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Coronavírus

Auxílio emergencial menor inviabiliza restrições e lockdown no Brasil

Cinara Aparecida Alves é cuidadora de crianças e mora na favela do Flamengo, em São Paulo - Andre Porto/UOL
Cinara Aparecida Alves é cuidadora de crianças e mora na favela do Flamengo, em São Paulo Imagem: Andre Porto/UOL

Luís Adorno e Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

21/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Especialistas dizem que, no mínimo, auxílio deveria valer uma cesta básica
  • Novo auxílio tem três faixas de valores: R$ 150, R$ 250 e R$ 375
  • Cesta básica em São Paulo custa R$ 639,47; em Aracaju, R$ 445,90
  • Com quantia, beneficiados indicam que não poderão ficar sem trabalhar
  • Sem vacinação em massa, isolamento é chave para reverter alta de mortes

A pandemia avança pelo Brasil com números de casos e mortes em alta, o que fez com que estados e municípios apertassem medidas que restringem a circulação de pessoas para frear o novo coronavírus. Mesmo assim, a cuidadora de crianças Cinara Aparecida Alves, 40, não tem como deixar de sair de casa porque precisa trabalhar para pagar as contas.

"Pago R$ 600 só de aluguel, mais uns R$ 300 que vão no mês para comida, ou seja, preciso continuar procurando criança para cuidar, se não fizer, como vai ser?", disse ao UOL a moradora da favela do Flamengo, no Jardim Peri, zona norte da capital paulista. "Se o governo nos ajudasse de verdade, não deixasse faltar teto para dormir e comida para comer, a gente não ia se arriscar procurando trabalho."

Alves deve receber o maior valor do novo auxílio emergencial do governo federal, R$ 375 por quatro meses, já que se enquadra no grupo "família chefiada por mulheres". Mesmo assim, o valor não é suficiente para que ela consiga ficar em casa.

A cuidadora, que é solteira e tem três filhos, diz que não tem problema "em colocar a mão na massa". "E os políticos sabem disso. Por isso oferecem pouco, para a gente se virar." Na última sexta-feira (19), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), disse que "a fome vai tirar o pessoal de casa".

O governo federal voltará a pagar o auxílio emergencial em abril após uma lacuna de quase três meses em que não prestou assistência financeira a brasileiros. No ano passado, a gestão Bolsonaro começando pagando R$ 600 por mês e terminou com um valor de R$ 300.

Agora, além da faixa de R$ 375, há outras duas:

  • R$ 250 para famílias que não são chefiadas por mulheres;
  • R$ 150 para quem mora sozinho.

Auxílio: aliado para o isolamento

Autor de dois estudos sobre o auxílio emergencial, Ecio Costa, professor de economia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) pontua que o benefício "se torna cada vez mais importante na medida em que você tem novas restrições da circulação". Ele lembra que as pessoas que atuam no setor de serviços, como Alves, "terminam sendo muito prejudicadas" pelas medidas restritivas.

E aí o auxílio termina entrando para ajudar essas pessoas para que elas possam ficar em casa, ter alguma renda durante o período em que não vão conseguir exercer sua atividade econômica
Ecio Costa, professor de economia da UFPE

No início do mês, o Observatório Covid-19 BR —iniciativa que reúne pesquisadores de diversas áreas do Brasil e do mundo— já havia sinalizado que o auxílio emergencial é fundamental para que as medidas de restrição pudessem ser efetivas, com adesão da população. E que, no mínimo, o valor pago fosse suficiente para a compra da cesta básica de alimentos, o que não acontecerá com o novo auxílio emergencial.

Na cidade de São Paulo, a cesta básica em fevereiro custava R$ 639,47, valor mais alto do país, segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). O menor era o de Aracaju: R$ 445,90.

Valores inviabilizam medidas

"Um auxílio emergencial de R$ 150 inviabiliza qualquer programa de restrição de circulação e, certamente, um lockdown nos moldes do que precisa ser feito", diz Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins e membro do Observatório Covid-19 BR.

"R$ 150, ainda por cima levando em consideração a inflação do período, não é nada, é uma esmola. Isso aí não vai ajudar as pessoas a ficarem em casa, a proteger aqueles que não podem estar neste momento se deslocando em transporte público", diz.

O novo auxílio emergencial deixará de atender quase 23 milhões de brasileiros em comparação com o ano passado. A maioria dos cerca de 45 milhões de brasileiros beneficiados pelo programa receberá o valor mínimo, de R$ 150.

Para o Observatório, o auxílio precisa ir até o final do ano, e não apenas as quatro parcelas liberadas. "Sem o auxílio, com a vacinação em ritmo lento: é um cenário muito complicado para a nossa economia", diz Costa.

"Agora, só Deus sabe"

pamela - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Pâmela Baptista lembra que não precisou depender de doações com o antigo auxílio emergencial
Imagem: Andre Porto/UOL

A dona de casa Pâmela Baptista, 28, foi beneficiada pelo auxílio emergencial. Em 2020, como mãe solteira, tinha direito ao benefício dobrado: R$ 1.200. "Me ajudou muito. Não precisei pedir doação nem ir para a rua atrás de serviço com meus dois filhos no meio da pandemia. Agora a gente se arrisca, né? Olha onde a gente mora. Aqui a gente nem lembra que tem [pandemia de] covid. É barraco em cima do esgoto, né?"

Assim como Batista e a cuidadora Alves, a manicure Karina Souza Nunes, 28, é moradora do Jardim Peri. Ela, que também recebeu R$ 1.200 no ano passado, não parou de trabalhar durante a crise sanitária.

Ela lembra que o número de clientes diminuiu. "Mas o dinheiro que pinga, já ajuda, né?", conta. "Sem registro, sem nada, quando tinha o auxílio, a gente tinha um pouco mais de segurança, sabia que não ia falta o pão na mesa. Tinha ficado despreocupada. Agora, só Deus sabe."

Agora a gente tem que se virar. Com o auxílio menor, vai ser tudo mais difícil. Para a gente aqui, tudo é sempre mais difícil
Karina Souza Nunes, manicure

manicure - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
A manicure Karina Souza Nunes perdeu clientes na pandemia, mas não deixou de trabalhar
Imagem: Andre Porto/UOL

Piora no quadro sem auxílio

Coordenador do estudo Epicovid19-BR, o epidemiologista Pedro Hallal, da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), acredita que a ausência do auxílio no início de 2021 foi um dos fatores para o agravamento da pandemia no Brasil, com o país passando rotineiramente a marca de 2.000 mortos por dia nas últimas semanas.

"Qualquer medida que desestimule as pessoas a ficarem em casa, coloca os números [de casos e mortes] na tendência de crescimento", diz. "Sem uma medida que afeta tão diretamente a vida das pessoas, que é não ter como se sustentar, obviamente que acabaram saindo mais. E isso ajuda a explicar os números catastróficos que a gente está observando."

Hallal diz acreditar que as quantias ofertadas pelo novo auxílio emergencial não serão suficientes para manter as pessoas em casa. "Com um valor insuficiente como esse, é óbvio que as pessoas não vão ficar em casa. Não existe possibilidade de as pessoas ficarem em casa numa situação como essa", diz o epidemiologista, que se preocupa com um outro impacto do valor do benefício: "é colocar as pessoas contra as medidas de distanciamento. Talvez seja o mais grave deles."

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