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Coronavírus

Secom desafia ciência e cita cloroquina como droga 'mais eficaz' para covid

Comprimidos de cloroquina - Foto: HeungSoon/Pixabay
Comprimidos de cloroquina Imagem: Foto: HeungSoon/Pixabay

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

21/05/2020 20h43

A Secretaria de Comunicação da Presidência ignorou as recomendações feitas pelas sociedades médicas brasileiras e postou hoje em sua conta do Twitter uma mensagem afirmando que o Brasil "ganhou mais uma esperança no tratamento do coronavírus". A esperança se trataria da cloroquina, droga alvo de estudos que mostram que seu uso não tem eficácia para a covid-19 e ainda traz riscos à saúde desses pacientes.

"O Ministério da Saúde adotou um novo protocolo para receita da cloroquina/hidroxicloroquina. O medicamento, que já é adotado em diversas partes do mundo, é considerado o mais promissor no combate à covid-19", diz o texto, acompanhado de uma imagem que classifica a droga como "o tratamento mais eficaz contra o coronavírus."

O novo protocolo que a Secom cita foi lançado ontem e indica o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina na fase inicial da covid-19. Até então, a droga era indicado apenas para os casos graves.

O documento do ministério vai de encontro que indica a nova diretriz de tratamento da covid-19, avaliado por especialistas e que gerou um consenso da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

Como parâmetro para ser apontado como "o mais promissor" remédio, a Secom cita que utilizou dados da Sermo, uma rede social para médicos que realiza enquetes sobre vários pontos da pandemia.

"De acordo com o estudo, na Espanha, 72% dos médicos disseram que prescreveram o medicamento, na Itália 55% e, na China, 44%. Ainda segundo a levantamento feito em abril, pela Sermo, empresa global de pesquisa em saúde, mostrou que 37% dos médicos acreditam que a hidroxicloroquina é a 'terapia mais eficaz' contra a covid-19", aponta a secretaria em duas mensagens também postadas no Twitter.

Após conferir o boletim global da Sermo referente aos dias 11 e 13 de maio, o UOL percebeu que em nenhuma das categorias a cloroquina aparece como líder, nem como o mais utilizado em tratamentos, nem como a droga que apresenta melhores resultados.

Entre os médicos que afirmaram usar algum remédio em pacientes leve, a azitromicina é quem lidera, com 49% de profissionais relatado prescrição. Entre casos moderados e graves, a principal utilização é de oxigênio (58% e 64%, respectivamente).

Já quando o quesito é efeito, apenas 9% dos médicos afirmaram que a droga é "extremamente eficaz" para casos leves, atrás de várias outras como plasma, ivermectina e anticoagulantes. Nos casos moderados, esse percentual só chega a 6%, enquanto nos casos críticos ele fica em 4%.

Imediatamente após as publicações sobre o remédio, a conta da Secom recebeu várias mensagens com críticas à postura.

"Algum médico assinou esse protocolo?", citou um internauta, lembrando que não há nenhum profissional da área que assina o protocolo. "É muito grave essa postagem. Ao contrário do que está escrito, as pesquisas mais recentes apontam que a hidroxicloroquina não é eficaz", afirma outro usuário.

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