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Covid: Cidades em que Bolsonaro gerou aglomerações veem piora e até colapso

24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre - Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo
24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre Imagem: Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

19/03/2021 04h00

Cidades que registraram aglomerações causadas por visitas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em fevereiro e março enfrentam hoje aumento no número de casos e mortes e, em alguns casos, colapso em suas redes de saúde.

O UOL buscou informações relativas à covid-19 nas cidades em que o presidente foi fotografado ou filmado sem máscara cumprimentando apoiadores aglomerados. Todas tiveram piora em seus quadros.

Em pelo menos dois estados, os MPs (Ministérios Público) pediram investigação ao presidente pelos atos considerados irregulares por contrariarem restrições impostas na localidade.

No Acre, os MPs estadual e federal fizeram uma representação de Bolsonaro à PGR (Procuradoria-Geral da República). O documento, protocolado nesta quarta-feira (17), traz fotos do presidente sem máscara e cercado por diversos apoiadores (a maioria também sem a proteção facial).

A visita ocorreu no dia 24 de fevereiro, quando estavam proibidos quaisquer eventos que aglomerassem —o que foi descumprido. Na ocasião, quatro dias após a visita, o governador Gladson Cameli (PP) —que participou de atos com o presidente— anunciou estar com covid-19.

Depois da visita, diz a representação, a ocupação de leitos saltou de 88,7% para 96,2% —dado registrado no dia 8 de março.

O cenário de superlotação de leitos (acima de 80%) foi verificado na primeira semana de março --poucos dias após a visita da comitiva presidencial. Não é necessário qualquer tipo de raciocínio avançado para perceber que a ação dos representados ignorou totalmente as medidas destinadas a mitigar a pandemia.
Procuradores do Acre em representação contra Bolsonaro

No mesmo dia, em Brasília, Bolsonaro ainda aglomerou de novo durante posse dos ministros João Roma, da Cidadania; e Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência.

Ceará também teve problema

Situação semelhante ocorreu no Ceará, onde Bolsonaro aglomerou em Tianguá, em 26 de fevereiro. No dia em que foi, 80% dos dez leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) estavam ocupados.

Quinze dias depois, não havia mais vagas e pessoas internadas estavam sendo transferidas para Sobral —que agora está com lotação máxima. Pacientes da cidade hoje precisam esperar uma vaga para internação.

A visita também levou o MPF a pedir investigação contra Bolsonaro por contrariar norma sanitária.

"Aquele momento era uma fase crucial da transmissão do vírus aqui no Ceará e havia um decreto. Houve uma aglomeração importantíssima. A UPA [Unidade de Pronto Atendimento] da cidade teve um crescimento de atendimentos, e hoje toda a região norte do estado —incluindo Tianguá— tem ocupação máxima, com gente aguardando transferência", explica o epidemiologista Antônio Lima Neto, professor e pesquisador da Unifor (Universidade de Fortaleza).

"Foi um grave desrespeito às autoridades locais e que trouxe consequências: o estado teve de entrar em lockdown por conta do aumento de casos."

Outras visitas

Outra cidade visitada por Bolsonaro que também teve piora no cenário foi Cascavel (PR).

No dia 4 de fevereiro, quando Bolsonaro visitou a cidade e causou aglomeração, a ocupação de leitos de UTI para covid-19 estava com 76,5%. Quinze dias depois, esse percentual subiu para 90,6%. Hoje, praticamente todos esses leitos estão ocupados.

A cidade, inclusive, baixou portaria para que, entre os dias 21 e 28 de março, supermercados, mercados e lojas de conveniência fechem até o meio-dia.

A pequena e paradisíaca São Francisco do Sul (SC) também foi vítima de aglomerações no dia 13 de fevereiro. Como sempre sem máscara, Bolsonaro cumprimentou dezenas de apoiadores nas ruas.

No dia em que Bolsonaro postou um vídeo da aglomeração, no sábado de Carnaval, a cidade tinha em média 12,4 novos casos registrados por dia de covid-19. Depois de duas semanas, essa média saltou para 24,5.

O número de internados também explodiu. Na véspera de Bolsonaro chegar, havia apenas três, saltando para 23, em 26 de fevereiro. Nesse mesmo dia, um decreto municipal suspendeu as aulas presenciais e adotou medidas mais restritivas.

A situação hoje é de colapso no estado, e o governo do Estado anunciou parceria com a prefeitura para a abertura de dez leitos de UTI no Hospital Nossa Senhora da Graça.

Em Boqueirão (PB), visitada por Bolsonaro em 19 de fevereiro, a média de casos diários saltou de 2,4, naquela data, para 3,5, no dia 5 de março. Na cidade não há leitos para tratamento covid-19 e os pacientes precisam ser levados para Campina Grande.

O secretário de Saúde da Paraíba classificou a aglomeração do presidente como "descompromisso com a vida".

No caso de Uberlândia (MG), a visita do presidente ocorreu no dia 4 de março. Na data, a cidade já enfrentava um colapso na saúde —anunciado três dias antes pela prefeitura, afirmando que já tinha 100% dos leitos de UTI ocupados e 184 na fila de espera por uma vaga de UTI.

Mesmo assim, Bolsonaro foi, aglomerou e os números só pioraram. No dia da visita, a cidade tinha uma média de 15,1 mortes. Quinze dias depois, essa média saltou para 23,6.

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