PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus

Após o final do ano, a covid-19 explodiu em minha família - e no país

Em foto de 2019, Ananda Portela segura a mão da avó, internada com covid-19 - Acervo Pessoal
Em foto de 2019, Ananda Portela segura a mão da avó, internada com covid-19 Imagem: Acervo Pessoal

Ananda Portela*

Do UOL, em São Paulo

17/01/2021 04h00

Poucos dias depois das festas de fim de ano, as confirmações de infecção pelo novo coronavírus assustaram a família de Ananda Portela, redatora do UOL. As comemorações de Natal e Réveillon resultaram em duas hospitalizações: a do seu pai e sua avó.

Os planos para uma festa ao ar livre, na casa da avó em Minas Gerais, não saíram como esperado. Em um momento, Ananda, que não havia recebido diagnóstico positivo, teve de adotar máscaras e distanciamento da família dentro da própria casa. Ela foi a última a receber a confirmação da doença, depois de ter cuidado dos pais, do irmão e da cunhada.

"No dia em que escrevo este texto, 13 pessoas da minha família estão contaminadas com o novo coronavírus.

Nos encontramos no fim de 2020 para as festas de fim de ano em Minas Gerais. No dia de Natal, o primeiro grupo com 12 pessoas chegou à casa da minha avó. A ideia inicial era comemorar na área externa, assim diminuiria a chance de infecção pelo vírus. Mas choveu. E todas as doze pessoas foram para dentro de casa. Sem máscara.

Um novo grupo chegou no dia seguinte: meus pais, meu irmão e minha cunhada. Eu só chegaria no dia 27, depois do meu plantão. Logo que chegamos, meu tio nos avisou que minha avó, de 88 anos, estava com uma tosse chata. Ligamos um alerta.

Alguns parentes haviam participado de um almoço de Natal, mas viajaram antes de nossa chegada. Eu, meus pais, meu irmão e minha cunhada não participamos do encontro. Um dia depois da minha chegada, minha tia recebeu o diagnóstico positivo para a covid-19.

No dia seguinte, 28, uma diarreia em minha avó acenderia um novo sinal de alerta em minha cabeça: "é covid". Já a minha avó colocava a culpa na comida. Segundo ela, fazia tempo que não comia aqueles típicos pratos mineiros.

Veio o dia 29 e, com ele, uma forte dor de cabeça em minha mãe, daquelas bem no fundo do olho. O meu pai sentia uma dor intensa no corpo.

No dia do Réveillon, a minha cunhada sentiria a mesma dor de cabeça. Eu e meu irmão, ilesos. Até então.

Com o ano novo veio um desânimo e uma falta de apetite em minha avó. Logo no primeiro dia do ano, seu médico de longa data sugeriu que ela fizesse o teste para covid na farmácia mais próxima. Porém, um problema. De todas as cinco farmácias que meu pai procurou, nenhuma fazia o teste no feriado.

O resultado só veio no dia seguinte, quando meus pais, meu irmão e minha cunhada já haviam retornado para São Paulo. Antes da minha partida, fui com minha avó a uma farmácia. O teste rápido confirmou a doença.

Minha avó de 88 anos, uma das senhoras mais saudáveis que já conheci, estava com covid-19, a doença que já matou mais de 200 mil brasileiros. O desespero foi imediato."É sério", perguntei ao farmacêutico, angustiada.

Sua saturação chegou em 93, o que levou o farmacêutico a recomendar: "Vá ao hospital". Uma tia — não a que estava com covid-19 — a levou.

Também realizei testes naquele dia. Ambos, o rápido e o RT-PCR deram negativo. Então, voltei para São Paulo com uma grande função: cuidar de três pessoas infectadas.

Meus pais e minha cunhada chegaram da viagem direto para o pronto-socorro. O diagnóstico positivo deles veio no dia 3. Cabia a mim e ao meu irmão nos dividirmos para cuidar de todos.

Naquele mesmo dia, um domingo, escuto meu irmão dizer: "Que dor nas pernas, hoje fiquei muito tempo em pé." O alerta acendeu de novo.

No dia seguinte, minha mãe começou a tossir muito e se sentia muito cansada. Meu irmão foi quem a levou ao hospital. Resultado: uma inflamação leve no pulmão. Meu irmão aproveitou para fazer o teste: positivo.

Já eu, passei três dias cuidando da minha família, sem sentir qualquer sintoma. Só teve o cansaço mesmo. Mas no dia 6, no finalzinho da noite, minha garganta começou a arranhar. No dia seguinte, veio uma coriza chata. Lembra daquele alerta? Acendeu de novo.

Fui ao hospital para fazer o teste e acompanhar meu pai, pois ele se sentia muito fraco e precisava de ajuda médica. Depois de medicado, voltamos para casa. Na sexta, o meu diagnóstico: positivo. Estou bem, apenas com sintomas leves de gripe.

Meu pai, depois de mais de dez dias e de um mal-estar pesado, mas sem sintomas respiratórios, foi internado para tratar de uma desidratação provocada pela covid-19. Foram quatro dias num quarto de hospital sem ver nenhum membro da família. Segundo ele, uma situação de desespero que ele nunca viveu antes.

Enquanto tudo isso acontecia, minha avó foi internada.

Hoje, ela está intubada para aumentar a oxigenação. No dia 5, ela foi colocada de bruços para que o pulmão pudesse ficar mais livre para respirar. A pressão está baixa, o sistema respiratório e os rins, comprometidos.

As únicas notícias que temos dela são pelos áudios de Whatsapp que todos os dias seus médicos nos enviam pelo grupo da família. Parece que ouvir a notícia diretamente deles alivia um pouco por aqui. Ou não também.

Aqui fora as notícias também não animam. Assim como a infecção explodiu em minha família, explodiu também no país logo depois das reuniões de fim de ano. Só no Brasil são mais de 208 mil óbitos e 3 milhões de infectados. Todos os dias, mil mortes são confirmadas pela doença no país. Sistemas de saúde estão novamente colapsando. A aglomeração só aumenta.

Tudo isso serviu para reforçar aquilo que defendi durante todo o ano passado: use máscara, se proteja, não aglomere, valorize os médicos, a ciência. Ah, a ciência."

*Colaborou Carolina Marins, do UOL, em São Paulo

Coronavírus