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Coronavírus

Em um ano, 549 médicos deixaram Manaus após salários atrasados, aponta CRM

Hospital de Campanha de Manaus  - Mario Oliveira/SEMCOM
Hospital de Campanha de Manaus Imagem: Mario Oliveira/SEMCOM

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

17/04/2020 04h06

No ano passado, exatos 549 médicos das mais variadas especialidades deixaram de trabalhar na cidade de Manaus, de acordo com dados do Cremam (Conselho Regional de Medicina do Amazonas). O êxodo corresponde a cerca de 10% dos profissionais aptos a praticar medicina no estado.

A capital amazonense vive uma situação de colapso em seu sistema público de saúde e já registrou 104 mortes e 1.719 casos confirmados da covid-19. O estado tem a mais alta taxa de incidência do novo coronavírus do país.

O motivo para tal debandada tem uma explicação principal, afirma José Bernardes Sobrinho, presidente do Cremam.

"O governo do Amazonas demora três, quatro, cinco meses para pagar os salários dos médicos. Eles acabam saindo para trabalhar em outras cidades onde eles vão receber em dia. Agora esses médicos fazem falta".

A Susam (Secretaria de Saúde do Amazonas) afirma desconhecer o número citado pelo presidente do Cremam.

"A Susam não atrasa salário de servidor público, e todos os médicos estatutários recebem seus vencimentos regularmente. Médicos prestadores de serviços por meio de empresas médicas contratadas pelo estado recebem pró-labore das empresas das quais fazem parte, como sócios ou cooperados."

manaus - REUTERS/Bruno Kelly / BBC News Brasil - REUTERS/Bruno Kelly / BBC News Brasil
Enterro em Manaus de uma vítima da covid-19
Imagem: REUTERS/Bruno Kelly / BBC News Brasil

Durante uma coletiva nesta semana, a secretária estadual de Saúde, Simone Papaiz, admitiu a dificuldade de encontrar novos profissionais de saúde para atender a demanda criada pela pandemia.

"Quanto à contratação de equipes de médicos, lembro que há uma dificuldade aqui no Amazonas, que é a oferta de recursos humanos", afirmou.

Médicos relatam caos

Profissionais ouvidos pelo UOL relatam um cenário caótico nas unidades públicas de saúde. Desde o começo da pandemia do coronavírus na cidade de Manaus, quatro profissionais morreram vítimas da covid-19 em Manaus.

Ontem, antes de ser demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou a gestão do governo do amazonense.

"Manaus está tendo muita dificuldade. Falta de gestão, falta de organização do sistema. Trocaram o secretário de saúde na semana passada".

Um vídeo revelado ontem pela "Folha de S.Paulo" mostrou corredores e salas do hospital público João Lúcio com corpos à espera de remoção ao lado de pacientes e macas no chão.

"Estou com medo de morrer. Medo de infectar minha família. As unidades de saúde viraram ambientes de propagação do coronavírus. As pessoas estão começando a morrer nas casas. Não houve gestão adequada, o governo não sabe o que fazer", afirma Patrícia Sicchar, vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas e médica do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Emergência).

"Um caos total. Chorei muito ontem quando estava atendendo os pacientes da emergência. O olhar deles era pedindo socorro, e não tem vaga para transferir em lugar nenhum", afirma.

Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem trabalham sem acesso a remédios e equipamentos de proteção individuais (EPIs). Relatam falta de material para trabalhar nos casos mais graves.

"Estamos vendo pacientes suspeitos com quadro clínico de agravando. Sem testes para eles nem para quem trabalha. Cada vez é maior o número de profissionais afastados. Não há tamiflu (medicamento antiviral). É tudo desordenado", disse um médico que trabalha numa unidade de pronto atendimento, que pediu para não ser identificado.

O governo foi criticado por alugar por R$ 2,6 milhões um hospital particular desativado para receber pacientes da covid-19. A Justiça suspendeu o contrato. A Susam afirma que recorreu da decisão judicial e que a unidade começará o atendimento no final de semana.

Neste momento a ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em Manaus é estimada em 95%.

O clima é de tensão também entre os médicos que trabalham na rede privada. "Deixei de trabalhar em um dos dois hospitais que atuava na UTI porque não estava me sentindo seguro", diz um médico, que também pediu sigilo.

A Susam afirma que todas as unidades de saúde do estado estão sendo abastecidas com EPIs. Leia nota completa:

"Apesar do aumento do consumo em até cinco vezes após a epidemia (hoje se consome em uma semana o que era consumido em um mês) e a escassez do produto no mercado mundial, o Amazonas ainda vem conseguindo manter até aqui um estoque de EPIs e o abastecimento de todas as unidades de saúde da rede estadual. Todavia, tem sido orientado aos gestores o uso racional e adequado dos EPIs -- seguindo o que recomenda a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) -- para que não haja desabastecimento. As medidas, obviamente, não agradam aos profissionais, uma vez que o uso dos produtos está sendo controlado.

O que tem se observado é que, por medo da contaminação, os profissionais que atuam dentro das unidades têm exigido equipamentos diferentes daqueles definidos para cada ambiente e situação recomendada pela Anvisa. É o caso do macacão e da máscara N95, esta última indicada para uso em procedimentos que produzem aerossóis, mas que é reivindicada por todos, inclusive profissionais para os quais o equipamento indicado é a máscara cirúrgica.

O abastecimento vem sendo garantido com aquisições pelo estado e Ministério da Saúde, além de doações e de parcerias, como a que está em curso com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para a produção de EPIs para a rede estadual de saúde."

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