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Vítima de coronavírus foi medicada três vezes com xarope em UBS, diz filho

UBS Lélio Silva, onde paciente foi atendido duas vezes. Crédito. Prefeitura de Macapá - Prefeitura de Macapá/Divulgação
UBS Lélio Silva, onde paciente foi atendido duas vezes. Crédito. Prefeitura de Macapá Imagem: Prefeitura de Macapá/Divulgação

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Ponta Grossa

15/04/2020 18h48

Sétima vítima do novo coronavírus no Amapá, o mototaxista Alessandro Santos Bonifácio, de 47 anos, morreu ontem após três semanas com os sintomas do novo coronavírus e sem o diagnóstico para a doença. Ele procurou atendimento por três vezes na rede pública municipal de Macapá e, mesmo com os indícios de covid-19, foi tratado com xarope para gripe, alega a família.

O diagnóstico de infecção pelo novo coronavírus ocorreu apenas quando Bonifácio decidiu procurar a rede estadual, onde imediatamente foi intubado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Emergências (HE) de Macapá. O diagnóstico ocorreu tarde, segundo a família, pois o mototaxista não aguentou e morreu pouco mais de 24h após a internação na madrugada de ontem.

A prefeitura de Macapá informou que o paciente apresentou quadro de síndrome gripal e por isso não realizou os testes nas duas primeiras consultas.

A morte de Bonifácio por covid-19 entrou para a estatística nos boletins divulgados ontem pelo governo do Amapá e prefeitura de Macapá. Além das sete vítimas fatais, o estado contabiliza 334 infectados.

Segundo o filho da vítima, Wendeson Felipe Batista, de 25 anos, o pai procurou atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) por três vezes, em um intervalo de três semanas entre o fim de março e começo de abril. Em todas as visitas ao médico, Bonifácio apresentava sintomas do novo coronavírus: febre alta, diarreia e tosse seca.

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Alessandro Bonifácio morreu com covid-19
Imagem: Arquivo pessoal

A primeira ocorreu na UBS Rubin Aronovich, no bairro Santa Inês, na Zona Sul de Macapá; e as demais na UBS Lélio Silva, no bairro Buritizal - referência no atendimento aos casos suspeitos de covid-19 na capital amapaense.

"Meu pai estava há três semanas com os sintomas de diarreia, tosse seca e febre e procurou por conta própria a primeira UBS. Lá, deram um remédio para baixar a febre e um xarope. Ele ficou dias tomando esse xarope, mas não fez efeito. Na segunda semana, procurou outra UBS, a Lélio Silva, e passaram uma amoxicilina e de novo um xarope, retornando para casa. Nesse tempo, passou a febre, mas a tosse e diarreia continuaram", lembrou o filho.

No domingo (12), Wendeson visitou o pai - que morava sozinho - e o viu com falta de ar. Ambos seguiram para a UBS Lélio Silva e dessa vez a vítima foi submetida ao teste rápido de covid-19, analisado como negativo pele equipe médica. Bonifácio, então, recebeu uma receita para comprar um xarope.

"Cheguei na casa dele e o vi roxo com falta de ar e levei na UBS. Dessa vez, o médico solicitou o exame. Eu reclamei que ele já havia ido duas vezes e não pediram o teste. Meu pai não dava mais conta nem de andar sozinho. Estava muito fraco. Esperamos o teste rápido, peguei o resultado e levei para o médico. Ele me disse que não estava com coronavírus e passou um anti-inflamatório e de novo um xarope", relatou Wendeson.

O filho conta que os sintomas não passaram com a medicação. Por volta de 4h da manhã de anteontem, Bonifácio ligou para Wendeson e relatou novamente falta de ar. A família, dessa vez, decidiu procurar um hospital da rede estadual, onde logo se constatou o novo coronavírus.

"No dia seguinte, por volta de 4h, ele ligou com falta de ar, e fomos direto para o Hospital de Emergências. Lá, outro médico confirmou que ele estava com o coronavírus, sim, com base no mesmo teste que fez na UBS. Ele já foi intubado ao amanhecer e ficou na UTI até o corpo não resistir mais", sustenta o filho.

Vítima não tinha comorbidade

A família acredita que se ele tivesse sido diagnosticado e medicado corretamente no início dos sintomas, a covid-19 não teria evoluído ao longo de três semanas. Bonifácio não sofria com histórico de demais doenças que pudessem agravar os sintomas.

"Se tivesse sido medicado corretamente desde o início, acho que ele conseguira reverter porque meu pai não sofria de outra doença. Não tinha asma, nunca teve pneumonia e nem era fumante. Era adepto da medicina natural e ficou desesperado porque os sintomas não passavam. Estava muito assustado porque nunca passou mais de quatro dias doente porque tomava remédios naturais, mas dessa vez não deu certo também", afirma Wendeson. Além dele, Bonifácio deixa outros três filhos. Ele era solteiro.

Prefeitura alega que tomou conduta adequada

A Secretaria de Saúde de Macapá informou ao UOL que, "de acordo com prontuários de atendimento, o paciente foi classificado como síndrome gripal" e que "a realização de teste rápido só é indicada em pacientes que já apresentem sete dias de sintomatologia, preconizado pelo Ministério da Saúde".

"No teste rápido o paciente é submetido a partir do sétimo dia de sintomas, o exame de escarro é realizado de acordo com a conduta médica que solicita após avaliação clínica", complementou.

A nota ainda pontou que "desconhece possível erro, pois na análise de prontuário, o médico tomou a conduta adequada". A prefeitura não comentou sobre o resultado do exame na UBS Lélio Silva.

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