PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus

Citada por Bolsonaro como exemplo, Suécia encara recessão e mortes em alta

8.mai.2020 - Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia - JONATHAN NACKSTRAND/AFP
8.mai.2020 - Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia Imagem: JONATHAN NACKSTRAND/AFP

Rodrigo Mattos

Do UOL, no Rio

16/05/2020 04h00

Citada por Jair Bolsonaro como exemplo por não impor isolamento duro contra o coronavírus, a Suécia enfrenta uma recessão econômica similar ao restante da Europa, além de ter mais mortes do que outros países nórdicos. Se o Brasil tivesse índice de mortalidade similar ao país europeu para a covid-19, já teria em torno de 76 mil óbitos (atualmente, são 13.993).

Na quinta-feira (14), Bolsonaro citou duas vezes a Suécia como exemplo —o país adotou distanciamento social leve, com apenas recomendação à população de evitar aglomerações. Estabelecimentos comerciais seguem abertos.

"Não precisa dessa gana toda para conter a expansão. Conter por um tempo, porque o vírus vai atingir pelo menos 70% da população. Essa maneira radical de proporcionar lockdown... Eu não falo inglês, como é? Lockdown. Não dá certo, e não deu certo em lugar algum do mundo. A Suécia está bem com sua economia. Se morrem cem pessoas aqui e cem no Uruguai, há uma diferença enorme. Lá a população é 30 ou 40 vezes menor do que a nossa", afirmou Bolsonaro, em sua live.

A economia sueca, no entanto, não está bem. A Comissão Europeia elaborou um documento com previsão para o desempenho da economia no continente em que estima queda geral de 7,4% do PIB na região.

No caso sueco, a estimativa é de que a economia tenha contração de 6,1%, ou seja, pouco melhor do que o restante da Europa. O Riksbank, banco central sueco, é mais pessimista: estima queda do PIB de 7,1%.

12.mai.2020 - Cartaz em shopping de Estocolmo recomenda que frequentadores mantenham distância - HENRIK MONTGOMERY/AFP - HENRIK MONTGOMERY/AFP
12.mai.2020 - Cartaz em shopping de Estocolmo recomenda que frequentadores mantenham distância
Imagem: HENRIK MONTGOMERY/AFP

Ao jornal Financial Times, o presidente do banco central sueco, Stefan Ingves, afirmou que a maior parte da economia fechou "de um jeito ou de outro" porque, "se as pessoas ficam em casa, é difícil estimular". Ele afirmou não saber dizer neste momento se Suécia terá alguma vantagem econômica sem lockdown, o que só conseguirá avaliar no próximo ano.

Além de as pessoas ficarem mais em casa, mesmo com o comércio aberto, a questão é que a economia sueca é dependente de outras da Europa e do mundo. E há indústrias fechadas porque não há demanda para exportação.

"A deterioração da economia não tem precedentes em termos de velocidade e profundidade. De início, a produção, interrupção de comércio e fechamento de plantas afetaram indústrias que estão altamente integradas com as cadeias internacionais, como a indústria de carros. Quando o vírus se expandiu também se expandiu o impacto na economia doméstica", afirma o documento da Comissão Europeia sobre a economia sueca.

Um estudo de economistas dinamarqueses da Universidade de Copenhague, publicado na semana passada, comparou a economia do país e da Suécia: a conclusão é que o consumo foi reduzido em 29% na Dinamarca, e em 25% na Suécia. Ou seja, índices similares apesar de o comércio sueco permanecer aberto.

"As descobertas sugerem que a mais vasta maioria da queda da atividade econômica pela covid pode ser atribuída aos riscos da doença que incendiam comportamento, mais do que restrições governamentais", diz o estudo.

O que dizem os economistas

Na visão de economistas, a epidemia do coronavírus alterou o comportamento da população no consumo independentemente de medidas de distanciamento social. Isso por conta de dois fatores: as pessoas têm medo de se expor em lugares e temem gastar em um cenário de incerteza.

"[A queda no consumo] Tem um pouco a ver com a mudança do comportamento das pessoas. Por mais de que as atividades não tenham sofrido restrições, muitas pessoas continuam com distanciamento. Afeta o comportamento dos consumidores. Cai a demanda da mesma forma", analisa Guilherme Tinoco, mestre em economia pela USP, ao analisar países com restrições brandas.

Economista da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, Gustavo Fernandes acrescentou que o cenário negativo também deixa consumidores e empresas mais pessimistas. Com isso, há uma redução dos gastos com consumo e dos investimentos.

"O distanciamento social e fechamento comercial são só um dos itens em um processo que começou há muito tempo. A Suécia tomou medidas mais brandas. Mas as empresas suecas têm cenário de investimento mais complicado, o consumidor sueco sabe que situação é mais adversa. O volume de gastos reduziu e o volume de investimentos de empresas cai bastante", afirma ele, traçando um cenário comum a todos os países.

Além disso, os economistas apontam uma interligação entre as economias do mundo, o que torna difícil que uma se mantenha imune à crise global por não aderir a medidas de distanciamento social.

"O segundo choque é de oferta, que não é só por estar fechando as coisas. Tem um problema na cadeia produtiva que é bastante integrada. A China é uma das principais parceiras dos países e parou de funcionar em janeiro. Levou a um choque de oferta inicial. Tempo de entrega no comércio aumentou e tem um choque na demanda na sequência", disse Gustavo Fernandes.

Tinoco lembrou que o Brasil já sofria impactos econômicos do coronavírus antes mesmo da chegada da epidemia ao país. "No comecinho da crise no Brasil, não vinham peças da China. Não se sabia do vírus e sabia-se do efeito. Um país muito aberto ao comércio sente isso."

Com índice de óbitos da Suécia, Brasil teria 76 mil mortos

Em relação ao aspecto de saúde, de combate efetivo ao coronavírus, a Suécia tem um número de mortes pela epidemia superior aos outros países nórdicos e até em relação ao Brasil. Foram 3.646 óbitos, o que representa 361 por cada milhão de habitantes. Na Finlândia, esse número é de 54 e, na Dinamarca, de 93 (são países com perfil de população similar ao sueco).

Já o Brasil tem um índice de 68 mortes por milhão de habitantes. Se repetisse a proporção de mortes da Suécia, o país teria em torno de 76,5 mil óbitos atualmente, em vez dos cerca de 14 mil atuais.

Na Suécia, um grupo de epidemiologistas já criticou o isolamento brando adotado pelo governo. Mas toda a política de distanciamento social brando —que inclui escolas até 16 anos abertas— foi estabelecida por orientação de cientistas.

Mais mortes levam a mais recessão

Estudos da Comissão Europeia também indicam que os países com maior número de mortes absolutas enfrentarão maior recessão. São quatro os países com mais óbitos: Itália (31.610), Espanha (27.459), Reino Unido (33.998) e França (27.529) (os números são de ontem).

Para esses quatro países, a comissão estima que a retração econômica será mais grave do que a média do continente. A Itália e a Espanha têm estimativas de redução do PIB na casa de 9%. Nos casos franceses e britânicos, a recessão prevista gira em torno de 8%. A média do continente é de 7,4% de recessão, segundo a previsão.

Coronavírus