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Para pesquisadora da Fiocruz, só lockdown radical salvaria vidas no RJ

30.abr.2020 - Movimento no centro do Rio indica menor adesão às medidas de isolamento social - Herculano Barreto Filho/UOL
30.abr.2020 - Movimento no centro do Rio indica menor adesão às medidas de isolamento social Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

01/05/2020 04h00

Levantamento exclusivo obtido pelo UOL aponta um afrouxamento no isolamento social nas últimas semanas, com quase 53% de adesão no estado do Rio de Janeiro em meio a um cenário de colapso na saúde pública e aumento das mortes por covid-19, doença causada pelo coronavírus. Especialistas ouvidos pela reportagem consideram a adesão insuficiente para minimizar os impactos da epidemia e defendem um lockdown no Rio, com restrições mais duras nas próximas duas semanas.

O secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, chegou a cogitar ontem em entrevista à CBN o lockdown, bloqueio radical que impede a circulação de pessoas. Mais tarde, o governador Wilson Witzel (PSC) descartou a possibilidade. Com 60 óbitos nas últimas 24 horas, o RJ já contabiliza 854 mortes confirmadas para o coronavírus e 9.453 casos de pessoas infectadas.

O índice de isolamento social foi elaborado em todo o país com base em dados de mais de 60 milhões dispositivos móveis analisados pela empresa de geolocalização In Loco. O dado mais recente do estudo aponta para um índice de 53% no estado fluminense referente à última terça-feira (28) —o mesmo percentual da média dos últimos 7 dias.

Em comparação a semanas anteriores, a adesão ao isolamento teve queda. Entre os dias 15 e 21 deste mês, a média foi de 53,9% —quase um ponto percentual acima do índice desta semana.

Especialistas ouvidos pelo UOL concordam com a análise de Edmar Santos, secretário da Saúde do Rio, que apontou um índice mínimo de 70% de isolamento social, bem acima dos registros diários no estado.

De acordo com o levantamento, a quarentena no Rio só se aproximou desse índice em 22 de março, quando chegou a 69,4%.

No ranking de adesão ao isolamento social, o RJ aparece em 6º lugar, atrás de Goiás, Pernambuco, Pará, Maranhão e Ceará. O menor índice do país é o de Tocantins, com 41,5%.

A pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e integrante de grupo que presta consultoria ao governo estadual, diz acreditar que o lockdown já deveria estar sendo adotado desde o começo da pandemia.

Estamos vivendo uma tragédia humanitária que poderia ter sido minimizada. O resultado desses bloqueios parciais são mortes evitáveis em um dos momentos mais tristes da história do Brasil. O Rio deveria fazer um lockdown radical por pelo menos duas semanas, para salvar vidas. Mas essa é decisão não é dos médicos, é das autoridades

Margareth Dalcolmo, pneumologista

Segundo ela, o registro do último domingo (26) de grande quantidade de frequentadores na mureta da Urca, na zona sul do Rio, contrasta com as recomendações de isolamento social em meio ao aumento de mortes de pessoas com a covid-19, doença provocada pelo coronavírus.

"Um terço dessas pessoas que vimos na mureta da Urca, nas praças da zona norte, nos bares da baixada ou na beira das praias estarão procurando por assistência médica ou leito de hospital nos próximos dias. E não teremos vagas para todos", alerta.

É trágico ver pessoas que chegam morrendo na porta das UPAs, que não têm condições de atender pacientes em estado grave. Hoje, a transmissão comunitária está verticalizada e absolutamente fora de controle, atingindo todas as camadas sociais

Para Dalcolmo, a divergência nas gestões entre os governos federal, estadual e municipal agravou o problema. "O discurso antagônico entre autoridades resultou em uma confusão. As pessoas não sabem a quem ouvir. Esse caos, essa confusão, esse paradoxo de informações gerou esse resultado", analisa.

Afrouxamento, colapso e mortes

O infectologista Edimilson Migowski, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que o lockdown pode evitar o colapso no sistema de saúde.

"O maior temor é que tenha um colapso nos hospitais e UTIs, com pessoas morrendo por falta de atendimento médico. Cada decisão, seja de lockdown ou de abertura do comércio, tem que ser reavaliada de acordo com as curvas de crescimento da covid-19 no nosso estado. Essa medida [lockdown] é interessante, com reavaliação de acordo com os números. Se há um aumento descontrolado de casos, talvez a melhor opção seja de fechar tudo para salvar vidas", argumenta.

Ele também criticou a baixa adesão ao isolamento social no Rio.

As pessoas não estão entendendo ainda o que é a covid-19. Há necessidade de ganhar dinheiro. Mas as pessoas estão aglomeradas e não estão fazendo a prevenção como deveriam. Hoje, temos filas dos bancos cheias. Amanhã, serão as filas nos hospitais

Edimilson Migowski, infectologista

O pneumologista Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, diz acreditar que a queda na adesão à quarentena dos últimos dias será uma das razões para o aumento no número de mortes nos próximos dias.

"Houve um certo afrouxamento e vamos ter a repercussão em uma semana, com aumento na mortalidade. O país deveria ter mantido a linha de isolamento para que essa curva de mortalidade não subisse tão rapidamente", critica.

Segundo ele, os problemas sociais enfrentados pela população mais pobre também agravam esse cenário. Castro defende que medidas sociais deveriam ter sido adotadas pelo governo para impedir o afrouxamento do isolamento.

Políticas sociais deveriam estar em discussão. Há pessoas mais vulneráveis, que precisam de sustento e não conseguem ficar em quarentena. Elas se aglomeram para buscar algum tipo de recurso. Precisamos manter a população dentro de casa. Para isso, é preciso que o estado apoie, com ações sociais para que essas pessoas possam comer e pagar as suas contas

Hermano Castro, pneumologista

Ele aponta que já há defasagem nas equipes nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), que estão encontrando dificuldades para tratar de pessoas nos grupos de risco, como idosos, hipertensos e pessoas com diabetes. Se esse problema não for resolvido, ele acredita que a tendência é um cenário com mais mortes.

"Precisamos ter um reforço nas unidades intermediárias do sistema público de saúde para impedir que as pessoas adoeçam em meio a essa tempestade inflamatória, como a gente chama. Com isso, podemos reduzir a taxa de pessoas que evoluem para a UTI. Se o paciente precisar ir para o respirador, a chance de mortalidade aumenta", projeta.

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