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Coronavírus

AM teve alta de 41% em mortes por covid após falta de oxigênio em hospitais

14.jan.2021 - Médicos no Hospital Getulio Vargas, em Manaus, com paciente infectado pelo novo coronavírus  - BRUNO KELLY/REUTERS
14.jan.2021 - Médicos no Hospital Getulio Vargas, em Manaus, com paciente infectado pelo novo coronavírus Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/02/2021 04h00

As mortes por covid-19 no Amazonas registraram uma alta de 41% após a crise causada pela falta de oxigênio em hospitais de Manaus. A comparação foi feita pelo UOL com base em dados atualizados de óbitos da FVS (Fundação em Vigilância de Saúde) do Amazonas.

Houve uma falta quase que sincronizada de oxigênio em vários hospitais na madrugada e manhã do dia 14 de janeiro, o que levou médicos a terem de escolher entre os pacientes quem tinha mais chances de sobrevivência para receberem o insumo.

Naquela data, o estado registrou o recorde de mortes por covid-19 na pandemia: 159 em apenas 24 horas. Até então, o maior número tinha ocorrido no dia 12, com 113 mortes.

Nos cinco dias antes da falta de oxigênio, o Amazonas havia registrado 500 mortes por covid-19, ou em média cem por dia. Entre os dias 14 e 18, entretanto, esse número saltou para 706 óbitos —média de 141 por dia.

Os dados utilizados, nesse caso, são de mortes por dia, não o de registros diários de mortes coletados pelo consórcio de imprensa do qual o UOL faz parte. O consórcio inclui mortes ocorridas em dias anteriores, mas confirmadas pela secretaria estadual laboratorialmente naquela data.

Salto fora da curva

Segundo o infectologista Bernardino Cláudio de Albuquerque, que é professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia, o salto de mortes ocorrido no dia 14 foi completamente fora do padrão.

Sem dúvida tivemos um impacto significativo da falta de oxigênio nesse número. Nós estávamos em uma curva de crescimento e a cada dia visualizávamos um número maior de óbitos. Mas o aumento verificado no dia 14 foi extremamente importante e acima do esperado.
Bernardino Cláudio de Albuquerque, pesquisador e professor da Ufam

Após o dia 14, o número de hospitalizações passou a cair bastante. Segundo a fundação, em 14 de janeiro, 258 pessoas foram internadas em hospitais do estado —o recorde até aqui na pandemia. No dia seguinte, despencou para 169 e, no dia 16, para 113.

"Depois que a bomba estourou, houve uma redução importante nas internações. As pessoas não procuraram mais as unidades de saúde com medo de morrerem lá dentro por falta de oxigênio. Isso é outra correlação importante: todo mundo ficou receoso em procurar um hospital e não ter a atenção devida", diz.

Além disso, unidades de saúde também pararam de receber pacientes por falta de vagas. Foi o caso do Hospital 28 de Agosto, o maior pronto-socorro de Manaus, que desativou a triagem no dia 15 e deixou pacientes sem atendimento.

Morte não só no dia

Segundo a infectologista Vera Magalhães, a falta ou mesmo a limitação na oferta de oxigênio a um paciente com covid-19 tem impacto negativo relevante.

"A oxigenoterapia é parte essencial do tratamento. A falta de oxigênio aumenta a letalidade da doença", afirma. Também pode causar agravamentos de quadros e resultar em mais mortes.

O epidemiologista Paulo Lotufo, da USP (Universidade de São Paulo), analisou a explosão de mortes no Amazonas.

"Houve o aumento da incidência de casos graves somada à [maior] letalidade hospitalar pela falta de oxigênio. A causa básica foi o aumento da transmissão, com aumento de casos e, depois, de casos graves que necessitaram de internação. Mas, se todos hospitais estivessem bem equipados, haveria mortalidade, mas não a esse nível —o que acabou afetando também quem não tinha covid-19."

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