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Investigação de mortes faz PE ter letalidade de covid-19 maior que a Itália

Coronavírus: até agora foram 223 casos da doença e 30 mortes em Pernambuco - iStock
Coronavírus: até agora foram 223 casos da doença e 30 mortes em Pernambuco Imagem: iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

06/04/2020 23h14

Pernambuco confirmou, em boletim epidemiológico hoje, mais nove mortes em decorrência da doença covid-19. Assim, o estado aumentou ainda mais a taxa de mortalidade, que atingiu 13,4% dos infectados pelo novo coronavírus. O índice chama a atenção por ser o maior do país, acima até do que tem sido registrado na Itália — país com a maior taxa de letalidade do mundo: 12,3%.

Até agora foram 223 casos e 30 mortes em Pernambuco, maior número de óbitos do que o Ceará, que tem quase cinco vezes mais casos confirmados (1.013). A taxa de letalidade pernambucana é quase três vezes maior do que a brasileira, que está em 4,6% (553 mortes e 12.056 casos, de acordo com o Ministério da Saúde).

Será que há um coronavírus mais letal infectando os pernambucanos?

Não é isso que autoridades e especialistas apontam. Eles citam que o dado estaria ligado ao foco de testagem em pacientes graves e a uma intensa investigação das mortes por SRAG (Síndrome respiratória aguda grave), dois fatores que elevariam a taxa de mortes.

O secretário estadual de Saúde André Longo assegura que o alto índice de mortalidade é fruto de "uma vigilância ativa e de uma transparência absoluta."

"Ninguém testou mais SRAG do que Pernambuco no Nordeste", diz Longo.

Segundo ele, há uma investigação de todas as mortes suspeitas no estado. "Pernambuco faz questão de investigar cada um desses óbitos para permitir que as famílias possam ter esse resultado. Nosso compromisso é fazer uma busca ativa de cada um desses óbitos, assim como temos orientado os municípios, o SVO [Serviço de Verificação de Óbitos] e o IML [Instituto Médico Legal], para fazer a coleta desses casos para que a gente não perca nenhuma investigação de morte", explica.

No Brasil, especialistas acreditam que existe uma subnotificação de mortes por SRAG. "Nossa preocupação é a transparência. Mesmo que os números possam parecer mais duros, queremos que eles sejam colocados para a sociedade pernambucana", completa o secretário estadual.

Por conta dessa busca ativa, a metodologia dos boletins mudou hoje. "Estamos fazendo esse relato por dia de ocorrência. Tivemos neste boletim de hoje nove mortes, mas isso não significa que elas ocorreram nas últimas 24 horas", pontua Longo.

Poucos testes explicariam alta taxa de letalidade

O UOL consultou especialistas na área de infectologia que acreditam que a busca ativa para testar mortes suspeitas está acompanhada de uma grande subnotificação de casos mais leves.

A infectologista e professora aposentada de doenças infecciosas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Vera Magalhães afirma que o alto percentual de mortos no estado deve ser explicado pela pouca quantidade de testes. "Isso aconteceu também em outros países quando se testava menos, ou seja, apenas os casos mais graves com SRAG. Então acredito que é porque se testa pouco, e esse percentual é falsamente ampliado", diz.

Magalhães explica que, inicialmente, apenas as pessoas que haviam viajado para áreas de circulação do coronavírus é que eram testados. Ela lembra que, como cerca de 80% dos pacientes sequer apresentam sintomas ou esses são leves, eles não vão às unidades de saúde.

"Agora estão sendo testados os pacientes graves ou pessoas da área de saúde assintomáticos. A gente pensa que, quando — e se — começar a testar os casos mais leves, a letalidade irá diminuir", observa a infectologista.

A enfermeira especialista em infectologia e doutora em Ciências da Saúde da UFPE, Aracele Cavalcanti, afirma que o fato de Pernambuco estar testando (em vida) apenas aqueles pacientes que vão à UTI (Unidade de Terapia Intensiva) pode ser a explicação para esse cenário de alta letalidade.

"Não há diferença populacional ou de doença entre os estados que justifique essa diferença. A testagem parece ser a principal diferença dessas taxas. É como se a gente só conseguisse ver a ponta de um iceberg", compara Cavalcanti.

Para a doutora em Ciências da Saúde, é necessário que todo o país amplie o número de testes. "Investir em testagem foi uma alternativa acertada em vários países que precisavam rastrear os casos de infecção, porque dá uma melhor ideia de prevenção direcionada em comunidades. Vários pesquisadores acreditam que é a melhor forma de evitar a disseminação às cegas", pontua.

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