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'Façam o que quiserem comigo', diz único suspeito vivo dos atentados de Paris

Abdeslam durante julgamento; suspeito não permitiu divulgação de sua imagem  - Emmanuel Dunand/AFP
Abdeslam durante julgamento; suspeito não permitiu divulgação de sua imagem Imagem: Emmanuel Dunand/AFP

Em Bruxelas

05/02/2018 09h26

O francês Salah  Abdeslam, único integrante vivo das células jihadistas que mataram 130 pessoas em Paris, em novembro de 2015, se negou a responder às perguntas do tribunal que começou a julgá-lo nesta segunda-feira (5), em Bruxelas, expressando apenas sua confiança em Alá.

O julgamento acontece no Palácio da Justiça de Bruxelas, onde o réu chegou após uma viagem de quatro horas a partir da prisão de Fleury-Mérogis, ao sul de Paris, em um comboio policial escoltado por unidades de elite.

"Você é Salah Abdeslam, nascido em Bruxelas em 15 de setembro de 1989?", perguntou a juíza que preside o processo, Marie-France Keutgen, no início da audiência. "Eu não quero responder nenhuma pergunta", respondeu Abdeslam.

O advogado do réu, Sven  Mary, informou que ele não autorizava o uso de sua imagem durante o processo. Por esse motivo, não foram divulgadas fotos de Abdeslam durante o julgamento. O réu se recusou inclusive a ficar de pé quando foi solicitado pela juíza.

Não desejo responder a nenhuma pergunta, mas meu silêncio não me converte em criminoso, é a minha defesa"

Abdeslam, diante do tribunal

Reprodução da imagem de Salah Abdeslam no tribunal em Bruxelas - Benoit Peyrucq/AFP
Reprodução da imagem de Salah Abdeslam no tribunal em Bruxelas
Imagem: Benoit Peyrucq/AFP

"Há provas neste caso, provas tangíveis, científicas. Gostaria que nos baseássemos nisso", acrescentou o acusado, criticando o objetivo do julgamento de "satisfazer a opinião pública".

Abdeslam fez questão de mencionar Alá e sua religião, o islamismo.

É em meu Senhor que deposito minha confiança (...) o que constato é que os muçulmanos são julgados e tratados da maior pior maneira possível. Testemunho que não existe outro deus que não Alá, Maomé é seu servidor e seu mensageiro. Agora, julguem-me, façam o que quiserem comigo. É em meu Senhor de deposito minha confiança. Não tenho medo de vocês, minha confiança está em Alá e isso é tudo, não tenho nada a acrescentar."

Neste julgamento na Bélgica, Abdeslam responde pela morte de três policiais em um tiroteio na Bélgica em março de 2016 que levou a sua captura. Ele pode ser condenado a 40 anos de prisão.

Esse é considerado um preâmbulo do julgamento que acontecerá na França pelos atentados de Paris que deixaram 130 mortos, em uma data que ainda não foi anunciada.

Foto de Salah Abdeslam quando ele era procurado pela participação nos atentados - AFP
Foto de Salah Abdeslam quando ele era procurado pela participação nos atentados
Imagem: AFP

Silêncio total

Desde sua detenção na França em abril de 2016, Abdeslam mantém silêncio diante dos investigadores. Uma das incógnitas era saber se ele falaria no julgamento.

As autoridades organizaram um importante dispositivo de segurança, dentro e ao redor do Palácio de Justiça.

O réu, que cresceu e se radicalizou no bairro de Molenbeek, em Bruxelas, fazia parte de uma célula jihadista envolvida em ao menos três grandes operações terroristas nos últimos anos.

Os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris (130 mortos), os de 22 de março de 2016 em Bruxelas (32 mortos) e o fracassado ataque em um trem entre Amsterdã e Paris em agosto de 2015 foram de responsabilidade, "talvez, unicamente da organização Estado Islâmico", segundo a Procuradoria federal belga.

Abdeslam é julgado esta semana por um fato ocorrido em 15 de março de 2016, dia em que investigadores franceses e belgas foram surpreendidos por tiros durante uma operação de rotina em um dos abrigos da célula em Forest.

Três policiais ficaram feridos enquanto um jihadista de origem argelina, de 35 anos, Mohamed Belkaid, morreu ao enfrentar os agentes para encobrir a fuga de Abdeslam e de um cúmplice, Sofiane Ayari, um tunisiano de 24 anos, que também será julgado em Bruxelas.

Os dois jihadistas foram detidos três dias depois, em 18 de março, em Molenbeek, uma prisão que, segundo os investigadores, representou o detonador dos atentados de 22 de março, quando três atacantes suicidas se explodiram no aeroporto e no metrô da capital belga.

Uma associação de vítimas de atentados, V-Europe, que diz representar cerca de 200 pessoas dos atentados de Bruxelas, reclamou ser parte civil no julgamento.

A defesa dos acusados poderá aceitar de mau grado esta constituição em parte civil de última hora, apesar de várias fontes relacionadas com o caso excluírem qualquer novo adiamento.

A audiência, que deveria ter acontecido em meados de dezembro no tribunal correcional de Bruxelas, foi adiada para dar tempo a Sven Mary, o novo advogado de Abdeslam, preparar sua defesa.

Um renomado criminalista belga acompanhou o jihadista logo depois de sua prisão, mas jogou a toalha sete meses depois, criticando a incompreensível atitude de seu cliente.

Salah Abdeslam e Sofiane Ayari devem responder pelas acusações de "tentativa de assassinato de vários policiais" e "posse de armas proibidas", tudo em "um contexto terrorista".

Abdeslam será conduzido a cada dia da prisão de Vendin-le-Vieil, norte da França, onde tem as mesmas condições que na prisão perto de Paris, em que se encontra em regime de isolamento e sob videovigilância 24 horas desde sua chegada, em abril de 2016.

Atentados em Paris em novembro de 2015

AFP

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