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Subnotificação pode atrapalhar avaliação de efeitos do lockdown no Maranhão

Morador de São Luís-MA apresenta permissão para circular de automóvel durante lockdown por causa da covid-19 - Biné Morais/Agência São Luís
Morador de São Luís-MA apresenta permissão para circular de automóvel durante lockdown por causa da covid-19 Imagem: Biné Morais/Agência São Luís

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

21/05/2020 04h00

O Maranhão foi o primeiro estado do país a decretar lockdown, a medida mais restritiva para o combate à pandemia do novo coronavírus. Duas semanas depois, o governo já aponta efeitos positivos para a medida de bloqueio total, mas especialista alerta que a subnotificação de casos pode atrapalhar a avaliação dos resultados.

A decisão de decretar o lockdown no estado já estava sendo cogitada pelo governador, Flávio Dino (PCdoB), quando as taxas de ocupação dos leitos de UTI da capital São Luís atingiram 100%. Mas antes de o governo estadual agir, a Justiça do Maranhão determinou o bloqueio total. Desde o dia 5 de maio, há controle de mobilidade da população e barreiras foram impostas nos limites dos municípios de São Luís, São José do Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa.

Estudos apontam que os primeiros resultados das medidas restritivas de isolamento podem demorar de duas a quatro semanas para aparecer. O motivo é o tempo de incubação do vírus, que pode variar de 5 a 14 dias. Por isso, mesmo com a imposição de bloqueio no dia 5, somente após o dia 19 é que se torna possível avaliar se há desaceleração de casos.

A médica infectologista pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Maria dos Remédios Branco, concorda que somente mais para frente será possível observar impactos. Contudo, ela adianta que os efeitos podem se concentrar nas regiões de classe média de São Luís, devido à dificuldade de adesão nas áreas periféricas.

"A impressão que eu tive foi de um bloqueio basicamente nas áreas onde circula a classe média e nas fronteiras dos municípios", conta. "Realmente o acesso à ilha [de São Luís] foi fechado, assim como a fronteira entre um município e outro. Aparentemente, pelo que a gente viu na imprensa, não funcionou nas áreas periféricas, em que é mais difícil mesmo de se controlar".

Governo vê melhoras

No entanto, o governo do Maranhão diz já ter vislumbrado melhoras. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a taxa de contágio de coronavírus na ilha de São Luís apresentou queda, após as medidas de isolamento social e o lockdown.

"Nos primeiros 30 dias da pandemia na ilha, houve em média a duplicação de novos casos a cada cinco dias. A partir do lockdown, a duplicação se deu com uma diferença maior do que dez dias", informa o governo, que ressalta que melhores resultados só poderão ser observados nas próximas semanas.

A secretaria também observou queda na taxa de reprodução da doença, que avalia o quanto uma pessoa infectada é capaz de contaminar outras. "A maior taxa de expansão registrada no Maranhão foi no dia 4 de abril: era de 3. No dia 17 de maio, ela era de 1,03 no Estado", diz.

Durante esse tempo, houve aumento na oferta de leitos de UTI. Antes do início da pandemia no Estado, havia 232 leitos. Ontem, a secretaria informou que esse número cresceu seis vezes, com 1.445 leitos. Segundo o último boletim do coronavírus, a taxa de ocupação dos leitos de UTI na Grande São Luís é de 92,89%; 76,86% é a ocupação dos leitos de enfermaria.

O governador Flávio Dino comemora a ampliação dos leitos e atribui a queda na taxa de ocupação à eficácia do lockdown.

Em entrevista à Folha de S. Paulo ontem, Dino disse já ser possível ver um leve achatamento da curva em São Luís, o que permitiu receber na capital pacientes de municípios que não possuem hospitais.

"Fechamos ontem com 26 leitos de UTI vagos. Isso é um latifúndio para quem não tinha nenhum", observa o governador.

O boletim da Secretaria de Saúde também mostra uma queda na taxa de letalidade da doença desde o início de maio. Próximo ao dia 4 de maio, a taxa girava em torno de 9% e 10%. Nos últimos dias, ela estava abaixo de 5%.

Além de comemorar possíveis resultados do bloqueio, o governo do Maranhão recomenda que outros estados adotem a medida. Segundo Dino, os bônus do lockdown compensam os seus ônus.

Subnotificação

A médica Maria dos Remédios alerta para o problema de subnotificação no Estado — uma realidade em todo o Brasil — e como isso pode prejudicar a avaliação dos resultados do lockdown.

Segundo a infectologista, a taxa de disseminação da doença observada pelos números oficiais não condiz com o comportamento de uma doença pandêmica cujos tratamento e cura ainda não foram encontrados. O boletim da secretaria mostra que, nos últimos cinco dias, foram registradas 27 novas mortes por covid-19:

  • 15 de maio: 607 óbitos
  • 16 de maio: 615 óbitos
  • 17 de maio: 629 óbitos
  • 18 de maio: 632 óbitos
  • 19 de maio: 634 óbitos

"[Os números do] boletim tem um comportamento muito estranho. A doença não vai se comportar desse jeito", pondera, explicando que os óbitos devem acompanhar proporcionalmente o número de casos de diagnóstico do coronavírus.

Atualmente, o número de casos é de mais de 15 mil, e o crescimento tem sido em torno de 900 por dia. Na percepção da pesquisadora, o número de óbitos do Estado já deve ser maior do que mil. "Isso é muito ruim para definir política pública, se você não conhece o dado."

Maria dos Remédios também questiona a falta de transparência nos dados de mortes cuja causa pode ter sido a covid-19. O boletim informa apenas o número de casos suspeitos, 2.444, mas não especifica óbitos.

Para a médica, discriminar esse dado por município ajudaria a compreender o avanço da doença e o tamanho da subnotificação, pois os próprios gestores municipais conseguiriam monitorar se o dado condiz ou não com a realidade.

Ela teme que a percepção de estagnação da doença que a falta de dados causa leve a um relaxamento precoce do lockdown, que, em sua visão, ainda deveria durar mais tempo. "Provavelmente teríamos que manter do jeito que está hoje pelo mês de junho. Mas acho que o governador não vai aguentar [por pressão política, econômica e social]."

"Ele [Dino] está aumentando o número de leitos. Se tiver a capacidade de dar respostas em leitos, ele abre, nem que tenha que fechar depois de alguns dias. Mas acho que vamos ficar nesse comportamento de abre e fecha", comenta a infectologista.

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