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Coronavírus

Chamada de despedida: brasileiro leva conforto a paciente e família nos EUA

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

26/05/2020 20h05

A covid-19 ressignificou a relação de Fernando Kawai com a morte. Brasileiro que trabalha há 16 anos nos Estados Unidos, ele é clínico geral e especialista em cuidados paliativos. O médico detalha os esforços físicos e psicológicos não só para atender pacientes, mas também para promover videoconferências em que famílias se despedem de um ente querido em estado crítico. Todos os dias.

Ontem, o Brasil ultrapassou pela primeira vez os Estados Unidos em número de novas mortes por covid-19: foram 807 óbitos brasileiros registrados em 24 horas, contra 620 norte-americanos. Hoje, o país passou de 390 mil casos diagnosticados da doença e chegou a 24.512 mortes pela doença. Os EUA são o país com maior quantidade de óbitos pela covid-19 no mundo — 98.261, segundo o CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças americano).

Neste contexto, o UOL ouviu brasileiros que moram nos EUA e que, além da relação próxima com a doença causada pelo novo coronavírus, também são obrigados a lidar com a preocupação com a família, a milhares de quilômetros de distância.

Kawai atua na linha de frente do combate à covid-19 no Hospital NewYork-Presbyterian Queens. Como o próprio nome adianta, o centro médico fica no bairro de Queens, em Nova York, portanto atende a área mais afetada da cidade mais afetada pelo coronavírus nos EUA — que é também o país mais afetado do mundo. Neste estágio de pandemia, não é um simples trabalho.

"Ver mortes não é algo novo para mim, mas antes os pacientes já tinham diagnósticos claros de doenças terminais, eram pessoas sofrendo. Agora, muitas vítimas de covid-19 eram saudáveis, estavam trabalhando até outro dia", comenta o clínico geral.

O objetivo de uma equipe de cuidados paliativos é aliviar o estresse causado por uma doença grave, tanto para os pacientes quanto para suas famílias. Na prática, Kawai acompanha a evolução do paciente e explica alternativas de tratamento, mais ou menos agressivas, para compartilhar as decisões com todos os envolvidos.

Dr. Fernando Kawai atende pacientes de covid-19 na cidade mais atingida pela doença nos EUA - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Fernando Kawai atende pacientes de covid-19 na cidade mais atingida pela doença nos EUA
Imagem: Arquivo pessoal

Neste processo a morte se impõe como uma etapa inevitável, e o desafio médico é reduzir os traumas que ela causa. O problema é que a severidade da pandemia abala todo este raciocínio lógico.

"Sempre volto cansado para casa, mas penso 'bom, pelo menos permiti que uma família se despedisse' ou talvez 'puxa, salvei uma vida'. Tudo isso é uma bagunça, e dentro dela tento fazer a minha parte. Mas não quero dizer que seja uma maravilha, pelo contrário: é horrível", admite Kawai, que calcula ter atendido mais de 400 pacientes desde o início da pandemia.

O contato direto com o coronavírus infelizmente cobra seu preço. "Estamos arriscando as nossas vidas. Eu peguei covid-19, fiquei quase duas semanas com falta de ar e no processo passei para minha esposa. Felizmente nós dois nos recuperamos bem, mas tive colegas que morreram. Várias enfermeiras testaram positivo, uma delas levou a doença para casa e agora tem o pai internado... É um enorme estresse psicológico para nós", relata o médico.

Despedidas têm música, recado e perdão

O médico tem em média três reuniões online por dia com familiares de pacientes em estado grave de covid-19: ele e o internado no hospital, e os familiares na tela do tablet.

Algumas videochamadas são para avaliação médica, outras são visita familiar, mas quando o estado do paciente é crítico o vídeo serve como despedida.

"São momentos muito significativos. Em geral eu costumo chorar uma vez ao ano, mas só na primeira semana de covid-19 foram umas cinco vezes", recorda Kawai.

Ele revela os momentos mais tocantes.

"Uma senhora estava em casa de repouso, e o filho não a via há alguns meses porque morava em outro estado. Ele pediu para falar com ela. Eu disse que era importante ele falar, mas que ela provavelmente não responderia por estar em coma. Quando ela ouviu a voz do filho, despertou, falou algumas frases, disse que o amava e pediu para se cuidar. Foi fantástico, inesperado."

"Outro caso foi de um senhor que não tinha família. Ele tinha mais de 90 anos e era fã de música clássica. Tinha feito amizade com uma harpista profissional, que pediu para tocar para ele no vídeo. Quando ela começou a tocar, ele respondeu à música. O poder da música foi impressionante, mesmo em um concerto por tablet", relata Kawai.

Entre o abalo emocional e a esperança

Fernando Kawai combate o desgaste emocional da rotina em Nova York com preceitos budistas. A ideia é aceitar o sofrimento da perda, da dor e ajudar as pessoas. "Não é necessariamente consertar o problema, mas estar presente e escutar, ajudar", diz.

Em meio a tanto desgaste, também há alívio e lágrimas de felicidade. No hospital em que Kawai trabalha, os alto-falantes comemoram toda vez que um paciente diagnosticado com covid-19 recebe alta. A música escolhida é simbólica, Don't Stop Believing (Não deixe de acreditar, em português), um rock clássico da banda norte-americana Journey. Um conselho universal, que vale para os pacientes de Nova Iorque, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo inteiro.

Atrasado, Brasil "perde muito tempo" com cloroquina

Na visão de Kawai, o avanço da doença entre os brasileiros é um péssimo sinal — ainda mais nesta velocidade de contágio.

"Os Estados Unidos gastam 3,4 trilhões de dólares por ano com saúde, quase o dobro do PIB inteiro do Brasil [que em 2018 foi de 1,86 trilhão]. Há muito mais recursos para expandir hospital, montar UTI, comprar respiradores e dar equipamentos de proteção aos profissionais de saúde. No Brasil tudo isso é um problema imenso: muitas enfermeiras e médicos têm morrido por falta de equipamento e condições limitadas de trabalho, por exemplo", opina o médico, que vê o Brasil reagindo tardiamente à covid-19.

"O Brasil está perdendo muito tempo na discussão sobre cloroquina. O que deveria ser mais discutido é a prevenção do contágio, o isolamento. As grandes cidades dos EUA têm feito lockdown muito mais rigoroso e com adesão muito maior", pontua, alertando ainda sobre a subnotificação da doença. "Há muito mais testes nos EUA do que no Brasil. Muitos brasileiros nem têm o diagnóstico por falta de testes."

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