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Coronavírus

Controle da covid depende mais de cobertura ampla que de eficácia da vacina

Sanjay Kanojia/AFP
Imagem: Sanjay Kanojia/AFP

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

13/01/2021 04h00

Com vacinas às vésperas da aprovação no Brasil, a covid-19 inicia a rota de outras doenças infectocontagiosas que passaram a ser controladas com imunização.

Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que, com taxas de eficácia baixas, atingir uma cobertura vacinal próxima a 90% é fundamental para que a vida volte a uma rotina parecida com a pré-pandemia. A CoronaVac tem eficácia geral de 50,38%. A desenvolvida por Oxford/AstraZeneca tem, em média, 70%.

"Quanto menor a eficácia de uma vacina, maior a quantidade de gente que precisa se vacinar para se alcançar o mesmo efeito de cobertura", afirma Flávio Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e do departamento de microbiologia e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Isso não quer dizer que duas vacinas a começar a imunização não tenham um papel crucial para o controle da pandemia por aqui.

"O ideal, claro, seria ter uma vacina melhor, com taxa de eficácia maior. Uma vacina com 70%, 80%, 90% pode vir no futuro para nós, mas ela ainda está distante. Enquanto isso, uma vacina que reduz a chance de doença grave pode —perfeitamente e obviamente— ser utilizável e cumpre um papel importantíssimo", diz.

Segundo ele, um fato que precisa ser levado em conta é a população que já teve a doença e tem imunidade natural —mesmo que temporária.

É um calculo simplista: se 80% se vacinar com um imunizante com 50% de eficácia, teremos ao menos 40% de imunizados. Somando com os cerca de 20% com imunidade por terem tido tido a doença, chegamos perto daqueles 60% da famosa imunidade de rebanho. Essa conta já era prevista no início da pandemia.
Flávio Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia

Já foram mais de 8 milhões de infectados desde o início da pandemia no país, em março.

É preciso vacinar em massa

Para Melissa Palmieri, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) em São Paulo, será necessário o país atingir entre 80% e 90% de pessoas imunizadas para termos um resultado coletivo favorável. "Só assim a gente terá uma prevenção de casos moderados e graves, o que tornará a doença algo possível de conviver", diz.

Com uma população de 211 milhões de pessoas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), devem ser necessárias ao menos 380 milhões de doses (duas para cada pessoa) para alcançar uma imunização de 90% dos brasileiros.

Se levarmos em conta a capacidade dos laboratórios, esse número pode ser alcançado ainda antes do fim do ano. O Instituto Butantan informou que pode produzir até 1 milhão de doses da CoronaVac por dia. Até o fim de janeiro, 40 milhões de doses da vacina deverão ser produzidas.

Já a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que produzirá a vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford, promete a entrega das primeiras vacinas em fevereiro. Até julho a previsão é que 100 milhões de doses sejam produzidas, ampliando para 210,4 milhões até o final do ano.

Palmeri explica que o objetivo no momento é prevenir e reduzir casos de hospitalização e mortalidade. Para isso, ela usa como exemplo doenças que têm a gravidade reduzida no país por conta de imunizações.

"Na vacina do rotavírus, na pneumocócica, o ideal é sempre ter 90% de imunizados. Cada vacina vai ter um percentual para funcionar bem, dependendo também de cada grupo. Não tem um número mágico. Mas o ideal é alcançar esses 90%, sem dúvida", diz.

O epidemiologista Paulo Nadanovsky, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e pesquisador da Fiocruz, afirma que, no início da vacinação, não haverá efeito visível prático. Isso pode até, em um primeiro momento, causar uma alta da doença pelo maior relaxamento de medidas preventivas pelas pessoas.

"A vacina —qualquer que seja a eficácia— não é uma solução mágica, não é uma 'bala de prata' que vai evitar totalmente os problemas. A incidência da doença ainda está muito alta. Precisamos de todos os cuidados por um longo tempo. Só depois teremos os efeitos da imunização", finaliza.

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