acrelândia não existe hospital nem leito de UTI (unidade de terapia intensiva). "Estamos lidando precariamente como dá", explicou ele. "Temos uma unidade mista de saúde na cidade. É quase um mini-hospital. Mas não tem centro cirúrgico nem UTI."

Também não há UTI em Anta Gorda (RS), cidade com menos de 6.000 habitantes. Lá, um casal que voltou de um cruzeiro foi diagnosticado com coronavírus. "Ainda bem que eles evoluíram bem", disse a prefeita Madalena Gehlen Zanchin. "Numa cidade pequena, é mais fácil pedir para as pessoas ficarem em casa, mas será complicado tratar casos graves aqui."

Cidades do interior pedem ajuda

Secretários e prefeitos ouvidos pelo UOL reclamaram da falta de ajuda de governos estaduais e federal no combate ao coronavírus. Em Acrelândia, o secretário de Saúde disse não ter recebido qualquer auxílio. Em Bagé, o prefeito disse que a cidade pode se tornar um epicentro da doença sem uma atuação integrada de governos.

Em Mossoró (RN), festas juninas, que geram até R$ 90 milhões em receita para cidade, tiveram que ser canceladas por conta da pandemia. A secretaria de Saúde, Saudade Azevedo, afirmou que Mossoró deve receber uma ajuda de R$ 500 mil por conta do coronavírus. "Isso é nada", reclamou. "Estamos nos virando como dá."

Mossoró tem quase 300 mil habitantes e 21 casos confirmados da doença —taxa de 7 infectados por 100 mil habitantes. A capital Natal tinha 4,75 até terça.

Ministério não conta casos por município

O Ministério da Saúde não divulga dados sobre a disseminação do coronavírus por município.

Procurado pelo UOL para comentar a situação de cidades do interior, a pasta informou que isso deve ser discutido com cada estado. "Os repasses da vigilância estão sendo encaminhados normalmente", complementou o órgão.

Na segunda-feira (30), o biólogo e pesquisador Atila Iamarino afirmou em sua entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, que a falta de dados oficiais sobre a disseminação do coronavírus por cidades brasileiras pode prejudicar o controle da pandemia.

"No mínimo, deveríamos ter os dados sobre cidades, faixa etária de infectados e se eles foram testados", disse Iamarino. "Cada cidade é um foco. Cada cidade pode virar uma Lombardia [epicentro do coronavírus na Itália] ou Wuhan [epicentro na China] se ela não for monitorada."

O médico infectologista Evaldo Stanislau, diretor da Sociedade Paulista de Infectologia, disse que a tendência natural é que o coronavírus avance para periferias das grandes cidades e municípios do interior. Para ele, a falta de médicos especializados pode agravar a situação.

"Em algumas cidades, não temos estrutura suficiente e também não temos médicos especialistas em infecções como a do coronavírus."

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