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Ministro anticiência é o desejo de Bolsonaro, diz diretor do Sírio-Libanês

Fernando Ganem, médico do Sírio-Libanês - Reprodução / LinkedIn
Fernando Ganem, médico do Sírio-Libanês Imagem: Reprodução / LinkedIn

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

15/05/2020 21h31

Diretor de Governança Clínica do Hospital Sírio-Libanês, um dos mais renomados do país, o cardiologista Fernando Ganem classificou a saída do agora ex-ministro da Saúde Nelson Teich como um processo que causou um "desgaste de energia muito grande".

Em entrevista ao UOL, Ganem afirmou que o desejo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é por um ministro 'anticiência', ou seja, que não se paute pelas evidências científicas relacionadas à pandemia do novo coronavírus.

"[Um ministro anticiência] é o desejo do presidente. Quem seguiu pautado na ciência não evoluiu, não conseguiu emplacar", disse Ganem, citando o antecessor de Teich, Luiz Henrique Mandetta (DEM).

O diretor do Sírio-Libanês comenta que a cloroquina — substância que se tornou protagonista dos embates entre o presidente e os ex-ministros da Saúde — vem sendo muito estudada em vários países, mas não há qualquer comprovação de sua eficácia. A falta de evidências científicas, avalia Ganem, faz com que a substância não possa ser pensada na saúde pública.

"Todo mundo está querendo descobrir a galinha de ouro", pontua o médico. "Pode até ser que um dia a cloroquina seja eficiente, mas até o momento nenhum estudo comprovou sua eficiência nas regras gerais da academia."

Os ex-ministros Mandetta e Teich também defenderam uma posição mais cautelosa em relação à cloroquina, reiterando que a medicação não é comprovadamente eficaz e pode causar efeitos colaterais nos pacientes. Nesta semana, Teich reforçou sua posição no Twitter, o que alimentou sua discordância em relação a Bolsonaro.

"Como médico, tomar uma decisão [incentivar o uso da cloroquina] deste tamanho, sem evidências científicas, é bastante delicado", diz Ganem.

Não há um alinhamento do setor responsável, no caso o Ministério da Saúde, com o governo. Quando isso acontece, você perde energia e cria um ambiente com falta de confiança. O público leigo começa a ver informações sobre medicamentos e pode tomar decisões equivocadas."

Comitê deveria ser montado

Na opinião do diretor do Sírio-Libanês, o governo federal poderia montar um comitê de gerenciamento das políticas para a covid-19 aos moldes do que foi feito em São Paulo. O comitê montado pelo presidente, no entanto, não tem característica técnica e é formado, em sua maioria, por ministros e pelo alto escalão de agências e bancos estatais.

A imunologista Nise Hitomi Yamaguchi, que por vezes personifica esse comitê da presidência, já se mostrou favorável à cloroquina e afirmou que há evidências científicas para seu uso no "tratamento precoce" da covid-19. A posição de Yamaguchi, no entanto, não se sustenta cientificamente. Além disso, a médica já se posicionou a favor de dosagens mais baixas da substância do que aquelas que vinham sendo aplicadas em hospitais.

"O Brasil tem pesquisadores de renome internacional, com competência técnica indiscutível. Em um momento como esse, talvez uma câmara técnica com infectologistas e biólogos pudesse dar um respaldo [ao governo federal]. Pode ser que um ministro que não é técnico entre, um gestor público, mas para a tomada de decisão precisamos de pesquisadores altamente capacitados", finaliza o Ganem.

Errata: o texto foi atualizado
O médico Fernando Ganem é diretor de governança clínica do Hospital Sírio-Libanês, e não do Pronto Atendimento. A informação foi corrigida.

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