PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus

Falta de 2ª dose revolta idosos no RJ: 'Vão esperar a gente morrer?'

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

29/04/2021 04h00

Eram 5h desta segunda-feira (26) quando o vendedor ambulante Wanderley Cunha do Carmo, 68, conseguiu um lugar na fila para receber a segunda dose da vacina contra a covid-19 em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Mas deixou o local sem ser imunizado.

Com o estoque do imunizante CoronaVac zerado e sem previsão para a chegada de novos lotes, ao menos dez cidades do estado do Rio suspenderam a segunda aplicação. Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, estima que a situação esteja regularizada até a próxima semana.

Idosos sem 2ª dose na Baixada

Na praça de Imbariê, distrito de Duque de Caxias, um dos pontos de imunização, havia apenas incerteza. Carmo, que estava no local, retirou de um saco plástico o comprovante de vacinação, mostrando seu nome completo e data de nascimento. No verso, havia uma rasura na data prevista para a segunda dose, inicialmente prevista para 16 de abril.

Como dão a primeira dose sem ter a segunda garantida? A moça [enfermeira] falou que eu vou ter que esperar a minha vez. Mas já faz mais de um mês que tomei a vacina. Esqueceram da gente? Eu só queria que alguém me desse uma resposta, já não aguento mais. Estão esperando a gente morrer?

Wanderley Cunha do Carmo, vendedor ambulante

A doméstica Diva de Souza, 75, procurou o local de vacinação na praça Imbariê para a segunda dose há uma semana. "Mas não teve jeito. O rapaz [enfermeiro] disse que estava em falta", lamentou.

O aposentado Rogério dos Santos, 64, relembra da aplicação da primeira dose, quando chegou às 3h40 de 11 de abril à fila formada na praça de Imbariê. Com a senha 118, disse ter sido vacinado às 8h20.

De lá para cá, Santos viveu a expectativa da dose que completaria a imunização, prevista para domingo passado (25). "No momento, sei que não tem a segunda dose. Mas tenho que tomar logo, para ficar mais tranquilo e poder levar uma vida mais saudável", disse.

Frustração e medo

Ontem à tarde, uma pequena fila de carros se formou em frente ao centro olímpico de Nova Iguaçu, um dos 22 pontos de vacinação em funcionamento nesse município da Baixada Fluminense. "Vocês estão aplicando a segunda dose?", perguntou a aposentada Lúcia das Neves Lima, 67.

Ela deixou o local após ser informada por uma enfermeira de que estavam sendo aplicadas apenas a primeira dose da Oxford/AstraZeneca para mulheres de 58 anos com comorbidades e profissionais de educação com a mesma idade.

"Estão dizendo que não tem [a segunda dose]. Fiquei frustrado, porque estava com a expectativa dessa imunização. Pelo jeito, vou esperar mais um pouco", lamentou o aposentado José Manoel de Carvalho, 67, que foi de carro ao local.

A professora Fátima Regina Revoredo da Silva, 67, foi ao local no banco traseiro do veículo conduzido por sua filha. Com o comprovante de vacinação em mãos, ela trazia também a esperança de receber a segunda dose.

"Para ficar imunizada, eu preciso da segunda dose. O sentimento é de insegurança e de uma certa revolta. Há um certo descontrole dos governantes. Se tomei a primeira dose, teria que ter a segunda dose já à disposição. Agora, o jeito é redobrar os cuidados", argumentou.

O que dizem as prefeituras

A Prefeitura de Duque de Caxias informou que "aguarda a entrega de novas doses pelo Ministério da Saúde para dar continuidade ao calendário de vacinação". Gestantes, profissionais de educação da rede municipal, rodoviários e pessoas com comorbidades estão recebendo primeira dose da Oxford/AstraZeneca no município.

Em entrevista ao UOL em março, o prefeito Washington Reis (MDB) disse que não faria estoque de vacina para a aplicação da segunda dose. "Se eu priorizar os mais velhos e ficar com estoque de vacina, como fica? Lugar de vacina não é na geladeira", disse na ocasião.

Em nota, a Prefeitura de Nova Iguaçu reconheceu o problema de desabastecimento da CoronaVac e disse seguir o cronograma da Secretaria Estadual de Saúde. E, embora tenha relatado uma diferença de quase 15 mil entre primeira e segunda doses, não informou por que não foi feito um armazenamento para a segunda dose.

"Desde o mês de janeiro até o dia 25 de abril, último dia de entrega, o município recebeu 141.790 doses da vacina, sendo 78.125 primeira dose e 63.665 de segunda dose. Havendo, assim, uma diferença de 14.460 doses entre elas. As vacinas foram aplicadas de acordo com cronograma da Secretaria Estadual de Saúde. Aguardamos, portanto, as próximas entregas para prosseguir", disse a administração municipal, por nota.

Coronavírus