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Coronavírus

Governo compara mortalidade de Brasil e Europa, mas análise requer cuidado

Profissionais de saúde que usam máscaras protetoras seguram flores na frente de cruzes em homenagem à colega de trabalho Maria dos Santos, uma enfermeira que morreu da doença por coronavírus, em meio ao surto de COVID-19, fora do Hospital Dr. Jose Soares Hungria em São Paulo - AMANDA PEROBELLI/REUTERS
Profissionais de saúde que usam máscaras protetoras seguram flores na frente de cruzes em homenagem à colega de trabalho Maria dos Santos, uma enfermeira que morreu da doença por coronavírus, em meio ao surto de COVID-19, fora do Hospital Dr. Jose Soares Hungria em São Paulo Imagem: AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

30/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Ministério da Saúde e Bolsonaro comemoram taxa de mortalidade brasileira por milhão, mas comparação com Europa pode induzir a erro
  • Para especialistas, considerar apenas a mortalidade por total de habitantes de um país é pouco realista
  • Atraso na contagem de casos e a quantidade de óbitos ainda em investigação distorcem índice de mortalidade
  • No Brasil, a ausência de testagem em massa causa distorção na taxa de letalidade, jogando-o para cima

A taxa de mortalidade pelo novo coronavírus no Brasil é de aproximadamente 20 para cada 1 milhão de habitantes, segundo dados do ministério da Saúde. Um número que o governo comemora e compara com países europeus, onde a taxa chega a ultrapassar a centena. Porém, a análise desses dados deve ser feita com cuidado e considerando as particularidades de cada país.

O Ministério da Saúde publicou na segunda (27) um novo boletim epidemiológico que será divulgado semanalmente, em que compara as taxas de mortalidade do Brasil com Itália e Espanha — dois países que sofreram com altos números de contaminados e mortos no pico da epidemia —, e com a Alemanha, país considerado um dos exemplos pela maneira com que lida com a doença.

De acordo com os dados publicados pelo ministério e contabilizados até o dia 26 de abril, o Brasil tinha uma taxa de mortalidade por milhão de habitante de 20, contra 67 da Alemanha, 436 da Itália e 482 da Espanha.

Durante coletiva no dia 23 de abril, o ministro da Saúde, Nelson Teich, comemorou o número baixo brasileiro.

"O Brasil, hoje, é um dos países que melhor performa em relação à covid se você analisar mortos por milhão de pessoas. O nosso número é um dos melhores", disse. Até o último domingo, quando os dados foram analisados pela pasta, ocorreram 4.205 óbitos por covid-19. Considerando a população brasileira em torno de 210 milhões, o resultado é o coeficiente de 20 óbitos por milhão.

"O país é o 11º em número de casos confirmados e o 11º em número de óbitos. Porém, em se tratando do coeficiente de mortalidade por 1 milhão de habitantes, o Brasil ocupa a 37ª posição no ranking mundial", informa o boletim.

O próprio presidente Jair Bolsonaro chegou a postar em seu Twitter uma tabela comparando a taxa brasileira com outros países e comemorou os números, que na época eram ainda menores dos que os divulgado agora pelo ministério.

Porém, o próprio boletim faz a ressalva de que comparações com outros países devem ser feitas de maneira cautelosa. "Ao comparar a evolução da situação epidemiológica da covid-19 em diferentes países, é importante levar em consideração o momento da pandemia em que cada país se encontra."

Para isso, o documento mostra que Itália e Espanha tiveram o seu 100º caso confirmado, respectivamente, 20 dias e 10 dias antes que o Brasil, o que demonstra um avanço muito maior da doença nesses locais.

De acordo com o infectologista da Faculdade de Saúde Pública da USP, Eliseu Waldman, o momento em que esses países se encontram na pandemia influencia na sua taxa de mortalidade. Por estar ainda no início da contaminação, é esperado que a taxa brasileira seja mais baixa.

"Você pode até fazer a comparação, mas salientando que eles são momentos diferentes. Alemanha, por exemplo, já chegou no pico. A Itália já está diminuindo o número de óbitos já faz mais de uma semana", explica. "Ou seja, eles já escalaram o pico, estão descendo e nós estamos começando a escalar agora. Provavelmente a gente entra num processo mais acelerado nas próximas duas semanas."

Para o epidemiologista especializado pelo Instituto Emílio Ribas, Natanael Adiwardana, é preciso considerar outras variáveis ao fazer comparações. "Considerar apenas a mortalidade por total de habitantes de um país é pouco realista, considerando que há grandes diferenças de acesso a diagnóstico, assistência e suporte socioeconômico em cada micro e macrorregião do país", ressalta.

"Se quisermos comparar desigualdades, devemos selecionar países diferentes do nosso em termos políticos, econômicos, culturais e sanitários. Se, por outro lado, quisermos comparar semelhanças, devemos nos comparar com países parecidos, pelo menos no item a ser analisado", diz.

Segundo ele, seria mais adequado comparar o Brasil a esses países em pior situação se for para falar de potencial de saturação do sistema de saúde, "pois vemos que esse fator é independente de grau de desenvolvimento socioeconômico da nação, mas de medidas aplicadas para desaceleração da contaminação da doença".

Além disso, é preciso observar o tamanho da população nos países comparados. Enquanto o Brasil tem mais de 210 milhões de habitantes, a Alemanha tem um pouco mais de 83 milhões, Espanha tem 46 milhões e Itália 60 milhões.

Mortalidade e letalidade

Os especialistas ressaltam que, além da taxa de mortalidade, é importante também considerar a letalidade. A mortalidade é o índice de morte por uma determinada causa frente ao total da população. Já a letalidade é o número de mortos por uma determinada doença frente ao número total de contaminados por ela. Nesse sentido, a letalidade brasileira ainda é bastante alta.

Pela última atualização do Ministério da Saúde, a taxa de letalidade no Brasil gira em torno de 7%. Na Itália, a taxa é de 13% segundo cálculo com base nos últimos números da Organização Mundial da Saúde. Na Espanha é de 11% e na Alemanha, 3%, uma das mais baixas.

Conhecer a taxa de letalidade ajuda a compreender como a doença está se comportando no país e quais são as variáveis que interferem em seu número. No Brasil, a ausência de testagem em massa causa distorção no número, jogando-o para cima — o oposto do que ocorre na Alemanha.

Na Itália e na Espanha, por outro lado, a sobrecarga no sistema de saúde e ausência de atendimento para todos elevaram as suas respectivas taxas.

Já a mortalidade ajuda a observar quais são as maiores causas de morte em uma população e, em um cenário de pandemia, mostra quais outros fatores podem aumentar a demanda do sistema de saúde.

"Observar a mortalidade global do país chama a atenção para outras causas de morte, como violência, acidentes automobilísticos, outras doenças e pobreza, que interferem na taxa global, mas também influenciam sobre a letalidade de doenças específicas que dependem do serviço de saúde", explica Adiwardana.

"Por exemplo, se o número de acidentes automobilísticos crescer, haverá maior demanda por leitos de UTI, os quais já estão sobrecarregados pelas demandas da covid-19. Então, há maior risco de pacientes que precisam de UTI ficarem sem vagas e, por conseguinte, ficarem menos assistidos, o que aumentaria sua chance de morrer".

Outro fator que pode influenciar na mortalidade da covid-19 no Brasil é o atraso na contagem de casos e a quantidade de óbitos ainda em investigação.

"Temos que considerar que até poucas semanas atrás, os testados eram apenas os mais graves que necessitavam de internação, o que também pode enviesar os dados que temos até hoje, representando uma seleção de pacientes mais enfermos e com maior risco de falecer", diz Natanael Adiwardana.

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